“Lugares escuros” e a sombria psique humana

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Sinopse

Desde que perdeu a mãe e as duas irmãs mais velhas, mortas em um trágico massacre ocorrido dentro da própria casa quando tinha apenas 7 anos, Libby Day colecionou dias de mera sobrevivência, vazios e opacos. O principal suspeito pelos assassinatos foi o próprio irmão, Ben Day, o mais velho dos filhos, à época um jovem adolescente, preso desde então. Vinte e quatro anos depois, Libby se vê sem dinheiro nenhum e resolve vender sua presença, seu relato e algumas lembranças da infância relacionadas à família para um clube de aficionados por crimes – o Kill Club. A partir dessa iniciativa nada nobre, ela percebe-se de volta ao passado, do qual fugiu sempre, e resolve enfim enfrentar todos aqueles acontecimentos (pela primeira vez), a fim de descobrir se realmente foi seu irmão o assassino dos Day.

Opinião e comentários

Este é o segundo livro da americana Gillian Flynn, que já tinha escrito Objetos cortantes [crítica sobre este aqui: “‘A vítima perfeita’ e ‘Objetos cortantes’: a centralidade das personagens femininas”], e achei palpável a evolução narrativa. Aqui, ela reafirma seu refinado talento para a tessitura de tramas psicológicas, com grande foco na construção de personagens complexos, densos e cheios de traumas e feridas. E femininos.

Em Lugares escuros, achei os personagens especialmente frios. Libby, a protagonista, apesar de toda a história triste e comovente que carrega, não consegue causar grande empatia no leitor. Ela é solitária, muito fechada e interesseira. Os personagens, de uma maneira geral, têm essas mesmas características. Ninguém é mocinha ou mocinho, daquela forma clássica (e irreal, né, não custa lembrar). O livro retrata a humanidade e seu egocentrismo, que de fato guarda pouca empatia entre as pessoas.

A obra é dividida em três linhas narrativas: uma nos dias atuais, na voz de Libby, e duas na época dos crimes, sob a perspectiva de Patty, a mãe, e Ben, o irmão. Essa foi uma escolha que funcionou bastante; os três fios correm muito bem, com ótimas amarras. As narrativas de Patty e Ben, principalmente, complementam-se perfeitamente no decorrer das páginas (não de cara, mas gradativamente ao longo dos capítulos). A única ressalva, aliás, a meu ver, fica por conta disso: o início do livro é meio lento, a história demora a engrenar. Podia ter mais emoção.

Passada em um vilarejo do interior dos Estados Unidos, a trama reproduz preconceitos – principalmente nas partes narradas na década de 1980 – e machismo. A família pobre que é humilhada, os jovens punks acusados de serem satanistas, a mãe divorciada discriminada e difamada, sendo considerada, inclusive, prostituta. Bons motes para discussões e reflexões. Mais um ponto.

O suspense psicológico criado por Flynn em Lugares escuros muito me agradou também. Há diversos elementos e personagens envolvidos no enredo, e o clima de tensão se mantém até o fim. A autora desenvolveu a história melhor desta vez, principalmente o fim, que foi trabalhado com calma – diferentemente de Objetos cortantes, que deixa o leitor com a sensação de que as últimas páginas foram cuspidas. Aliás, mais pontos para Flynn, porque o desfecho é uma baita virada, inovador e surpreendente. Ao longo do livro, ela dá pistas sobre o que viria pela frente, algo que acho importante para dar credibilidade. Por isso, mesmo sendo um pouco imprevisível (mas eu tinha essa suspeita, há!), é um fim bem construído e muito satisfatório, na minha opinião.

Além do início lento, como disse, a única coisa que achei não ter funcionado tão bem foi o Kill Club, cuja participação podia ter sido mais bem explorada, e não foi. Pelo contrário: rendeu uma partezinha meio monótona (e é ainda no início do livro, o que reforça o primeiro comentário). Mas isso não chega a prejudicar a leitura nem o interesse pela trama, que merece ser lida.

Nota

9/10. Gostei muito. 😉

Obs.: Há um filme baseado no livro, protagonizado pela Charlize Theron. É até legalzinho, mas, para quem leu, fraco.

Obs. 2: Como comentei mais acima, essa é realmente uma autora que tem se destacado na literatura feminina, com grandes personagens mulheres, que quebram os estereótipos de simplesmente frágeis, ou simplesmente mocinhas, ou simplesmente qualquer coisa delicada. Ou mesmo daquelas personagenzonas femininas fodonas que fazem e acontecem. Flynn mais uma vez dá luz a uma protagonista complexa e profunda, mocinha e vilã de si mesma, com força e destaque, mas também cheia de defeitos. Afinal, por que diminuir a mulher em uma só coisa se ela pode ser tão mais, não é mesmo? Pode ser real e interessante. Por isso, mais Flynns no mercado de livros!

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Maresia

Ela é do mar

Gosta tanto que o carrega na alma e no nome

Traz dentro de si

Não por egoísmo, mas por necessidade

De vez em quando, transborda.

Alma agonizante, alma pulsante

Pulsa tanto que já nem sente

Ou sente tanto que já se acostumou

Assim pensava.

De tanto sentir a dor de sentir o que sente

Maremotizou-se.

Mulher, neste mundo é proibido sentir

Não levante a voz, não nade contra a corrente

Criança boa é criança calada

Quem cala, consente

Oh, garota, você tem que falar com Fulano!

Criança boa é criança obediente

A criança que reclama não é ouvida

A criança que sofre não é vista

Criança boa é criança que aceita

De tanto aceitar, aceita que tudo é como é

Deixa o mar inundar tudo

E ocupar cada pedacinho

pro barulho das ondas abafar os outros

E pra terra satisfeita ficar.

