“Babilônia” e o preconceito, o machismo e a hipocrisia

Beijo Teresa e EstelaBeijo Ivan e Sérgio

(Imagens de cenas do último capítulo da novela – Reprodução/Google)

“Babilônia” terminou na noite desta sexta-feira, 28 de agosto, e ficou marcada como a “pior novela das 21h da Globo de todos os tempos”, como muitos sites repetiram ao longo dos últimos meses. Ok que o último capítulo foi bem mal-estruturado mesmo. Inês foi condenada pela morte do pai da Regina, cuja assassina era a Beatriz e todos os personagens da novela já sabiam disso, inclusive muitos ouviram a sua confissão. Mas, mesmo assim, a Justiça considerou que a culpada era a Inês (?!). Depois, ambas apareceram presas, e enquanto isso ninguém parecia sentir falta de nenhuma – que nenhum personagem mencionasse a Beatriz era aceitável, mas a Inês tinha filha, tia e todos sabiam que ela era inocente. Ninguém se lembrava mais dela, sentia sua falta ou lamentava o que a loira estava passando? Mas passou batido. Por fim, teve a fuga das duas rivais da prisão, e a cena do carro caindo do penhasco e elas se olhando (com Inês sorrindo!) foi demais de esquisita. Ah, mais uma vez, na sequência não rolou nenhuma repercussão sobre a morte de Beatriz e Inês. Normal, vida que seguia entre a galera lá. Enfim, o final foi bem estranho, mas ok, novelas têm dessas coisas, o foco deste post não é esse.

Quero dizer o seguinte: talvez o enredo central de “Babilônia” tenha ficado fraco mesmo. Mas foi tão pior do que tantos outros que já passaram pelas telas da TV? Particularmente, não acompanhei de cabo a rabo, mas não vi nada demais quanto à história. Nada que justificasse esse estigma de “pior novela de todos os tempos” ou essa baixa audiência e a enxurrada de críticas de diversos telespectadores. Pelo contrário, eu gostava da novela. Para começar, o elenco contou com nomes de peso: Adriana Esteves, Glória Pires, Camila Pitanga, Fernanda Montenegro (!), Nathalia Timberg, Bruno Gagliasso e diversos outros que atuaram muito bem. Além disso, botou o dedo na ferida, em muitas feridas! Mas o que, para mim, foi sua maior virtude, foi o que a fadou ao “fracasso”.

Logo de cara, nos primeiros capítulos, chegou com um beijo longo e carinhoso entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Choque entre as famílias tradicionais brasileiras [ironia detectada]. Já a personagem de Glória Pires era uma pegadora nata, muita atitude e muito sexo. Choque geral. Sabe o que acontece? Pessoas do mesmo sexo não podem se amar, nem muito menos demonstrar seu amor. Mulheres não podem se comportar como os homens, devem ser delicadas e “bem-comportadas”. Em outras palavras, as pessoas não aceitam assistir a “beijo gay” (não gosto dessa expressão) e nem a mulheres que fujam dos estereótipos de “como as mulheres devem se portar”. Outro exemplo disto, aliás, foi a história de Alice, personagem de Sophie Charlotte, que teve de ter seu rumo alterado porque o público mostrou não aceitar que ela fosse uma garota de programa. E aí está o grande fracasso de “Babilônia”: cedeu à censura da sociedade, começou a modificar as tramas às pressas, perdendo várias sinopses que já estavam programadas e vendo muitos personagens ficarem meio perdidos. Com isso, claro que deve ter rolado desgaste entre os autores, a direção e os atores. E a própria trama central acabou perdendo um pouco a força, já que viu seus personagens sendo modificados.

Tudo isso porque beijos e cenas bem mais ousadas entre homens e mulheres pode, personagens do Zé Mayer pegando todas as mulheres do elenco pode; já carinho entre Estela e Teresa ou Beatriz tendo a iniciativa e transando com muitos, não. Qual é o problema, Brasil?

O problema, além de homofobia e machismo declarados, é a hipocrisia. A novela veio esfregar na nossa cara tudo aquilo que está presente no dia a dia, mas as pessoas ainda insistem em negar e tentar esconder. Machismo? Não existe, é tudo invenção e chatice das “feminazis”. Preconceito? Não, não somos homofóbicos, os gays só não precisam se beijar no meio da rua, né? Oi?!

