Mês: setembro 2015

Produção editorial: quem faz o quê — Parte II

Olá, queridos!

No post anterior, discorri sobre o quem é quem, o “quem faz o quê” da produção editorial. Comecei escrevendo um pouco a respeito do autor, do tradutor, do preparador e do diagramador (incluindo menções ao organizador e ao copidesque). Agora, então, darei continuidade. Direto ao ponto: hora de comentar as principais funções e atribuições do revisor, do capista, do editor e do produtor gráfico. Assim, a gente fecha a cadeia da editoração. 🙂

 

Revisor: A palavra “revisor” pode ser utilizada para qualquer profissional responsável por ler e fazer alterações no texto, sejam elas de cunho ortográfico e gramatical (ou seja, adequação à língua), de cunho editorial (fazer as adequações ao manual e aos estilos adotados comumente pela editora) ou de cunho normativo (adequar às normas da ABNT ou afins). Há, ainda, a possibilidade de ser um revisor técnico, que é chamado em alguns livros específicos para fazer uma revisão do conteúdo propriamente dito (como já vimos, o conteúdo é de responsabilidade do autor, mas em um livro inteiramente sobre história da arte na Idade Média, por exemplo, talvez o editor julgue necessária uma revisão técnica, ou seja, que alguém bastante conhecedor desse tema, um especialista nele, leia o texto todo para se certificar de que todo o conteúdo esteja correto). Mas, aqui, estou me referindo ao revisor de provas diagramadas, seguindo a sequência (habitual) da cadeia editorial que estamos traçando. O revisor é a pessoa a receber o livro diagramado e, pela primeira vez, impresso. Ele é responsável, então, por pegar aquele chumaço de folhas e ler o texto inteiro, na íntegra, para fazer uma nova revisão — pois aqui estamos considerando que o texto não está mais “virgem”, que já foi devidamente mexido e revisado no Word pelo preparador e/ou pelo copidesque. Mesmo que o texto tenha passado por uma (boa) preparação, também chamada de “primeira revisão”, é totalmente normal que role a “segunda revisão”, feita pelo revisor de provas — e, dependendo da sujeira do texto, ou seja, do quanto ele esteja complicado, pode haver ainda a “terceira” ou “quarta”, tudo vai de como estiver a qualidade. Em geral, o revisor costuma ser mais para acertar arestas. Se o preparador é responsável pelas primeiras e mais profundas alterações, se atentando mais para a parte estrutural do texto e do esqueleto do livro, o revisor é tão importante quanto, mas se volta mais para os detalhes: checar pontuação, acentuação e padronizações (este item é muito importante, valerá um post depois); ver se passou algo na preparação, como frases desconexas ou com falta de clareza; conferir a estrutura da bibliografia em livros de não ficção; ou seja, deixar o livro totalmente “redondo”. Cada erro e alteração que o revisor considere necessários, ele deve anotar a caneta (normalmente, vermelha) na prova diagramada, com marcações que chamamos de “emendas”. (As emendas, como vimos na primeira parte deste post, são passadas para o arquivo pelo diagramador.) E se por acaso o revisor ainda se deparar com algum problema no texto que deva ser reportado ao autor, algum trecho que necessite de esclarecimento, ele pode fazer isso: sinalizar a dúvida para esta ser enviada àquele. É só no final de todo este processo que o texto estará fechado — o texto, não o miolo como um todo ainda. Observação: às vezes, o próprio revisor já faz também os itens do fechamento (quebras, bater a grafia dos títulos no texto x no sumário, checar paginação, cabeços etc), mas esta costuma ser uma função do editor ou do assistente editorial.

Capista: Profissional responsável por criar a capa do livro. Normalmente, é um designer editorial/gráfico, mas pode ser um ilustrador também. Cada vez mais, é comum que as editoras terceirizem etapas da produção, e com isso o profissional que diagrama o miolo do livro não é o mesmo que cria a sua capa depois. Há diversos profissionais que se especializam apenas em fazer capas e que atuam só nisso. Eu, no entanto, acho bacana quando o capista é o mesmo diagramador do miolo, pois isso confere uma unidade maior ao livro. À primeira vista ou a um olhar mais leigo, as colocações do título e do nome do autor, as fontes e o uso do espaço podem parecer meio aleatórios, mas acreditem, não são. Ou seria legal que não fossem. E, por isso mesmo, é interessante quando as escolhas da capa se associam às escolhas do projeto gráfico do miolo — e, logo, essa afinação será maior se ambos forem de responsabilidade do mesmo profissional, ou se, pelo menos, houver um trabalho de equipe muito bem orquestrado entre o capista e o diagramador, de modo que estes dois possam trocar figurinhas. A capa é elemento fundamental de um livro. Ela não apenas precisa dizer sobre o conteúdo do livro e mostrar ao leitor o que esperar dele; ela é usada como peça de marketing editorial. É só pensar em uma livraria abarrotada de livros. Quem nunca pegou um exemplar atraído por uma capa bonita ou chamativa? Pois é, esta é a função do capista: pensar e criar uma capa que tenha bastante a ver com o conteúdo do livro e com o projeto gráfico do miolo e que, preferencialmente, também seja comercial, ou seja, tenha um bom apelo visual para ajudar nas vendas. Acho importante comentar que, na minha humilde opinião, tanto o diagramador quanto o capista precisam ler, pelo menos razoavelmente, o livro para fazerem seus trabalhos da melhor forma possível (digo isso porque já ouvi muitos profissionais dizendo que não o fazem, por conta de curto tempo etc, e apenas seguem as orientações gerais que lhes são passadas).