Terra acha que cada coisa tem seu lugar

Poeira embaixo do tapete deve estar

Todo dia nasce novo sol

O mar também muda

Esquenta, ferve, evapora

Água é movimento

natural que não se contém.

E quando sai toda a água, a alma seca

O silêncio vira eco

Retumba

Chacoalha.

Ela não é louca

A consciência dá força

Mulher-mar.

Deu-se a ressaca

Não a culpem

Ela só está sendo mar

E não cabe ao mar ensinar à terra

como se recuperar da ressaca

Cada coisa tem seu lugar

E mar calmo nunca fez bom marinheiro

Quiçá marinheira

Que já nasce remando nas ondas

do machismo da vida.

 

(O Eu Literário)

 

 

 

Primeira do ano: “Não conte a ninguém”

Feliz Ano-Novo!

O sumiço foi grande, as atribulações pessoais e profissionais, muitas, tem um monte de postagens atrasadas – que ainda pretendo fazer! -, mas, como estou em uns diazinhos de férias na praia, nada como uma leitura para começar o ano bem, né? E já foi concluída a primeira de 2017. Então, por que não furar a fila e mandar logo uma breve resenha de Não conte a ninguém, do badalado Harlan Coben? Vamos a ela!

Quem acompanha o blog já deve saber que sou apaixonada por thrillers. Os meus preferidos são os psicológicos. Eu não conhecia muito o estilo de Coben, só via seu nome com frequência por aí e lia ótimas críticas sobre seus livros de mistério e suspense – ou seja, era hora de me encontrar com ele. A sinopse desse livro me chamou atenção e despertou meu interesse. Depois, descobri que se trata de sua obra mais consagrada. Li em duas sentadas (é razoavelmente curto, tem 250 páginas) e gostei muito.

Sinopse

Há oito anos, enquanto comemoravam o aniversário de seu primeiro beijo, o Dr. David Beck e sua esposa, Elizabeth, sofreram um terrível ataque. Ele foi golpeado e caiu no lago, inconsciente. Ela foi raptada e brutalmente assassinada por um serial killer. O caso volta à tona quando a polícia encontra dois corpos enterrados perto do local do crime, junto com o taco de beisebol usado para nocautear David. Ao mesmo tempo, o médico recebe um misterioso e-mail, que, aparentemente, só pode ter sido enviado por sua esposa. Esses novos fatos fazem ressurgir inúmeras perguntas sem respostas: como David conseguiu sair do lago? Elizabeth está viva? E, se estiver, de quem era o corpo enterrado oito anos antes? Por que ela demorou tanto para entrar em contato com o marido? Na mira do FBI como principal suspeito da morte da esposa e caçado por um perigosíssimo assassino de aluguel, David Beck contará apenas com o apoio de sua melhor amiga, a modelo Shauna, da célebre advogada Hester Crimstein e de um traficante de drogas para descobrir toda a verdade e provar a sua inocência.

Opinião

Eita, livro rápido! Eu ainda não conheço o estilo do autor, visto que foi minha primeira leitura dele, mas, ao menos por Não conte a ninguém, posso dizer que ele é muito perspicaz, criativo e eficiente. A trama vai se desenrolando em uma simplicidade que impressiona. Ao contrário da enorme maioria de histórias por aí, não tem – realmente não tem – encheção de linguiça. A todo momento, algo novo acontece, um fato inédito surge.

A narrativa é contada na primeira e na terceira pessoas. Os pontos de vista são intercalados de maneira irregular: às vezes, acompanhamos tudo pela ótica de Beck, o protagonista (e é nestes momentos que ocorre a primeira pessoa); outras vezes, pela do narrador-observador, que cada hora relata os passos e pensamentos de cada um dos demais personagens – mas cada um em seu intervalo distinto, é bem delineada a marcação de perspectivas. Isso é uma ferramenta de escrita muito comum na literatura policial, e Coben faz uso dela muito bem. Contribui bastante para o ritmo acelerado e instigante da trama. Até porque, como falei, não tem nenhum espaço para a monotonia, já que ele construiu um livro tão irrigado de mistérios e surpresas.

Outro fator relevante é que desde o início sabemos quem é o matador de aluguel citado na sinopse, quem é o contratante e também acompanhamos os seus passos. A grande questão é o que motivou tudo o que fizeram. O que aconteceu paralelo a tudo aquilo. E é aí que a criatividade de Coben fez ótimos voos.

Bom, como sou uma grande apreciadora dos thrillers psicológicos, confesso que senti um pouquinho de falta das construções psicológicas, das reflexões sociais e psíquicas mais aprofundadas que aquelas obras proporcionam. Tipo Gillian Flynn. Mas, tudo bem, percebi logo que aqui o traço é diferente, é mais objetivo e mais focado nas reviravoltas e nas ações – que não são poucas. É muita ação mesmo! Tampouco, também, é um livro que foca nos policiais, como a Rainha do Crime; eles são meros coadjuvantes. As investigações acontecem, mas são mais sutis. Pouca elucubração e muita ação.

Como não há tanta preocupação com a construção dos personagens, é mais difícil rolar aquelas identificações pessoais. Além disso, nosso protagonista é muito reservado, um tanto apático – pudera, sofreu um grande trauma ao perder a esposa, vítima de um atentato/sequestro, e ainda se culpa por isso -, o que dificulta isso ainda mais. Para alguns, talvez esse seja um ponto negativo do livro. Para mim, não chegou a ser. Encarei como o estilo do autor mesmo, como comentei, e foquei na plot. Ainda consegui me afeiçoar a ele por um ponto sutil, mas muito importante: apesar de ter sido escrito em 2001, o que acredito que ajude a afastá-lo das discussões sociais mais atuais, o personagem já traz uns pensamentos bacaninhas sobre Alerta Machismo, o que é sempre legal!