“Babilônia” ainda enfiou o dedo em muitas feridas. Os preconceitos contra pessoas que moram nas favelas e contra negros. E nos presenteou com o núcleo do prefeito Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira) e sua mãe, Consuelo (Arlete Salles). Pregando o nome do “Altíssimo”, apontavam o dedo na cara das pessoas e usavam a religião como justificativa para apedrejar os homossexuais. Mas, da maneira mais hipócrita possível, eram totalmente adeptos da corrupção e de todos os tipos de falcatruas – sem contar todas as traições de Aderbal à sua esposa. Uma lógica que se repete frequentemente na nossa sociedade (e na nossa política). Beijo não pode, comportamentos iguais entre homens e mulheres não pode, mas discriminar, julgar, ofender, xingar, roubar, trair, enganar o povo e armar falcatruas pode. E, de acordo com os baixos índices do ibope e com diversos comentários nas redes sociais, uma enorme parte dos telespectadores compactua com essa lógica. Sociedade, cadê a sua coerência? Quando você vai evoluir?

“Babilônia”, parabéns por mostrar o que a maioria tenta esconder. E, para fechar com a mesma pegada que começou, rolaram dois beijos lindos no último capítulo (deviam ter continuado rolando ao longo de toda novela, mas antes tarde do que nunca, né?). Espero que venham mais novelas REAIS, tratando de assuntos que importam, e menos nhem nhem nhens 🙂

 

 

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2 comentários

  1. Oi M! Tudo bem? Vou discordar um pouco do seu ponto de vista. Acho que as novelas da Globo caíram de nível (de roteiro) já faz um tempo… Não assisto muito TV (só Doctor Who), mas vi uns trechos na casa da minha mãe e pôxa, que coisa enfadante! Acho que foi um fracasso muito mais por isso do que por ser uma novela “depravada”. Afinal, mesmo que as pessoas critiquem, elas continuariam a assistir se a história fosse intrigante (um exemplo é a minha mãe, que disse que não tem paciência com a história).

    Ultimamente toda a grade da Globo está em crise, e a novela foi o ápice. Muitos temas a serem discutidos, mas sem uma trama central bem elaborada fica apenas um monte de chavões de estereótipos e “tabus” a serem quebrados, é como um monte de gente gritando e gritando, e você não consegue ouvir nada. E, quando para pra ouvir, não era nada mesmo…

    Fora que, para tentar “engrandecer” uma classe, acabam deturpando e influenciando no preconceito contra outra… Desde quando religiosos são todos hipócritas? Claro que não são, mas nas novelas da Globo sim. Cristãos (sempre cristãos evangélicos ou católicos) ou são falsos ou burros, no imaginário dos autores. Agora, outros nichos são sempre exaltados (espíritas, por exemplo). Nunca vi um espírita falso ou burro em uma novela da Globo, nem um umbandista charlatão, muito pelo contrário…

    Enfim, só queria oferecer um outro ponto de vista. Acho que o problema da novela foi ser má escrita mesmo, pois já vi muitas novelas e programas com roteiros ótimos que também tratavam de temas como a homossexualidade e o machismo. No Doctor Who mesmo, tem um casal de lésbicas e uma delas é um lagarto, e nem por isso eu, sendo cristã, parei de assistir…

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    1. Oi, Ana! Fique à vontade, compreendo seu ponto de vista. Concordo quando você diz que o nível dos enredos das novelas caíram, é uma fato mesmo. Acho que o formato está “cansado”. No caso de “Babilônia”, minha ressalva foi porque acho realmente que o que pesou muito para o seu “fracasso” foram os temas polêmicos que ela trouxe de maneira muito direta, para além do enredo fraco simplesmente. É claro que a homossexualidade já havia sido abordada em inúmeras outras novelas, por exemplo. Mas nunca chegou tão simplificada, sem rodeios. Em “Amor à vida”, demorou uma novela inteira para que os personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso, enfim, dessem seu beijo no último capítulo, envolto a um enorme suspense se rolaria ou não. Em “Babilônia”, o autor foi mais corajoso e objetivo nesse sentido: o beijo entre ninguém mais, ninguém menos que Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg aconteceu logo de cara. Conheço pessoas e ouvi muita gente dizendo que haviam parado de assistir a essa novela justamente por isso, pelos temas, e que estavam fazendo um boicote declaradamente. Por isso a postagem.
      E quanto aos evangélicos, minha intenção não foi estereotipar ninguém, nem ofender. Mas acho que a novela mostrou algo que acontece: muitas pessoas que hostilizam os homossexuais se usam da justificativa religiosa. É claro que não são todos os evangélicos ou católicos que se comportam assim! Tanto que, na própria novela, havia outros religiosos com comportamento totalmente diferente do prefeito e de sua mãe.
      Enfim, não pretendo defender nenhuma novela (rs). A intenção era só chamar atenção para o machismo e o preconceito que insistem em existir.
      Seja sempre bem-vinda, Ana! Obrigada por seu comentário.
      Beijinhos

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