Editor: Maestro. Gerente geral da produção editorial. É até difícil descrever as principais atribuições do editor, porque ele participa de toda a cadeia da produção. É ele quem olha o original pela primeira vez, para ver do que se trata o material e como será feita a editoração e de quais profissionais precisará. É ele quem fica em contato com o autor, para saber quais são suas expectativas com o livro e se há orientações ou observações iniciais — e é muito importante estabelecer logo de cara este contato, traçando uma relação de confiança entre os dois lados do balcão. É ele quem monta o cronograma de toda a produção editorial que será feita, e também ele quem vai supervisionando e controlando cada etapa. É ele quem checa o arquivo final, faz o fechamento do miolo e envia tudo para a gráfica. Mas é claro que, nesse meio de campo, rola muita bola e há diversos pormenores que o editor pode (ter de) fazer também. Por exemplo, após o preparador e/ou o copidesque ter mexido no texto, o arquivo de Word fica cheio de marcações de revisão, que devem ser aceitas ou rejeitadas. É comumente o editor quem recebe esse arquivo e gerencia as emendas do Word do preparador/copidesque. Aí, ele separa as dúvidas textuais que o preparador/copidesque tenha sinalizado e as envia para o autor, que lhe responderá. Novamente, caberá ao editor passar as respostas do autor para o texto. O mesmo tipo de interferência e participação do editor pode acontecer após a revisão da diagramada. Em suma, o editor é a ponte entre cada uma das etapas de editoração, e é o maior contato desta com o autor. Leia-se: um bom processo editorial depende muito de uma boa atuação do editor, que funciona mesmo como um maestro que rege o conjunto todo. É importante que seja um profissional dinâmico, que conheça bem todas as etapas e como funcionam e que seja comunicativo e com jogo de cintura. Muitas vezes, o editor não trabalha sozinho, mas, sim, com alguém que o ajuda em suas atribuições diretamente: um assistente editorial ou editor assistente. Em muitos casos, o próprio assistente editorial fica responsável sozinho por algumas dessas funções.

Produtor gráfico:  Em geral, ele não trabalha dentro das editoras. O produtor gráfico é o profissional especializado em conhecer as técnicas de impressão, os diferentíssimos tipos de papel, de tintas, de cores, além de fazer orçamentos para pedidos e compras de todos os materiais utilizados para imprimir os exemplares na gráfica. É legal que o produtor gráfico atue como um consultor, dialogando com o diagramador/designer editorial e com o editor, para escolherem qual é o papel que ficará melhor no miolo e na capa, por exemplo, e qual é a melhor opção de impressão. Além disso, é responsável por supervisionar a impressão dos exemplares, checando se esta está saindo boa, se a tinta está pegando bem no papel, se não está manchando a folha, se a carga da tinta está homogênea em todas as páginas etc. Qualquer problema, ele deve entrar em contato com o editor. Acontece, por exemplo, de, durante a impressão, um papel se mostrar não funcional com a forma de impressão escolhida. Aí, é necessário esse contato com o editor para que as mudanças apropriadas possam ser feitas. Em suma, é o produtor gráfico quem recebe os arquivos do livro na gráfica, enviados pela editora, e controla a impressão. Também providencia o envio das provas heliográficas para a editora.

 

E, com isto, estão dispostos os principais profissionais que atuam na produção editorial de livros. Espero que tenham gostado e que as colocações tenham ficado claras e bacanas.

Beijinhos e até o próximo post!

Sigam O Eu Literário no Facebook também: https://www.facebook.com/oeuliterario

Anúncios

Produção editorial: quem faz o quê — Parte I

(Imagem: Reprodução/Google)

Quem recebe o livro, quando ainda é só um original do autor, na editora? Quem faz uma primeira “triagem” nele, vendo do que vai precisar? Quem acerta seu texto? Quem escolhe a fonte que vai ser usada? E o papel? (Sim, tudo isso e cada detalhe é devidamente escolhido!) Quem cria a capa? Quem dá um último confere no arquivo antes de enviá-lo para a gráfica que imprimirá os exemplares?