Nota

Leitura soft, rápida, gostosa e que não deixa a gente largar o livro. Para quem gosta de mistérios, desaparecimentos, assassinatos e reviravoltas, superindico! Dou nota 9,5/10,0. Um ponto negativo? Não chega a ser negativo, mas no último terço do livro rola tanta reviravolta que o leitor quase se perde. É bacana, você fica até a última página do livro na apreensão e na expectativa. Mas, ao fim, fiquei com uma sensaçãozinha de que se o autor tivesse se preocupado um tiquinho menos com a criação de tantas coisas, a trama talvez pudesse ter ficado um pouco mais consistente. Sem surgir aquela pergunta “Mas se ele sabia disso desde sempre, como não desconfiou de nada nunca e aceitou tudo ‘numa boa’?”. Mas está ok, tá, Coben? Adorei você e vou ler mais.

Beijos, amores :*

Viver

O que você faz da sua vida? Quanto se move para viver da forma que gostaria?

Existir não é viver. Viver exige mais. Atitude. Coragem. Iniciativa. Riscos. Paixão. Tesão. Planejamento. Grandeza. Atitude. Sim, duas vezes, porque se for pouca… Não rola.

Tem um desejo? Corra atrás. Jogue-se no escuro, no colorido, no azul do mar. Demonstre. Pense grande. Ousadia (e alegria). Medo e insegurança não são bem-vindos. Sabe aquela ideia no fundo da cabeça? Coloque em prática. Sabe o futuro? Construa-o. E quanto ao presente, só resta viver. Desfrute. A gente não pode deixar para amanhã o que poderia ter feito hoje. Afinal, “a vida é tão rara…”.

O novo assusta, mas deve ser enfrentado. Não percamos tempo.

Preparador: o profissional ignoto

Outrora, publiquei que o revisor é um profissional invisível e expliquei os motivos (ver aqui). Todos concordaram. No entanto, apesar de sua “invisibilidade”, provavelmente boa parte dos leitores já ouviu falar dessa função – ainda que não a conheça muito bem. “Revisor” é um nome comum. Hoje, chegou a vez de falar sobre um profissional que, além de invisível, é ignoto, realmente desconhecido do grande público: o preparador.

Quê? Oi? Preparador? Nunca ouvi falar dessa função. Ele prepara o quê?

Ele prepara originais, meu povo. O preparador (de texto) nada mais é que um revisor também. Acontece que, dentro da editoração, existem diversas etapas, divididas entre muitos profissionais. Por isso, existe uma diferenciação entre tipos de revisor. Assim, convencionou-se chamar, dentro do universo editorial, de revisor a pessoa que revisa o livro já no papel, quando este já foi diagramado, e de preparador a criatura que revisa o texto quando este ainda está no início do processo, normalmente no Word, e não passou por nenhum tratamento. Ou seja, a formação de ambos é a mesma, por isso muitas vezes o profissional trabalha como preparador e como revisor também, só que em livros distintos. No entanto, cada função guarda algumas peculiaridades, e é importante que haja uma clara orientação sobre o que se espera de cada uma (cabe à editora ou ao cliente dar esse briefing).

Imagem do livro A construção do livro, de Emanul Araújo, 2ª edição, 2008, p.59 (Foto: O Eu Literário)

Imagem de A construção do livro, de Emanuel Araújo, 2ª edição, 2008, p. 59 (Foto: O Eu Literário)

Ok, entendi. Mas, afinal, o que exatamente faz o preparador?

O preparador é quem faz a primeira leitura integral do texto; o responsável pela primeira revisão. Normalmente, o original do futuro livro chega às editoras em Word, como mencionado, e é sobre este arquivo que é feita a preparação. Ela visa à correção do conteúdo, de acordo com a língua portuguesa, e à normatização do material, tendo como base o manual de edição da editora. Ou seja, tudo aquilo que o revisor faz, como vocês já leram a esta altura no outro post, o preparador faz também. Vamos às principais diferenças entre um e outro, então:*

  • cabe ao preparador a revisão mais profunda e mais hard; ao revisor (de provas diagramadas), a última leitura, para pegar pastéis e acertar últimas arestas;
  • a principal preocupação do preparador está com o conteúdo: se este está claro, coerente e coeso, se as ideias e frases estão bem encadeadas, se os parágrafos seguem uma ordem lógica, se o estilo segue uma unidade ao longo de todo o livro; ao chegar na revisão, por mais que seja essencial que o profissional ainda esteja atento a esses itens, entende-se que a estrutura e o conteúdo estejam ok já, por isso a principal preocupação do revisor é checar a forma mesmo: como o material já foi diagramado, é necessário que ele observe se a diagramação está seguindo os mesmos padrões, se as quebras de linha estão boas, se os títulos nos capítulos (e nos cabeços) conferem com os que aparecem no sumário etc.;
  • enquanto as emendas do preparador tendem a ser maiores e mais delicadas, com inversões de frases e trechos reescritos, as do revisor tendem a ser mais pontuais, já que o livro chega bem mais limpo, sobrando apenas alguns erros de pontuação, digitação e acentuação, por exemplo – isso na teoria e no ideal dos mundos, claro;
  • faz parte do que se espera de um bom preparador que ele confira nomes, datas e informações que apareçam no texto, principalmente no caso de obras de não ficção, por meio de pesquisas na internet; esta não é uma função do revisor – a menos que ele note algo que lhe pareça equivocado;
  • se a obra for estrangeira, quer dizer que, antes da preparação, ela já passou pela tradução. Nesses casos, cabe ao preparador, e não ao revisor, o cotejo com o original para checar se há saltos ou problemas;
  • e por último, mas tão fundamental quanto: o preparador deve corrigir erros ortográficos e gramaticais e estabelecer padronizações no texto (quando usar caixa-alta e caxa-baixa, itálico ou aspas) visando sempre à uniformidade; o revisor precisa checar se tudo isso foi feito direitinho e acertar o que precisar de ajustes.

