Produção editorial: quem faz o quê — Parte I

(Imagem: Reprodução/Google)

Quem recebe o livro, quando ainda é só um original do autor, na editora? Quem faz uma primeira “triagem” nele, vendo do que vai precisar? Quem acerta seu texto? Quem escolhe a fonte que vai ser usada? E o papel? (Sim, tudo isso e cada detalhe é devidamente escolhido!) Quem cria a capa? Quem dá um último confere no arquivo antes de enviá-lo para a gráfica que imprimirá os exemplares?

Pois é, queridos amantes de livros. Nada é aleatório no processo da produção editorial. Há todo um cronograma e uma divisão de tarefas entre diversos profissionais para que a mágica aconteça e aquele original do autor, normalmente um simples arquivo de Word, se transforme em LIVRO. É uma coisa meio “mágica” mesmo para mim, pelo empenho que tanta gente dedica e pelo modo como aquele aglomerado de páginas e capítulos vai se transformando, vai surgindo aos nossos olhos; como tudo aquilo vai sendo moldado e pensado, até que, voilà, temos aquele exemplar com miolo, capa, quarta capa e lombada nas nossas mãos. E o brilho no olhar que os livros são capazes de provocar, tanto nos profissionais que trabalham com sua produção quanto nos leitores, é algo fascinante. É “mágico” mesmo.

Mas dando continuidade ao post “Quem atua no processo editorial?“, em que enumeramos a ordem habitual das etapas de uma produção, comentando quais são os profissionais que atuam em cada estágio, vamos agora destrinchar um pouco mais as principais funções de cada uma dessas pessoas. O “quem faz o quê”. Então, bora lá conhecer mais sobre a produção editorial! 😉

Autor: É quem escreve a obra, o responsável pelo conteúdo do livro que você lê. Seja uma obra de ficção ou um estudo acadêmico, todas as ideias ali contidas são do autor – que, após enviar o original para a editora, permanece tendo papel fundamental durante o decorrer da produção editorial, para sanar dúvidas do editor e do revisor, fazer possíveis e importantes observações para estes ou mesmo para o designer e o capista, e para checar se o sentido original do texto foi corretamente mantido durante as etapas editoriais. Vale comentar, ainda, que há muitas obras que são coletâneas, em que cada capítulo é como um artigo próprio, escrito por um autor diferente. Nesses casos, é comum haver a figura do organizador (ou coordenador, ou compilador), que fica responsável pelo conjunto dos autores e por buscar dar a unidade do livro, e é quem responde por este junto à editora.

Tradutor: É bem comum, principalmente nas grandes editoras, comprar os direitos de uma obra estrangeira para traduzi-la e distribuí-la em português aqui no Brasil. É de se imaginar que, para que isso seja possível, há uma pessoa que fica destinada a todo o trabalho de traduzir o original de outra língua. Este profissional não é o revisor nem editor. Uma pessoa é designada especialmente para isso, até porque a tradução envolve um campo de atuação muito próprio e específico. Não basta ter domínio da língua original. É preciso ter domínio tanto da língua em questão quanto do português e ter uma série de noções e conhecimentos sobre tradução em si (configura um campo de estudo!). Além disso, o recomendável é que o tradutor tenha um conhecimento sobre a forma de escrever do autor. Se for um livro de ficção, por exemplo, ou seja, literatura, faz toda a diferença já ter visto ou lido outros livros do mesmo autor, para ver se aquela palavra que ele usou pode ser traduzida assim ou assado, de acordo com o estilo que ele costuma adotar em suas obras. O tradutor precisa, além de deixar o livro em língua portuguesa, fazer as escolhas adequadas, buscando respeitar a ideia original do autor e o seu estilo. Para tudo isso, é normal que haja dúvidas durante seu trabalho, que devem, idealmente, ser esclarecidas com o próprio autor (ou com algum representante); se for possível, ter esse contato direto entre autor e tradutor é fundamental, para que as melhores decisões possam ser estabelecidas. Além disso, após concluída a tradução, é bacana também que o tradutor passe algumas observações para o editor/preparador/revisor, sobre algumas escolhas importantes que foram tomadas, buscando garantir que, em etapas futuras, estas não sejam desfeitas por outro profissional que vá dar continuidade ao processo e visando à coesão editorial.