Pois é, queridos amantes de livros. Nada é aleatório no processo da produção editorial. Há todo um cronograma e uma divisão de tarefas entre diversos profissionais para que a mágica aconteça e aquele original do autor, normalmente um simples arquivo de Word, se transforme em LIVRO. É uma coisa meio “mágica” mesmo para mim, pelo empenho que tanta gente dedica e pelo modo como aquele aglomerado de páginas e capítulos vai se transformando, vai surgindo aos nossos olhos; como tudo aquilo vai sendo moldado e pensado, até que, voilà, temos aquele exemplar com miolo, capa, quarta capa e lombada nas nossas mãos. E o brilho no olhar que os livros são capazes de provocar, tanto nos profissionais que trabalham com sua produção quanto nos leitores, é algo fascinante. É “mágico” mesmo.

Mas dando continuidade ao post “Quem atua no processo editorial?“, em que enumeramos a ordem habitual das etapas de uma produção, comentando quais são os profissionais que atuam em cada estágio, vamos agora destrinchar um pouco mais as principais funções de cada uma dessas pessoas. O “quem faz o quê”. Então, bora lá conhecer mais sobre a produção editorial! 😉

Autor: É quem escreve a obra, o responsável pelo conteúdo do livro que você lê. Seja uma obra de ficção ou um estudo acadêmico, todas as ideias ali contidas são do autor – que, após enviar o original para a editora, permanece tendo papel fundamental durante o decorrer da produção editorial, para sanar dúvidas do editor e do revisor, fazer possíveis e importantes observações para estes ou mesmo para o designer e o capista, e para checar se o sentido original do texto foi corretamente mantido durante as etapas editoriais. Vale comentar, ainda, que há muitas obras que são coletâneas, em que cada capítulo é como um artigo próprio, escrito por um autor diferente. Nesses casos, é comum haver a figura do organizador (ou coordenador, ou compilador), que fica responsável pelo conjunto dos autores e por buscar dar a unidade do livro, e é quem responde por este junto à editora.

Tradutor: É bem comum, principalmente nas grandes editoras, comprar os direitos de uma obra estrangeira para traduzi-la e distribuí-la em português aqui no Brasil. É de se imaginar que, para que isso seja possível, há uma pessoa que fica destinada a todo o trabalho de traduzir o original de outra língua. Este profissional não é o revisor nem editor. Uma pessoa é designada especialmente para isso, até porque a tradução envolve um campo de atuação muito próprio e específico. Não basta ter domínio da língua original. É preciso ter domínio tanto da língua em questão quanto do português e ter uma série de noções e conhecimentos sobre tradução em si (configura um campo de estudo!). Além disso, o recomendável é que o tradutor tenha um conhecimento sobre a forma de escrever do autor. Se for um livro de ficção, por exemplo, ou seja, literatura, faz toda a diferença já ter visto ou lido outros livros do mesmo autor, para ver se aquela palavra que ele usou pode ser traduzida assim ou assado, de acordo com o estilo que ele costuma adotar em suas obras. O tradutor precisa, além de deixar o livro em língua portuguesa, fazer as escolhas adequadas, buscando respeitar a ideia original do autor e o seu estilo. Para tudo isso, é normal que haja dúvidas durante seu trabalho, que devem, idealmente, ser esclarecidas com o próprio autor (ou com algum representante); se for possível, ter esse contato direto entre autor e tradutor é fundamental, para que as melhores decisões possam ser estabelecidas. Além disso, após concluída a tradução, é bacana também que o tradutor passe algumas observações para o editor/preparador/revisor, sobre algumas escolhas importantes que foram tomadas, buscando garantir que, em etapas futuras, estas não sejam desfeitas por outro profissional que vá dar continuidade ao processo e visando à coesão editorial.