Como vocês perceberam, apesar de ser a mesma profissão, são diferentes funções. A premissa é a mesma e uma completa a outra no processo editorial, mas é importantíssimo que se estabeleçam as atividades e o trabalho esperados de cada um.

O preparador, além de meramente revisar o texto, guarda uma tarefa delicada: pensar o livro e ver se ele está funcionando bem para aquilo que se propõe. Na imagem acima, Araújo cita “preparador” e “editor” de maneira meio híbrida, como se não ficasse absolutamente claro a quem ele está se referindo. A meu ver, é um pouco por isto: quando uma preparação é bem-feita, o preparador atuou um pouco como editor também, pois apontou coisas que não estavam bacanas, sugeriu alterações estruturais para serem vistas com o editor ou com o autor, se preocupou em observar que o capítulo 2 parece ter sido colocado no momento errado do texto e ficaria melhor ao fim, na verdade, por exemplo. Não é à toa que a preparação vem antes da revisão e da diagramação. É uma pena, apenas, que bons preparadores não seja tão fáceis de se encontrar…

 

Bônus: Há, ainda, dois outros tipos de revisor muito conhecidos dentro do mundo editorial: o copidesque e o revisor técnico. O primeiro, em muitos lugares, é tido como um preparador. Eu, no entanto, considero que há uma pequena diferença entre preparador e copi: este último não aglutina essa característica de editor que citei. Já o revisor técnico é requerido apenas para alguns livros especiais, normalmente textos de não ficção de conteúdo muito acadêmico e específico, e esse profissional deve ser alguém muito ligado ao universo do livro, pois sua função é conferir total e completamente o conteúdo em si, fazer pesquisas aprofundadas, algo com que um preparador não precisa se preocupar tanto assim.

* As diferenças de cada função devem ser checadas com cada casa editorial e/ou cada cliente, porque isso é algo que varia muito de lugar para lugar. Esta é apenas uma visão geral e baseada nas minhas próprias experiências.

“Sonhos partidos”: delicado, mas lento

Olá, queridos! ❤

Enfim, muito enfim, o primeiro post de 2016. Podem estourar os fogos! haha

Estava com bastante saudade do meu espacinho, mas este ano começou bem movimentado para mim. Um motivo maravilhoso: mudança de emprego. 🙂 Mas o fato é que estas semanas têm sido agitadas; meu tempo está sendo totalmente dedicado ao novo trabalho. Aos pouquinhos pretendo voltar a postar no blog com mais frequência, como fazia no ano passado.

Vamos logo ao que interessa, então. O post de hoje é uma resenha crítica sobre uma de minhas últimas leituras: Sonhos partidos, de M. O. Walsh, publicado pela Intrínseca.

Capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quem me acompanha, sabe: meu gênero literário preferido são os thrillers psicológicos/romances policiais/suspenses. Adoro! Em um dia normal passeando pela livraria, folheando livros aleatoriamente, este chamou minha atenção. Nunca tinha ouvido falar sobre ele, mas seus textos de quarta capa e orelha despertaram meu interesse. Um crime – no caso, um estupro – que não foi solucionado e anos depois volta à tona. Sinopse que poderia ser de um policial, não? Palavras-chave: crime, suspeitos, investigação, mistério. Mote principal: quem é o culpado? Mas, com o passar das páginas, a expectativa foi dando lugar à decepção literária. Na verdade, apesar de ser escrito sobre esse pano de fundo, achei a história um grande drama, além de uma leitura lenta e pouco empolgante.

Por dentro da história

A obra gira em torno de uma adolescente de cerca de 15 anos chamada Lindy Simpson, a típica garota popular americana. Linda, atlética, simpática, cheia de amigos e de meninos encantados por ela. Até que em uma noite, quando voltava para sua casa de bicicleta (em uma cidade superpacata e onde todos os vizinhos se conhecem e se ajudam), foi agarrada e estuprada. E, desde então, nunca mais foi a mesma, adquirindo posturas e comportamentos bizarros e que muitos não compreendiam. O culpado não foi descoberto, e a polícia saiu do caso rápido demais. Quatro homens, sendo três garotos, foram considerados suspeitos na época – todos informalmente, apenas. Um destes é justamente o narrador do livro, que resolve reviver e contar essa história quando já é um adulto, o que torna tudo um tanto estranho. Até que ponto sua narrativa, seu ponto de vista é confiável?

Detalhe impressionante: nosso narrador não tem nome. E eu só me toquei disso quando concluí a leitura e fui olhar outras opiniões na internet. A trama é tão bem-escrita, nesse quesito, que nem nos incomodamos com a ausência de um nome para ele. Ponto para o autor, o estreante M. O. Wash.

Como eu comentei acima, o mote inicial é bacana e atraente. Sedutor; seduziu-me. Mas conforme as páginas foram passando, fui me cansando. A narrativa fica em um ir e vir sem fim. Uma hora ele está em 1989, aí vai para 1992, aí volta para 1990, aí volta mais para 1987, vai de novo para 1992, e por aí continua. (Estou dando anos como exemplos, apenas.) Em geral, é possível compreender e traçar mentalmente a linha cronológica. Mas houve momentos em que eu me perdi e não sabia se tal fato era antes ou depois dos outros já narrados. Achei que, nesse ponto, o autor não se saiu tão bem assim.

