Como me tornei profissional do livro

Olá, queridos!

Para a segunda postagem do blog, pensei em seguir um pouquinho a ordem cronológica da minha vida. Depois de dar o pontapé inicial conversando sobre a profissão de jornalista, de maneira ampla, e principalmente sobre a questão do alto nível – e cada vez maior – de exigências para esses profissionais – o que nos obriga a ser mais e mais multifacetados –, pensei em contar um pouco da minha trajetória até aqui. Mais particularmente: como me tornei uma profissional do livro?


Tá, deixa eu lançar um “obs.” aqui que pode parecer um tanto presumível, mas não custa mencionar. O que é “profissional do livro”? Respondendo de forma objetiva, todos aqueles profissionais que lidam com o (amplo) processo de edição, produção, impressão, distribuição e comercialização do livro. Todos os responsáveis, em funções diversas, pelo livro existir. Editor, assistente editorial, preparador, copidesque, revisor, tradutor, designer editorial, diagramador, capista, produtor gráfico, impressor, livreiro, inclusive o próprio autor – podendo existir muitos outros profissionais ligados ao livro ainda, como iconógrafo, revisor técnico, ilustrador e por aí vai. Não são todos os livros que possuem, obrigatoriamente, todos esses profissionais em sua editoração. Cada livro tem alguns, de acordo com suas particularidades. Um livro de literatura, romance adolescente contemporâneo, de autora brasileira, por exemplo, não precisá de tradutor, iconógrafo, nem revisor técnico. Dependendo do texto e da casa editorial onde ele seja produzido, talvez tenha apenas um revisor, talvez precise de preparador, copidesque e revisor. Tudo depende do livro em si e de suas necessidades particulares e também da casa onde ele será editado. Mas, de uma maneira geral, é isso que configura ser um profissional do livro.


Voltando: como me tornei uma profissional do livro? Trabalho em uma editora de livros de pequeno porte e atuo como assistente editorial e revisora (às vezes, também preparadora/copidesque) – além de também ser a responsável pela assessoria de imprensa. Caí aqui de paraquedas. Até existem graduações em Produção Editorial, embora poucas, mas fiz faculdade de Jornalismo mesmo. Durante os anos que antecederam o vestibular e o ano deste em si, nunca pensei em ser profissional do livro – tá, para ser mais exata, mal sabia o que era isso, contato zero com esse mundo. Foi no decorrer dos quatro anos acadêmicos que comecei a descobri-lo, ainda que de forma superficial, confesso. Quando eu era criança, até uns 14 anos, lia muito. Adorava livros. Meus pais que o digam, às vezes fugiam de passar na porta de uma livraria comigo! Conforme fui entrando na adolescência, descobrindo as novidades “MSN” e “Orkut” e dando espaço a outras coisas na vida e na cabeça, entrei em um longo gap com os livros.

[E faço uma pausa, porque, aqui, vou confessar: até hoje, não voltei a ser aquela leitora voraz do início da juventude. Culpo-me diariamente por não ter estantes abarrotaaadas como espera-se de um profissional do livro, por não ter lido vários daqueles “clássicos”, por não ser aquela leitora “exemplar”. Na verdade, quando entrei neste universo editorial, reencontrei minha paixão e admiração pelos livros, mas acabo sendo mais profissional do que leitora. Tô tentando quebrar isso!]

Acho que, por isso, apesar de, desde que me entendo por gente, ser apaixonada por lidar com textos e pela língua portuguesa, nunca havia considerado para valer trabalhar com isto: revisão. Mas durante a faculdade de jornalismo esse bichinho do “E se?” começou a surgir na minha cabeça. Sabe? “Acho que gosto de jornalismo, é bem interessante [fod*], mas na verdade escolhi cursá-lo mesmo porque sempre gostei de escrever… Também tenho descoberto, na prática, que gosto de lidar com textos alheios, corrigi-los, reescrevê-los quando necessário… E se, em vez de jornalista, eu fosse outra coisa, tipo revisora? É, talvez fosse legal… Mas será? Como eu atuo com isso??” Os pensamentos começaram a surgir, mas eu nunca os levei muito a sério, não fui atrás, não busquei lapidá-los ou conhecer essas outras possibilidades. Fui deixando a vida me levar. E foi justamente a vida que me trouxe ao mercado editorial, sem aviso prévio. No meio da faculdade, pintou uma oportunidade para estagiar como repórter em um veículo. Topei (e adorei!). Achei que podia ficar por essas bandas mesmo. Depois de um ano, resolvi buscar outro estágio em jornalismo, ter novas experiências, não quis me acomodar. Surgiu uma entrevista para trabalhar com assessoria de comunicação e de imprensa de um órgão público, então. Fui chamada e lá fiquei por pouco mais de um ano. Gostei também, descobri mais possibilidades dentro da minha profissão. Mas foi aí que rolou a virada. Neste estágio, não havia vaga para efetivação, então comecei a disparar currículos à procura de emprego quando faltava cerca de um mês para me formar. Nada apareceu, até que um ex-professor meu da faculdade compartilhou no Facebook uma vaga para atuar no mercado editorial, com edição de livros. Assim, sem maiores detalhes; dizia apenas que a procura era por jornalistas (atente-se: não produtores editoriais) que estivessem acabando a graduação ou recém-formados. Na hora, de imediato, me interessei. Não busquei, mas a impressão que me deu naquele momento foi de que aquele bichinho “E se?” estava indo me buscar. Mandei uma mensagem privada para ele, o ex-professor, perguntando mais informações, e me foi recomendado que mandasse uma mensagem para a pessoa X, a que estava de fato divulgando a vaga. Sem pensar duas vezes, sem nem entender muito bem o que eu estava fazendo, assim segui: mandei a mensagem, manifestei meu interesse por trabalhar naquela editora de livros e tive uma entrevista marcada. Em menos de duas semanas, fiz a entrevista com as pessoas da empresa, um “teste de revisão” e fui contratada. Não fiz nenhum tipo de preparação especial para isso. Não sabia bem se eu seria capaz – e aí começou a bater um medinho; nem formação acadêmica eu tinha nessa área, será que eu estava maluca em me jogar nisso? Mas foi isto que eu fiz: me joguei. De cabeça.