Preparador: Quando o original em português já está com a editora, a primeira coisa que precisa ser feita é a sua preparação. O preparador é o profissional responsável por fazer a primeira leitura profunda do texto completo. É ele quem vai fazer as adequações necessárias no original de acordo com as normas editoriais da Casa (é normal que cada editora tenha seu próprio manual); quem vai fazer uma primeira leitura, buscando corrigir erros ortográficos, gramaticais e de digitação; quem vai atentar para a coerência e a coesão textual e marcar dúvidas em ideias que não ficaram claras, que deverão ser esclarecidas com o autor depois; e que tem a função de observar a estrutura do arquivo – ele pode julgar se o livro precisa de um prefácio ou um prólogo, por exemplo, e fazer a observação para o editor, mudar a ordem de parágrafos ou mesmo sugerir alterações na ordem de capítulos etc. O preparador é um revisor, mas um revisor que atua no primeiro momento da produção; ele trabalha no arquivo de Word, justamente porque é em uma fase inicial, em que é comum haver muitas alterações e correções a serem feitas. Digamos que a preparação é uma “revisão mais profunda”. Ele é o maior responsável por garantir que o conteúdo do texto esteja ok. Comentário relevante: há também a figura do copidesque. Em um outro post, posso discorrer mais sobre as diferenças entre copidesque, preparador e revisor, pois é algo muito discutível, visto que cada editora pensa de uma forma e faz suas próprias distinções. Basicamente, as funções de um copi são semelhantes (não necessariamente iguais) às do preparador, por isso nem sempre sua figura existe na produção de um livro.

Diagramador: Quando o arquivo de Word está “fechado”, ou seja, já passou pela preparação e ficou sem nenhuma questão pendente, é o momento de ele ser diagramado. A diagramação é um design gráfico, logo, é feita por um designer. É o designer/diagramador o responsável por pensar e escolher todo o projeto gráfico do miolo. Tudo deve ter um porquê: a(s) fonte(s) usada(s), o corpo, o espacejamento entre as linhas, o tipo de alinhamento (no meio “comercial”, o mais comum é o justificado, em que as linhas sempre começam e terminam seguindo exatamente o mesmo recuo na página, mas também pode ser feita a opção pelo alinhamento à esquerda, por exemplo, de acordo com a ideia do livro e com o objetivo do autor), o local onde aparecem os cabeços e os números das páginas, a forma do sumário, o papel que será utilizado na impressão etc. Em resumo, o diagramador é quem pensa a forma do livro. E ele tem liberdade para isso. Pode haver conversas – e é sempre bacana que haja! – com o autor, no sentido de este último dar suas opiniões e, inclusive, fazer alguns pedidos, como “Ah, pelo motivo X, eu gostaria muito que fosse usado o alinhamento à esquerda!”, mas as escolhas quanto ao formato são a cargo do diagramador mesmo. Além disso, também é função do diagramador, depois, passar para o arquivo do livro as emendas que o revisor marcar na prova diagramada. (Sobre essas nomenclaturas, ver post anterior sobre termos da produção editorial.) Ah, o diagramador costuma trabalhar, principalmente, no programa Indesign (mas a escolha fica por conta do profissional), podendo lançar mão de outros também, como o Corel, Illustrator ou Photoshop, de acordo com as especificidades de cada obra e com seu próprio gosto pessoal.

Para esta postagem não ficar quilométrica, as pinceladas gerais sobre as principais funções do revisor, do capista, do editor e do produtor gráfico ficarão para uma continuação, tá? Prometo que virá logo. É só para não ficar uma leitura muito cansativa.

Portanto, concluindo, vou mencionar aquilo que é a principal coisa de toda a produção de um livro, e que talvez vocês, lendo os posts, já tenham notado: o mais importante de tudo é o DIÁLOGO. Uma produção pautada por uma boa comunicação entre todas as pontas da cadeia, entre todos os envolvidos, deixando sempre claros e mapeados os objetivos e as escolhas de todos, é a chave para um bom livro – e para um bom processo editorial. Além disso, acho sempre válido comentar e lembrar que tudo isto é uma visão geral e com base em percepções e experiências próprias, pois não há um “formato de editoração” exato; cada editora pode atuar de um jeito e cada profissional pode acabar praticando funções distintas, tudo depende também do livro em questão.

Bons livros e até breve!

 

Bienal do Livro – Rio 2015

Já tinha um tempo que eu não ia à Bienal do Livro. Estava ansiosa para ir este ano; me sentia criança novamente. E minhas expectativas não foram quebradas. Assim que pisei naquele espaço gigantesco (e, desta vez, com uma credencial de “Editor” pendurada no pescoço, o que me fazia sentir ainda mais nas nuvens, confesso) e me vi rodeada de estandes, livros e editoras enormes por todos os lados, dei um sorriso daqueles que brilha e pensei: “Estou em casa!”.

Fui apenas como visitante, pois a editora em que trabalho não participa da Bienal – é um evento para “as grandes”. E não estava sozinha, fui em uma pequena caravana familiar. Por isso, e por um cansaço físico que me/nos consumia, não permaneci por tanto tempo lá. Fissurada por ver livros e escolher os que compraria, só no final me dei conta de que acabei esquecendo de dar mais atenção à parte da programação cultural. Não vi muita coisa legal, que depois fiquei sabendo que tinha; também não assisti a nenhuma palestra nem bate-papo com autores. Valeria a pena fazer uma nova viagem – sim, porque juntando a distância com o trânsito infernal é isso que vira – até lá neste final de semana só para ver tudo isso, mas não sei se vou poder. Mas, enfim, valeu a pena.