Sobre o conteúdo literário em si, vamos percebendo que o livro não é sobre Lindy na verdade, a jovem estuprada. O livro é sobre o garoto, nosso narrador, um dos suspeitos. À medida que acompanhamos suas lembranças, fica nítido que é tudo sobre ele. O quanto ele era próximo dela antes do crime e se viu afastado depois; o modo como ele acabou se “apaixonando” por ela e moldando-se em mil e uma personalidades diferentes na tentativa de ficar parecido com suas novas identidades criadas pós-estupro; como tentava compreendê-la, achava que a entendia melhor do que ninguém e no fundo era incapaz disso; o quanto sua própria vida mudou e foi afetada por aquele acontecimento; como ele se tornou um suspeito aos olhos da mãe; que ele fez tudo o que fez simplesmente porque se sentiu culpado por ela ter sido violentada (e ele só fala explicitamente sobre isso no final). Possivelmente bem-intencionado, mas seus relatos mostram como ele foi egoísta na juventude. Da forma que, mesmo quando a mulher é a vítima, quem fica no centro da história é o homem. E algumas falas de Lindy ilustram bem isso, um tapa na cara do narrador-sem-nome.

Boas ressalvas

Fiquei na dúvida se considerei o livro machista ou não. No fim das contas, acho que ele tentou mostrar – talvez nem de maneira consciente – o quanto a sociedade é machista. O quanto os homens, em geral, não conseguem lidar com algo tão brutal e tão delicado que é o estupro. Como não compreendem as reações das mulheres, o quanto se acham no direito de participar de tudo, o quanto tendem a querer resolver tudo e acham que serão capazes de apagar as memórias da mulher – e consideram um absurdo quando elas não acolhem suas tentativas de ajuda ou se rebelam. Observando por esse lado, o livro é positivo. Acho que o grande lance de Sonhos partidos é mostrar como o garoto não consegue lidar com a sua falta de protagonismo na história (e na vida de Lindy). Bom, essa foi minha percepção, minha opinião.

Mais uma vez, fiquei na dúvida se achei adequado um autor (homem) escrever um livro sobre o estupro de uma menina. Ao fim da história, percebi o que discorri acima: não é sobre o estupro, no fundo, mas sim sobre o garoto e o modo como ele encarou tudo aquilo, sobre o seu egoísmo. De novo, sobre esse prisma achei que foi uma linha inteligente que Walsh adotou. Realmente, ele não poderia (ou não deveria) escrever sobre um estupro a uma mulher e nem sob o enfoque desta, pelo simples fato de não ser uma; é aquela coisa que chamamos de lugar de fala. Por isso, tomei isso como a grande boa ressalva do livro. A obra traz para reflexão um tema tão relevante e tão fundamental, mas ele teve o cuidado de não usar um espaço que não seria dele. Ele mostra um machismo e um egoísmo típicos de nossa sociedade justamente sob a narrativa de um homem. E o livro é daqueles que termina e nos faz pensar. Isso é sempre bom.

Nota

Em termos puramente literários, me decepcionou bastante. Morno, lento, cansativo muitas vezes e sem reviravoltas. Mas talvez essa tenha sido realmente a intenção do autor. Uma narrativa delicada. A questão humana e social que ele traz é valorosa. Tem potencial reflexivo. E não dá para não reparar que o autor escreve bem. Na balança de tudo isso, dou nota 6,8 de 10. Ou 7, vá lá.

Obs.: Em termos editoriais, meu grande destaque vai para a capa. Achei uma sacada fantástica: extremamente delicada, sutil. O lamento vai para o tratamento de texto, pois do meio para o final do livro vi muitos errinhos de português.

 

E aí, quem mais já leu Sonhos partidos? O que acharam?

Beijinhos e boa semana!

Redescobrindo o Brasil, ou sua literatura, pelo beijo de colombina

Acho que o que falta é conhecer. Ontem entrei em uma livraria aqui no Rio, me aproximei da sessão de literatura brasileira e chamei a vendedora que estava me atendendo.

– Queria lhe pedir uma dica. Li recentemente Um beijo de colombina, da Adriana Lisboa, e gostei muito. Queria outros livros de autoras de literatura contemporêna brasileira. Você me indica algum?

A menina, de uns 25 anos talvez, ficou me olhando com uma expressão meio confusa, meio sem saber o que me dizer. Sem esperar, perguntei:

– Você conhece Adriana Lisboa?

– Não…

Repeti que era uma autora de literatura contemporânea brasileira, atual, jovem, e a vendedora emendou:

– Peraí, vou chamar outra menina para ajudar você. Fulana, vem cá!

Vem a segunda vendedora da livraria, a que me diz ser responsável pela sessão dos nacionais. Repeti a minha primeira fala, de que queria uma dica de outra autora brasileira contemporânea para ler, na vibe da Adriana Lisboa.

– Olha, eu não conheço literatura nacional, não. Leio fantasia. Mas, olha, uma autora brasileira que o pessoal procura e gosta muito é Martha Medeiros.

Minha vez de fazer uma cara de meio confusa, meio sem saber o que lhe dizer.

– É, conheço Martha Medeiros, é bacana mesmo, mas não é bem essa vibe que eu procuro…

Vendo que ela estava ficando um pouco desconfortável com a situação, deixei para lá e disse gentilmente que ia continuar dando uma olhada geral mesmo.

Sabe por que muitos brasileiros não leem literatura nacional? Porque não a conhecem. É muita publicidade para literatura estrangeira, autores estrangeiros, e pouca informação e divulgação para os nossos. E digo isso com propriedade mesmo, já que eu mesma, apesar de trabalhar com livros (só que acadêmicos e em uma editora pequena, ou seja, um pouco fora desse fluxo intenso do mercado editorial), não tenho na ponta da língua nomes brasucas atuais. (Esta, aliás, é uma falha que estou buscando reparar.) Estamos acostumados a ouvir falar em Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Machado de Assis, mas desconhecemos que há novas safras também ótimas e que precisamos conhecer.