Fui contratada como assistente editorial e, mais particularmente, minha função precípua seria revisar os livros e/ou coordenar a sua revisão. Durante minha primeira semana na editora, fiquei como uma espécie de estagiária, apenas acompanhando, atentamente, e anotando tudo o que a mulher que estava saindo (de quem eu herdaria a vaga) me mostrava e me passava. Com uma atenciosidade e generosidade enormes [obrigada!], em uma semana ela conseguiu me mostrar um pouco de tudo o que eu teria de fazer. Explicou para mim, de maneira ampla, como funcionava o seu trabalho dentro da editora. Como era a ordem natural de editoração de um livro, desde que o original chegava por Word até o momento em que o PDF ia para a gráfica, suas etapas e contatos com tradutores, autores e revisores externos (prática habitual em editoras, trabalhar com revisores terceirizados, no esquema de freelas, mesmo tendo uma pessoa interna responsável pela coordenação e acompanhamento das revisões). Como a gente tem o primeiro contato com o original, como trabalha com as ferramentas de revisão do Word. Como se prepara um livro, deu dicas e recomendações sobre como brifar o revisor externo. Como receber de volta o livro revisado, como fazer o gerenciamento de “aceitar/rejeitar” as emendas, como ir avaliando as alterações e fazendo nossas próprias inserções. Como revisar (acho que não existe muito “como revisar”, mas dicas e observações são sempre bem-vindas, imagine para uma total iniciante!). Apresentou-me o manual de revisão da editora (é normal cada editora ter seu próprio manual, em que consolida suas escolhas editorias habituais e deixa claro quais são suas recomendações, assim como a Folha de S.Paulo tem o seu, O Globo também etc.). Falou sobre fazer revisão nas provas diagramadas, sobre fechamento de livro. Explicou os sinais de revisão. Enfim, me mostrou um pouco das diversas etapas de editoração e me explicou as atividades que eu exerceria como assistente editorial e revisora. (E ainda deu dicas sobre como fazer a assessoria de imprensa para uma editora de livros, já que eu também comandaria esta parte.) Essa foi a preparação que eu tive para ser uma profissional do livro.

Com este post, não pretendo simplesmente contar a minha história. Muito menos menosprezar as graduações de Produção Editorial e suas importâncias! Quero apenas mostrar, principalmente para aqueles que, como eu há uns anos, não têm muito conhecimento do universo editorial, como este funciona. Dar visibilidade. Estimular! Uma ressalva importante merece ser feita e destacada: apesar de não ter tido nenhum tipo de preparação específica nem base teórica antes de ingressar no mercado editorial, eu tinha dois fatores que considero fundantes para ser um profissional do livro. 1) Mesmo que não seja aquele tipo de leitora voraz, sempre cultivei o encantamento pelos livros. 2) Acima de tudo, amo a língua portuguesa, gosto de lidar com ela e sempre tive facilidade com o seu tratamento; a faculdade de Jornalismo veio para sacramentar isso.

Hoje, atuando nesta área há dois anos, digo que realmente sou feliz com o que faço. Apesar de não ter tido a formação acadêmica de Produção Editorial, fui colhendo meus aprendizados na prática, no dia a dia, observando outros colegas, trocando ideias, lendo, pesquisando. Cursos também são muito bacanas, além de importantes. A cada dia, aprendo algo novo – inclusive de português, porque a maior virtude de um revisor não é dominar cada detalhe da língua, e sim ter um bom conhecimento, claro, mas ser um desconfiado nato, que procura checar tudo sempre e, assim, vamos descobrindo novos detalhes, novas regrinhas. Meu dicionário-tijolão é meu fiel companheiro! E é a experiência que vai me moldando. Por isso, que sirva de estímulo: para ser revisor, para ser um profissional do livro você não precisa ser um expert nisso, não precisa ser um Houaiss ou um Emanuel Araújo da vida; tão pouco precisa ser um doutor em Língua Portuguesa. O que você precisa, mesmo, é gostar disso, gostar de ler, de livros, de lidar com textos, de português; ter ao menos uma boa proximidade com estes itens. No mais, a gente vai descobrindo no day by day. 😉

Um pouco do meu day by day – provas diagramadas na mesa

Um pouco do meu day by day – provas diagramadas na mesa

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5 comentários

  1. QUE LINDO!

    Olá!

    Gostei muito do perfil da sua página. Já tenho um blog há vários anos, posts de livros e filmes, e no dia 1 de setembro, vou começar com um canal no youtube porque estou viajando para estudar mestrado na Europa. Toda essas aventuras e dicas serão parte do conteúdo tanto do blog, quanto do vlog.

    Gostaria de fazer parceria, apoiar? Trocar follow?

    Obrigadão.

    https://espelhoinversoblog.wordpress.com/

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    1. Olá, querida! Obrigada! 🙂
      Vou conhecer seu blog e segui-lo. Boa sorte no novo canal! Vou fazer visitas, até porque dicas da Europa são legais. E está convidada a acompanhar as postagens d’O Eu Literário aqui também. 🙂
      Beijinhos

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