Comprei cinco livros (que estão na lista de espera das leituras ainda), e fiquei chateada porque três que eu tinha anotado não constavam lá. O que encabeçava minha listinha, Suicidas, inclusive. 😦 Mas tudo bem, mês que vem eu vou a uma livraria qualquer e procuro os que não encontrei. Os livros que comprei estão na foto no final deste post, para dividir com vocês. (Obs.: Essa, aliás, é uma dica valiosa: ir com uma listinha de livros pré-selecionados para ver e procurar lá, porque é taaaanta opção pulando por todos os lados que a gente acaba se perdendo!)

Ainda sobre minhas percepções da Bienal em si, confirmei minha aposta, que já tinha comentado aqui (O momento atual: livro vende?): o evento, cada vez mais, é pensado prioritariamente para os adolescentes e jovens adultos. Além de este ser o público que eu mais vi lá no dia em que fui – mas também havia muitas crianças, pais, adultos e até pessoas mais velhas, galera de todas as idades mesmo –, também senti isso pelo modo como as editoras fizeram/montaram seus estandes e faziam suas divulgações, sem contar nos diversos “personagens” de sagas young adult que vagavam pela feira, inclusive autores fantasiados, atraindo muita atenção dessa galera, dando muitos autógrafos e tirando várias fotos. Bacana. Marca de um mercado que continua crescendo e tem dado um gás para as vendas de livros.

A única decepção foram os preços. Até vi algumas promoções em algumas editoras, mas bem poucas. A maioria dos livros estava com os preços normais. Acho que um evento literário desse porte e dessa magnitude poderia (e deveria) investir mais em descontos, de maneira mais homogênea.

Por fim, fica um lembrete importante: a Bienal do Livro é fantástica mesmo! Mas existem várias outras feiras e festas literárias espalhadas pelo país. Muitas nem chegam ao conhecimento do grande público. Fiquem ligados, vamos continuar prestigiando a leitura e o mercado editorial brasileiro. Vêm muitas feiras de livros legais por aí, e eu espero que todos que foram à Bienal vão a todas estas também. 😉

Sei que alguns aí quase todas as pessoas da Terra já leram, rs. E aí, boas recomendações sobre minhas aquisições? <3

Sei que alguns aí quase todas as pessoas da Terra já leram, rs. E aí, boas recomendações sobre minhas aquisições? ❤

Por hoje, é isto. Neste final de semana, vai ter postagem em “Da minha profissão” novamente! 😉

Beijinhos

Linguagem (própria) editorial

termos editoriais

 

Oi, gente!

Hoje eu tinha me programado para continuar escrevendo sobre quem atua no processo editorial, falando sobre as principais funções de cada um desses profissionais, mas fui acometida por um post que passou a frente. Explico: ao ler o texto anterior de “Da minha profissão”, em que falo sobre as etapas da editoração, meu namorado comentou comigo que “estava bacana, só um pouco ‘técnico'”. Oi? E foi só então que caiu a ficha de que eu não sei para quem estou escrevendo, provavelmente para muitos que não têm (ainda) tanto contato com o dia a dia de uma produção editorial, e por isso alguns termos podem soar estranhos. Por isso, cá está: meu próprio dicionário livreiro. 😀

Montei uma listinha com algumas palavras e expressões muito comuns para quem trabalha com edição e produção de livros. Acho que boa parte é de conhecimento geral já, mas não custa colocar aqui. Atenção aí!

 