Adriana Lisboa foi um nome que ouvi, há poucos meses, de forma um pouco aleatória, mas sendo apontada como um dos bons nomes da literatura contemporânea nacional. Quando estive na Bienal do Livro, este ano, então, não deixei passar a chance de adquirir algum de seus livros, e quando bati os olhos em Um beijo de colombina me vi atraída. Livro de tamanho pequeno (184 páginas), título bacana e uma capa que, embora bem simples, me conquistou (Alfaguara, 2015, 2ª edição). Após anos e anos tendo como principal referência da literatura brasileira Dom Casmurro, lido ainda no Ensino Médio, fui novamente ao seu encontro. (Não, não quero dizer com isso que nunca mais tinha lido livros nacionais!)

A leitura de Um beijo de colombinadf8e7fbe-484b-443e-8892-9726f7d72102

Em um sábado à tarde em Araruama, férias de fim de ano, cadeira confortável à sombra na varanda e brisa batendo, me pus a começar sua leitura. Livro breve e que, página a página, foi se mostrando uma narrativa simples e despretensiosa. Não há grandes movimentos no livro, nem diálogos longos ou eloquentes – na verdade, há pouquíssimos diálogos. É realmente um roteiro simples. Mas é daqueles cuja riqueza reside justamente em sua aparente simplicidade, sabe? Daquelas coisas que nos dizem sem dizer, que nos mostram sem mostrar. O simples mais bonito. E, assim, mostrou-se uma leitura surpreendente, pois, mesmo com aquele andar tão despretensioso, com aquela trama tão “parada”, baseada por completo apenas em narrações de um único personagem masculino – que simplesmente vai nos contando memórias particulares de sua vida nos últimos meses, vividos com a namorada agora dada como morta, após ter se afogado no mar de Mangaratiba –, me vi totalmente compenetrada em sua leitura. Narrativa introspectiva, daquelas que te puxa para dentro e te leva também para dentro de si mesmo. Concluí o livro em duas tomadas, com um intervalo apenas para lanchar e bater um papo com a família toda reunida na casa.

A narrativa tem um ar melancólico. João, um professor de latim na casa dos 30 anos, vê-se sozinho após Teresa, sua namorada com quem se relacionava e morava há oito meses, morrer ao se afogar na praia. Teresa era uma jovem escritora, recentemente premiada, e que estava reunindo material de pesquisa para seu próximo romance, que seria baseado nas obras e poesias de Manuel Bandeira. Perdido entre a tristeza e o deslocamento do mundo no qual se percebe, João começa a mergulhar em Teresa: em seus livros, em sua casa, em suas memórias com ela e, especialmente, em seu velho exemplar de Estrela da vida inteira, de Bandeira, onde a namorada fizera várias anotações e marcações. Conforme mergulha nas lembranças de Teresa, avalia as possíveis razões que a tenham levado à morte, enquanto a imprensa bate na tese de suicídio, após encontrarem versos sugestivos que ela havia deixado presos por um ímã na geladeira. De licença no trabalho, João resolve, mesmo afirmando não ser escritor, dar continuidade ao projeto da amada.

Uma das primeiras características a chamar minha atenção no livro foi a sua escrita, sua pontuação, principalmente em diálogos. Nada de conversas bem marcadas, com travessões, dois-pontos ou aspas. Não, falas e pensamentos correndo soltos, assim como o poema de Manuel Bandeira de mesmo nome que a personagem feminina de Adriana Lisboa. Impressão de que o cuidado é com o conteúdo, com o que se diz ou se sente, e não com sua forma. No primeiro momento, eu, revisora de textos e apegada à norma culta e suas vírgulas, pontos e sinais, estranhei. Mas logo na sequência vi que era o estilo que Lisboa escolhera, que combinava perfeitamente com a história, com a proposta. Afinal, seu livro é poesia e prosa, tudo junto. É contemporâneo, mas, para mim, claramente retrato de nossa literatura mais clássica. E, como reproduzo um trechinho abaixo, o sentido não fica em nada comprometido. As falas são separadas por parágrafos.

Gozado, comentei, quando Teresa me contou.
Não é?, ela concordou.
[…]
Bobagem, disse Tereza, já acabou.
E voltou para o computador.

(Lisboa, 2015, p.19 e 20)

Apreciadora de Machado e seu Dom Casmurro, involuntariamente vi algum reflexo seu em Lisboa e seu Beijo. Acho que foi a personagem Teresa que, de alguma forma não muito linear, me remeteu a Capitu. Mulheres, fortes, atraentes e um tanto enigmáticas. Por sua vez, seus respectivos, homens que parecem mais frágeis e se veem perdidos de alguma forma. Além disso, o final também me trouxe um quê machadiano. Não escreverei por que, pois não quero fazer revelações do enredo de Lisboa.

Por fim, reitero a leveza e sutileza da trama de Um beijo de colombina, levada muito satisfatoriamente por uma escrita afinada da autora, que mostra um potencial realmente muito bom, tanto quanto nossos autores clássicos, como comentei acima. E, quando achava que o livro era aquilo, ainda me surpreendi com seu final. Uma reviravolta que eu não esperava encontrar ali. Quando terminei, parei e refleti por dois minutos e fui reler os dois últimos capítulos em busca de quaisquer detalhes que pudessem ter passado despercebidos. Livro para ler, saborear e refletir sobre. Além de tudo, Adriana Lisboa foi muito bem-sucedida em criar uma metanarrativa (um “livro dentro de livro”?).  Para quem não o leu ou para quem não conhece Lisboa ainda, eu mais do que recomendo. Sugiro!

Nota

Dez. Gostei mesmo! E continuo aceitando dicas para outras autoras de literatura contemporânea brasileira.