Preparador: Quando o original em português já está com a editora, a primeira coisa que precisa ser feita é a sua preparação. O preparador é o profissional responsável por fazer a primeira leitura profunda do texto completo. É ele quem vai fazer as adequações necessárias no original de acordo com as normas editoriais da Casa (é normal que cada editora tenha seu próprio manual); quem vai fazer uma primeira leitura, buscando corrigir erros ortográficos, gramaticais e de digitação; quem vai atentar para a coerência e a coesão textual e marcar dúvidas em ideias que não ficaram claras, que deverão ser esclarecidas com o autor depois; e que tem a função de observar a estrutura do arquivo – ele pode julgar se o livro precisa de um prefácio ou um prólogo, por exemplo, e fazer a observação para o editor, mudar a ordem de parágrafos ou mesmo sugerir alterações na ordem de capítulos etc. O preparador é um revisor, mas um revisor que atua no primeiro momento da produção; ele trabalha no arquivo de Word, justamente porque é em uma fase inicial, em que é comum haver muitas alterações e correções a serem feitas. Digamos que a preparação é uma “revisão mais profunda”. Ele é o maior responsável por garantir que o conteúdo do texto esteja ok. Comentário relevante: há também a figura do copidesque. Em um outro post, posso discorrer mais sobre as diferenças entre copidesque, preparador e revisor, pois é algo muito discutível, visto que cada editora pensa de uma forma e faz suas próprias distinções. Basicamente, as funções de um copi são semelhantes (não necessariamente iguais) às do preparador, por isso nem sempre sua figura existe na produção de um livro.

Diagramador: Quando o arquivo de Word está “fechado”, ou seja, já passou pela preparação e ficou sem nenhuma questão pendente, é o momento de ele ser diagramado. A diagramação é um design gráfico, logo, é feita por um designer. É o designer/diagramador o responsável por pensar e escolher todo o projeto gráfico do miolo. Tudo deve ter um porquê: a(s) fonte(s) usada(s), o corpo, o espacejamento entre as linhas, o tipo de alinhamento (no meio “comercial”, o mais comum é o justificado, em que as linhas sempre começam e terminam seguindo exatamente o mesmo recuo na página, mas também pode ser feita a opção pelo alinhamento à esquerda, por exemplo, de acordo com a ideia do livro e com o objetivo do autor), o local onde aparecem os cabeços e os números das páginas, a forma do sumário, o papel que será utilizado na impressão etc. Em resumo, o diagramador é quem pensa a forma do livro. E ele tem liberdade para isso. Pode haver conversas – e é sempre bacana que haja! – com o autor, no sentido de este último dar suas opiniões e, inclusive, fazer alguns pedidos, como “Ah, pelo motivo X, eu gostaria muito que fosse usado o alinhamento à esquerda!”, mas as escolhas quanto ao formato são a cargo do diagramador mesmo. Além disso, também é função do diagramador, depois, passar para o arquivo do livro as emendas que o revisor marcar na prova diagramada. (Sobre essas nomenclaturas, ver post anterior sobre termos da produção editorial.) Ah, o diagramador costuma trabalhar, principalmente, no programa Indesign (mas a escolha fica por conta do profissional), podendo lançar mão de outros também, como o Corel, Illustrator ou Photoshop, de acordo com as especificidades de cada obra e com seu próprio gosto pessoal.

Para esta postagem não ficar quilométrica, as pinceladas gerais sobre as principais funções do revisor, do capista, do editor e do produtor gráfico ficarão para uma continuação, tá? Prometo que virá logo. É só para não ficar uma leitura muito cansativa.

Portanto, concluindo, vou mencionar aquilo que é a principal coisa de toda a produção de um livro, e que talvez vocês, lendo os posts, já tenham notado: o mais importante de tudo é o DIÁLOGO. Uma produção pautada por uma boa comunicação entre todas as pontas da cadeia, entre todos os envolvidos, deixando sempre claros e mapeados os objetivos e as escolhas de todos, é a chave para um bom livro – e para um bom processo editorial. Além disso, acho sempre válido comentar e lembrar que tudo isto é uma visão geral e com base em percepções e experiências próprias, pois não há um “formato de editoração” exato; cada editora pode atuar de um jeito e cada profissional pode acabar praticando funções distintas, tudo depende também do livro em questão.

Bons livros e até breve!

 

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6 comentários

  1. Adorei as informações, tenho muitas dúvidas sobre todas as etapas de “confecção” de um livro e acho que ele é um objeto sempre existirá.
    Qual a diferença entre copirraite e copidesque?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Rômulo! Bacana que tenha gostado. 🙂
      De fato, sou do time que realmente acredita que o livro “físico” nunca acabará! Eu, particularmente, não troco o senti-lo nas mãos, o cheirinho dele e o passar de páginas por nenhum formato digital. Acho que há espaço para ambos.
      Sobre sua pergunta, copyright e copidesque são duas coisas bem distintas. O copidesque, como comentei neste post, é um profissional que atua na produção editorial com o papel de revisor do original do livro. Já copyright é o direito autoral de uma obra, a sua propriedade literária.
      Espero ter colaborado, e obrigada por seu comentário!

      Curtido por 1 pessoa

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