  • Miolo: Todo o interior do livro, seu conjunto de cadernos e de folhas.
  • Cadernos: Conjunto de páginas que são impressas na mesma folha, com a mesma chapa de impressão. Cada caderno precisa ter um número de páginas múltiplo de 4 (devido à quantidade de vezes possível de uma folha ser dobrada). Daí também outra expressão comum: na montagem de um livro é preciso que ele “feche caderno”, ou seja, tenha um número de páginas pertinente à montagem escolhida.
  • Contracapa: A parte interna da capa.
  • Quarta capa: A capa posterior do livro.
  • Orelhas: Aquelas abas menores, continuações das capas, que dobram para dentro e costumam conter sinopse do livro, biografia do autor, entre outras informações adicionais.
  • Lombada: Aquela parte lateral e externa do livro, onde do lado interno estão afixadas as folhas, e cujo espaço é destinado ao título, ao nome do autor e à logo da editora.
  • Folha de rosto: Aquela página dentro do livro, logo no início, que funciona como uma “capa interna”; ou seja, vêm escritos título, autor, editor, local e ano de publicação.
  • Ficha catalográfica: Página onde constam todas as informações técnicas do livro, como título da obra, nome do autor/dos organizadores, casa editorial, local e ano de publicação, informações de edições anteriores, ISBN, entre outras.
  • ISBN: É o número internacional dos livros, obtido por um sistema padronizado que identifica numericamente os livros, de acordo com assunto, título, autor, país e editora.
  • Colofão: Pequena inscrição que costuma aparecer na última página do livro, informando a fonte usada no livro, o papel escolhido para a impressão, a gráfica que imprimiu os exemplares e a época em que o livro foi impresso.
  • Cabeços: Título do livro e nome do autor ou título do capítulo, que aparecem ou no alto ou no pé de cada página (depende do projeto gráfico), situando o leitor.
  • Tiragem: Número de exemplares de uma edição impressos de uma só vez.
  • Texto poluído: Texto com muitos erros, sejam ortográficos, gramaticais, frases mal-estruturadas, confusas etc. Ou seja, aquele tipo de texto em que o preparador/copidesque/revisor tem mais trabalho.
  • Prova diagramada: Impressão completa do livro, feita na própria editora, com o material já revisado no Word e diagramado, onde o revisor trabalhará novamente, mas agora fazendo uma revisão sobre o papel.
  • Emendas: As alterações de revisão que o revisor marca na prova diagramada, as correções que devem ser feitas.
  • Prova suja: A prova diagramada com as emendas do revisor para serem passadas pelo diagramador para o PDF do livro.
  • Prova limpa: Quando o diagramador já passou todas as emendas marcadas pelo revisor na prova diagramada e esta já foi devidamente “batida” (ou seja, alguém, possivelmente o editor, o assistente editorial ou o próprio revisor, dependendo da forma de trabalho da casa editorial, checou se todas e cada uma das emendas foi corretamente passada para o PDF do livro).
  • Bater: Checar se as emendas foram corretamente passadas e, logo, os erros corrigidos.
  • Fechamento: Etapa final da produção editorial, quando são checados itens pontuais, como paginação (se corre certinha e se as páginas de abertura de cada capítulo batem com as páginas sinalizadas no sumário), grafias dos títulos dos capítulos e do livro (tanto no decorrer do texto quanto no sumário e na ficha catalográfica, pois as grafias devem aparecer sempre exatamente iguais), notas de rodapé (se o livro as possuir, verificar se a contagem segue a numeração lógica e se elas aparecem nas páginas onde estão marcadas para aparecer), cabeços (se nenhum cabeço está faltando em alguma página, se não foi trocado e se a digitação está correta) e as quebras (quebras de palavras, é preciso passar olhando uma a uma todas as palavras que estão “quebrando” no final de cada linha, para ter certeza de que nenhuma sílaba foi separada erroneamente – e, de acordo com as preferências de cada editora, também há quebras que costumam ser apontadas como “evitáveis”).
  • Prova heliográfica: Um “esboço” de como ficará o livro que normalmente a gráfica manda para a editora poucos dias depois de esta ter enviado o material, para que os editores confiram se está tudo ok, principalmente quanto à montagem dos cadernos (e também é o momento de ver se a capa vai ficar legal), e/ou perceberem últimas alterações que precisem ser feitas (o que, a esta altura, deve ser muito evitado, a menos que seja realmente necessário).

Aí estão alguns dos principais termos. Não estão em ordem alfabética porque mantive uma ordem lógica/cronológica mais ou menos. Acho que daqui para frente fica mais tranquilo de sacar tudo, né? rs

Espero que gostem. Beijinhos!

O momento atual: livro vende?

Começa, hoje, a XVII Bienal Internacional do Livro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Maior evento do mercado editorial brasileiro, grande momento para a cultura literária. Outro começo: Esta semana, uma notícia chocou a galera dos livros e os jornalistas: o encerramento de um dos principais cadernos de literatura do país, o Prosa, do jornal O Globo. Ou seja, o maior evento de promoção (no sentido de promover) de livros chega na mesma semana em que o maior grupo de comunicação do Brasil mostra, aparentemente, que cultura, incluindo livros e literatura, não merece espaço nem notícias na mídia. O que pensar sobre isso?