 

Beijinhos e bom novo ano para todos! Por um ano com mais livros nacionais para nós!

Era de amor que ela precisava…

Era disso que ela precisava. Ser amada. E mais nada. Mas ser amada simplesmente não contava. A gente ama muita coisa nessa vida. Reparem bem que eu disse “coisa”, porque é isso mesmo. Amamos chocolate, sorvete, primavera, ouvir música, ler até a madrugada, cantar no chuveiro. Amar é fácil, amar se tornou clichê. Não era só disso que ela precisava. Era de mais. Era daquele amor que chega, toma de assalto, rouba seu ar, deixa seu mundo colorido de novo. Daquele amor de novela – e de vida real – que te faz de pessoa mais importante do mundo. E, para isso, não bastava lhe dizerem que a amavam. Tinham de provar. Sempre dizia: “Atitudes valem mais que palavras”. E era pelas atitudes que ela aguardava, com que sonhava. Mas também queria as palavras, sim… Que paradoxo! Uma mulher moderna, mas que ainda trazia aquele romantismo exasperado e descontrolado (irracional?) dentro de si. “Te amo” ela não aceitava. Que pobre… Tinha de ser acompanhado por um “demais” – “muito” é muito comum, tá vendo? Ah, de preferência com um vocativo acompanhando, ao lado de um “minha”. Brega, não? Mas era assim que ela sorria. Depois, isso também já não era mais suficiente. Ela queria um amor eloquente, “amor maior que eu”, crescera ouvindo Jota Quest, né. “Te amo mais que TUDO no mundo.” É, era disso que ela gostava. Só que a questão é que não estava só em gostar, era uma espécie de necessidade. Uma necessidade emocional que lhe corroía. Precisava se sentir amada a todo o momento, tão amada quanto fosse possível ser o amor. Talvez tenha lhe faltado amor ao longo da vida… Talvez, não. Vai saber… Fato é que não adiantava que tentassem lhe questionar, lhe oferecer outras alternativas. Ela era bem clara no que era. Espelho da alma e do coração. Então, antes de importuná-la, era necessário se perguntar honestamente: “Sou capaz de amá-la acima de tudo, de fazer dela o meu mundo?”. Porque só amor não valia… Tinha de ser mais. Ela queria sempre mais! Era o amor que lhe dava vida, e era o amor que a enlouquecia…

(M.)

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Minha primeira vez com Agatha Christie – “Os crimes ABC”

Sabe aquela autora clássica, superconhecida e que é considerada uma das principais escritoras do seu subgênero literário preferido? Pois é, chega a ser meio absurdo quando você alcança certa idade sem nunca ter lido, de fato, nenhuma de suas obras. Assim acontecia comigo e a tão comentada – e elogiada – Agatha Christie, chamada por muitos de “Rainha do Crime”.

Agatha nasceu em 1890, na Inglaterra, e escreveu mais de oitenta títulos, tendo vendido mais de 4 bilhões de exemplares em todo o mundo, atrás apenas de Shakespeare e da Bíblia. Leia-se: a mulher é foda. Minha curiosidade em relação a ela já era grande há muitos anos, mas em 2015 tornou-se especial. Decidi que era hora do nosso encontro. E minha primeira incursão em sua literatura foi com Os crimes ABC, um dos livros que contam com a figura central do detetive belga Hercule Poirot. Antes de adentrar em seu universo e deixar minhas impressões e opinião, vou dar um breve resumo (sem spoilers) sobre a obra, então.

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A história

O renomado e cheio de prestígio detetive Hercule Poirot já está aposentado, mas não consegue se manter longe dos crimes por muito tempo. Vez ou outra, aparece um novo caso que merece sua atenção e o requisita novamente à ativa. Desta vez, o crime vai pessoal e diretamente à sua residência. Explica-se: em um dia comum, ele recebe um bilhete, assinado por alguém sob alcunha de “ABC”, que o avisa que ocorrerá um homicídio na localidade de Andover no dia 21 de junho. O aviso vem sob a forma de um desafio para Poirot, que deverá impedir que tal assassinato aconteça. Surpreso com tal fato, inédito em sua carreira, ele avisa a Scotland Yard sobre a carta recebida, mas todos acreditam se tratar de alguma pegadinha de mau gosto. Poirot, no entanto, fica com a pulga atrás da orelha.

Na data determinada, uma senhora idosa, de nome Alice Ascher, é assassinada dentro de sua pequena loja em Andover. Sem pistas sobre o crime, a polícia se vê no escuro, e o único detalhe que chama atenção é que, próximo à vítima, foi encontrado um guia de trens conhecido como ABC. Poirot tem certeza de que se trata do homicídio sobre o qual o estranho remetente o avisara dias antes, mas nada consegue descobrir a respeito da origem da mensagem. Semanas depois, uma nova carta chega à sua casa, com o aviso de um novo assassinato que acontecerá, em alguns dias, desta vez em Bexhill. A partir daí, começa uma grande caçada em busca do louco assassino em série, que possui como únicas características identificadas o fato de sempre deixar um exemplar do ABC junto a suas vítimas (que não possuem nenhuma relação entre si) e de sempre antecipar o próximo crime em um bilhete enviado ao detetive. Os assassinatos parecem seguir uma estranha sequência alfabética, em que as vítimas possuem as mesmas iniciais da cidade onde moram. E caberá a Poirot, acompanhado de seu fiel amigo capitão Hastings e dos inspetores da Scotland Yard, descobrir a identidade do assassino e por que ele está matando aquelas determinadas pessoas. E por qual razão o escolhera para ser o destinatário de suas cartas! Será ele apenas um maníaco homicida?

Opinião

Minha expectativa era grande para este primeiro encontro com a Rainha do Crime. E posso dizer que não me decepcionei. Sua literatura é simples e eficiente! Por “simples”, refiro-me ao seu modo de escrever. O mistério por trás da trama é fantástico. Os crimes ABC é um livro de 256 páginas e dividido em 35 capítulos. Ou seja, é uma composição de capítulos todos muito curtos, o que faz com que a leitura seja rápida. A linguagem utilizada, apesar de ter ares mais formais – lembrem-se de que a obra foi escrita em 1936! –, é bem tranquila, sem rebuscamentos, o que também facilita a apreciação.

A trama criada por Agatha Christie é boa e forte. Diferentemente dos romances policiais/thrillers que estou acostumada a ler, aqui o foco principal não está sobre as vítimas e seus círculos sociais, mas sim na figura do detetive da história. Hercule Poirot, um homem já experiente, é descrito como metódico, observador, discreto, confiante e muito inteligente. É sob sua perspectiva e suas investigações que a história é contada e vai se desenrolando – apesar de ser narrada, na verdade, por seu amigo Hastings.

A leitura é fluida e corre bem, não é enfadonha. Pelo contrário, te aguça e faz querer ler tudo no mesmo dia – até por tratar-se de um livro razoavelmente pequeno. Agatha constrói uma trama satisfatória, com uma boa quantidade de elementos narrativos, personagens misteriosos e uma agradável reviravolta (no meio do livro, por conta de uma única fala, eu desconfiei de quem era o assassino e acertei, mas o final foi bem construído e não deixou de ser surpreendente). Confesso que senti um pouco de falta, no entanto, de mais ação propriamente dita e emoção no decorrer da história. As últimas dez páginas, mais ou menos, trazem toda a genialidade de Poirot, que, mesmo com pouquíssimos detalhes, consegue desvendar o caso por completo. Mas, no restante todo, o que se vê é um detetive de poucas palavras realmente importantes, que passa mais tempo refletindo – como bem diz para Hastings em algumas ocasiões – do que em atividade de fato. Achei-o um pouco apagado, em relação a tudo o que sempre ouvi – mas inegavelmente prodigioso. Além disso, vale registrar que a autora não se deteve em construir a fundo o lado psicológico de cada personagem. Conhecemos muito pouco das vítimas. No entanto, talvez seja um estilo de suas obras mesmo, que focam mais nas investigações policiais do que na parte humana/psicológica em si, o que não é nenhum demérito literário. Serei capaz de perceber melhor seu estilo nos próximos livros, que lerei com toda a certeza.

Por fim, queria registrar alguns comentários técnicos sobre a edição da Nova Fronteira, a que eu li. A capa dura, algo que dá um ar imponente e clássico, combinou com Agatha Christie. A seriedade é quebrada, no entanto, por sua ilustração, bem colorida e com um sabor bem jovial, pueril. Gostei, achei uma graça! A diagramação do miolo (o interior do livro) é bem padrão comercialmente e funciona de maneira satisfatória. A escolha do papel também acho que foi acertada – aquele “amarelinho”, sabe? Minha única ressalva fica por conta do tratamento com o texto, que poderia ter sido melhor. É a coisa mais natural passarem alguns errinhos em livros, eu bem sei disso. Mas encontrei uma quantidade razoável de pequenos problemas, desde erros de digitação a palavras escritas equivocadamente mesmo. Fica a observação para reedições. 😉

Nota

Para a trama de Agatha Christie Os crimes ABC, dou nota 9/10. Acho que, para sua proposta literária, a narrativa cumpre muito bem e é, sem dúvidas, uma leitura agradável, além de ter um enredo excelente. Eu gostei e lerei outros, para poder analisar melhor o estilo da autora. Esperava um pouquinho mais do livro em termos de emoção e movimento no início e no meio, principalmente por parte de Poirot, como disse acima, mas nada que diminua o meu apreço.

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Abrindo o livro (O Eu Literário)

Ficha do livro

Título: Os crimes ABC
Autora: Agatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 256
Ano: 2015
Edição: 1ª

 

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Miolo (O Eu Literário)

Wishlist literária, oba!

É Natal, é Natal, um Feliz Natal! Quem quer “desculpa” para montar uma wishlist de livros levanta a mão. \o/

Como mencionei em um dos primeiros posts aqui do blog, andei um longo tempo afastada da leitura por hobby em virtude de motivos diversos e pessoais, apesar de livros sempre terem sido um objeto de encanto para mim. Nos últimos meses, me reaproximei desse mundo, meu mundo :), e desde então voltei a ficar vendo e pesquisando várias obras. Ao longo das últimas semanas, já havia alguns títulos que eu estava almejando, mas movida pela proximidade do fim de ano e pelas famosas “wishlists“, dei uma incrementada para formar a minha lista de desejos literários.

Portanto, amigos e familiares que quiserem me presentear e estiverem sem ideias, ficam as dicas, tá? (rs)

 

MINHA LISTA DE DESEJOS LITERÁRIOS:

e não sobrou nenhum

lugares escuros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

suicidas1

dias perfeitos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

joyland

criança 44

 

 

 

 

 

 

 

 

sombras de um crime

não conte a ninguém

 

 

 

 

 

 

 

 

(Todas as imagens são as das capas)

Menções honrosas (leia-se: títulos que não estão entre os que eu mais desejo, mas também os quero): Desejo proibido, de Sophie Jackson (editora Arqueiro); A garota no trem, de Paula Hawkins (Grupo Editorial Record); e O chamado do Cuco, de Robert Galbraith [J. K. Rowling] (Rocco).

O que acharam dos meus escolhidos? Quais são os livros que vocês mais estão cobiçando neste fim de ano?

Lembrando sempre que comprar e ganhar livros é ótimo, mas, especialmente nesta época, é muito bacana também doar. ❤

Beijinhos, queridos