No início de agosto – ou seja, há cerca de um mês –, duas grandes companhias editoriais demitiram funcionários: a Saraiva e a Record. Contenção de gastos, devido ao momento delicado da economia. No último dia 27, o 6º Painel das Vendas de Livros do Brasil divulgou dados que mostram que, pela primeira vez neste ano de 2015, as vendas de livros caíram em todo o país – entre os dias 13 de julho e 9 de agosto, houve variação negativa tanto em volume (-5,5%) quanto em faturamento (-3,1%), em comparação com o mesmo período de 2014. Há poucos meses, outras notícias também já tinham atingido em cheio a galera livreira. Uma das principais foi a divulgação do fim das atividades da livraria Leonardo da Vinci, das mais tradicionais do Rio de Janeiro. Na ocasião, a herdeira do negócio afirmou que era “inviável” continuar. Ou seja, parece que o retrato do momento é este mesmo: de que “livro não vende”, ou já não vende tanto assim.

A tal “crise” econômica está aí, e o mercado editorial tem sentindo bastante. No meu universo profissional particular, a queda das vendas de livros é clara e foi brusca. (E me parece que a área que mais sofre é a de não ficção, a menos “glamourizada” – percepção minha, nada comprovado.) Mas o que esperar da Bienal, então?

Pois é, vamos ver como serão o movimento e as vendas de livros este ano, se haverá impacto também ou não. Mas, de cara, já dá para saber de uma coisa: a Bienal aposta em um nicho particular, o público teen, com os famosos best-sellers que movimentam a garotada loucamente. E este mercado mostra que ainda tem força, acho inclusive que é o que mais gás tem apresentado. Então, apesar de ser curiosamente contraditório, a uma primeira vista – em relação ao fato que abre este post, o término do caderno Prosa, assim como aos acontecimentos anteriores, de demissões em grandes editoras e fechamento de livrarias–, é possível, e muito provável, que o maior evento literário brasileiro seja um sucesso de público e de vendas este ano, sim, mais uma vez. Mas o momento não deixa de ser triste e crítico. Precisamos investir em todo o mercado editorial brasileiro, não apenas em um nicho, e temos, principalmente, que investir no livro nacional. Há inúmeros bons escritores por aqui. Valorizemos nossos produtos! A (boa) continuação do mercado nacional de livros depende também de nós, leitores. Porque, no fim das contas, eu acredito que livros “vendem” e “venderão” (em todos os sentidos), sim, sempre.

Quanto ao Prosa, vale ressaltar que apesar de haver aquele pensamento de que “livro não vende” (não vende jornal), há muito mais por trás desse encerramento. Foram dezenas de demissões n’O Globo no início desta semana, retrato de uma crise que o jornalismo enfrenta, como um todo. A situação na área está bem mais complicada, e é também mais complexa e delicada. Mas achei a coincidência dos dois fatos na mesma semana curiosa e oportuna para refletir sobre o momento do mercado editorial brasileiro. Esta é apenas uma divagação de alguém que ama livros e acha que eles devem ser valorizados sempre, em todos os cenários possíveis.

Quem atua no processo editorial?

Imagem: O Eu Literário

(Imagem: O Eu Literário)

Como um livro é produzido? Como toma sua forma? O processo de produção de um livro, sua editoração, é longo e complexo, além de delicado, já que passa por diversas etapas (leia-se: por diversas mãos, diferentes profissionais). Neste post, discorrerei um pouco sobre esse processo, suas principais fases e no que cada uma se constitui. De antemão, adianto uma coisa: a(s) palavra(s)-chave do bom funcionamento de toda essa sequência editorial é comunicação (e, às vezes, paciência também). Todos os profissionais devem dialogar entre si, de modo que as premissas do livro estejam sempre em primeiro lugar, e é preciso lembrar que este é um produto fruto de um trabalho coletivo, em equipe.


Emanuel Araújo, em seu A construção do livro (2ª edição), assim define “editoração”: “Segundo a definição mais corrente, editoração é o conjunto de teorias, técnicas e aptidões artísticas e industriais destinadas ao planejamento, feitura e distribuição de um produto editorial. Em outras palavras, editoração é o gerenciamento da produção de uma publicação – livros, revistas, jornais, boletins, álbuns, cadernos, almanaques etc” (2008, p. 38).


O pequeno diagrama acima, elaborado por mim, serve como uma ilustração simples e direta a respeito do processo e da ordem das etapas de editoração de um livro, desde que ele é pensado e escrito, pelo autor, até o momento em que chega da gráfica, pronto para a distribuição e a comercialização. É importante frisar que esse é apenas um modelo ilustrativo, em que aparecem as principais atividades e os profissionais mais recorrentes. Pode haver muitos outros profissionais envolvidos no processo, de acordo com as necessidades específicas de cada obra e com o modo de atuação de cada casa editorial.

 

A ordem das etapas editoriais

Apesar de a ordem do diagrama ser apenas exemplificativa, como já comentei, pois cada editora desenvolve seu próprio método interno de trabalho, acredito que esse seja um modelo interessante, que contemple boa parte das linhas editoriais.

As setas indicam o sentido e o movimento do trabalho. Mas há um grande lance por trás desse aparente sentido unilateral: na verdade, por mais que haja uma direção que norteia a editoração, é comum que haja “idas e voltas” entre uma etapa e outra. Após o livro passar pela preparação do original, por exemplo, é muito natural que surjam dúvidas relativas ao texto – sobre palavras com colocações que não parecem adequadas, trechos confusos, ausência de referências em citações (no caso de livros acadêmicos/de não ficção), entre outros problemas. Nesse caso, em vez de o preparador enviar o texto revisado direto para o diagramador, será necessário que o texto volte para o autor (ou para o tradutor, no caso de um livro traduzido) após a preparação, junto com as dúvidas sinalizadas, para que as questões sejam resolvidas. Afinal, se há um parágrafo com frases truncadas, em que o sentido e a coerência do texto estão comprometidos, cabe ao preparador perceber e sinalizar isso, mas a pessoa mais indicada para informar qual era o real pensamento por trás daquelas frases é quem as escreveu, ou seja, o autor. (O mesmo tipo de movimento de checagem e esclarecimento em relação ao texto é comum também entre o tradutor e o autor.)

Outra consideração importante é sobre a posição do editor no diagrama. Coloquei-o ali, após o capista, demonstrando que é o editor quem vê o trabalho por último e é o responsável por agrupar todos os elementos e (buscar) garantir que o livro esteja todo ok, sem problemas provenientes de nenhuma etapa anterior, e por fechá-lo. Mas, na verdade, o editor costuma atuar em todo o processo, entre todos (ou quase todos) os estágios, servindo justamente como uma “ponte de ligação” e de diálogo entre todos os profissionais envolvidos na produção e na edição. Mais uma vez e sempre, é claro que tudo isso depende do editor em questão e da casa editorial onde o livro está sendo feito. Mas é comum, por exemplo, que quem faça o contato com o autor, após o preparador e o revisor sinalizarem as dúvidas de texto, seja o editor. Por isso, a posição do editor no diagrama é a que mais pode sofrer alterações na prática. Ele pode (e deveria, inclusive) flutuar por toda a editoração.

Mas, enfim, vamos à ordem do diagrama e dos profissionais nesse processo. Considerando a direção principal e mais natural, o livro é escrito pelo autor e enviado, normalmente em Word, para a casa editorial. Se for original em outra língua, o Word segue para um tradutor. Feita a tradução e estando o Word já devidamente adaptado para a nossa língua vernácula, ele segue para a preparação, quando passa pela primeira fase de revisão de texto e por uma observação mais a fundo em sua estrutura enquanto livro. Quando o texto está “fechado” (preparado e já alterado de acordo com possíveis respostas, comentários e observações do autor), o diagramador o assume, para pensar em qual projeto gráfico é apropriado para aquela obra que surgirá – a ideia é de que tudo esteja conversando entre si; é bacana que cada detalhe, como fonte escolhida, corpo do texto, espacejamentos e todo o design do miolo, esteja de acordo com o que o livro e o texto dizem. Após a diagramação, o material (agora, já com mais cara de livro) chega às mãos do revisor, que será o responsável por uma nova revisão,  mas desta vez diretamente no papel – naquelas que chamamos de “provas diagramadas”. (Caso ainda apareçam dúvidas para serem esclarecidas com o autor nesta etapa, o que também não é incomum, este novo contato deverá ser feito ao término da revisão.) Agora que o miolo está devidamente trabalhado e, a princípio, concluído, é a vez de a capa, item tão importante (principalmente em termos de vendas), entrar em cena. O capista, que muitas vezes é o mesmo profissional que fez o projeto gráfico e diagramou o livro, pensa em algo que tenha a ver com a proposta e com as ideias da obra para produzir a capa. E aí, então, cabe ao editor receber todo esse material, checá-lo, ver se não passou nenhum erro, se o texto está bom e bem-estruturado, se o projeto gráfico e a capa estão satisfatórios, se as propostas/ideias do autor foram mantidas, se as informações “técnicas” do livro estão corretas (ficha catalográfica, ISBN etc), se a grafia e a digitação dos títulos estão certas, se a paginação está correta, além de providenciar outros itens que precisem (textos para a orelha e para a quarta capa, por exemplo). No momento em que o editor garante que o livro está todo ok, bem-acabado e sem problema nenhum, ele envia todo o material para a gráfica escolhida, que o imprimirá e, depois, enviará todos os exemplares para a casa editorial. E com aquele cheirinho de livro novo. 🙂

E assim costuma se dar a ordem de produção e edição de um livro. No próximo post de “Da minha profissão”, explicitarei mais as principais funções desses profissionais. Espero que gostem!