“A vítima perfeita” e “Objetos cortantes”: a centralidade das personagens femininas

Olá, queridos!

Começo pedindo desculpa pela longa ausência de postagens do blog; é que estive (ainda estou, na verdade) com problemas pessoais. Mas para mostrar que as atividades por aqui não acabaram, trago agora um post novo, sobre duas de minhas últimas leituras: romances policiais com thriller psicológico, com muito suspense, mistério, investigação e segredos a serem descobertos – meu tipo de leitura “favoritaço”, eu confesso!

Os dois escolhidos foram A vítima perfeita (Rocco, 2015, 432 p.), de Sophie Hannan, e Objetos cortantes (Intrínseca, 2015, 256 p.), de Gillian Flynn. Ambos possuem histórias totalmente diferentes, mas o fio da navalha é semelhante: protagonistas que se veem em meio a um mistério policial, envolvendo sumiços/mortes, e que saem em busca de pistas para desvendar e compreender o que aconteceu. Ah, e que se descobrem partes integrantes daqueles quebra-cabeças, muito mais do que podiam imaginar. Clichê dos romances policiais/thrillers psicológicos – dois gêneros que costumam ser inter-relacionados. Algo, no entanto, se destacou para mim: nas duas obras, essas personagens principais são mulheres – e que possuem alguma fragilidade psicológica e emocional proveniente de um grande trauma do passado, mas se mostram autônomas e suficientemente fortes para enfrentarem seus desafios. Veio-me a reflexão: por que em boa parte das vezes as personagens mais exploradas nesses livros têm sido mulheres?

A vítima perfeita, Objetos cortantes e seus personagens (ops, SUAS!)

Em A vítima perfeita, Hannah traz três personagens femininas comandando a história, por diferentes ângulos e direções. Naomi Jenkins, uma jovem empreendedora independente e bem-sucedida, a grande protagonista da trama, que carrega um segredo trágico de seu passado e se entrega à paixão nos braços de um desconhecido que mantém com ela um caso extraconjugal; a sargento-detetive Charlie Zailer, policial astuta e que comanda uma equipe masculina, mas que aparentemente não se dá muito bem na vida amorosa; e Juliet Haworth, a esposa do amante de Naomi, que é descrita por ele à namorada como muito frágil e dependente. Após se relacionar por um ano com o caminhoneiro Robert Haworth, encontrando-o sempre uma vez por semana em um mesmo quarto de hotel simplório, Naomi fica muito preocupada e desconfiada quando, em uma determinada quinta-feira, ele simplesmente não aparece, não avisa e não dá mais nenhum sinal. A partir daí, a história se desenvolve. Naomi fica sem entender o sumiço do amante e resolve ir procurá-lo na residência do casal, mesmo ele sempre tendo feito-a prometer que jamais iria aparecer por lá. Sem encontrá-lo (mas vendo seu caminhão estacionado na porta), e dando de cara com uma fria e misteriosa Juliet, apela para a polícia, que não dá muito crédito ao desespero da mulher, acreditando se tratar de um mero caso amoroso em que o cara decidiu largar a amante. Desesperada, Naomi resolve, então, inventar uma história na tentativa de chamar atenção dos policiais para o caso. Mas o que era uma parcial invenção vai se revelando não tão falso como ela imaginava. Apesar de a trama girar aparentemente em torno do desaparecimento de Robert, quem dá as cartas é mesmo a trinca de mulheres durante todo o tempo.

Agora vejam que coincidência. Em Objetos cortantes, novamente me deparei com três personagens femininas desenovelando a trama. Três fortes, enigmáticas e obscuras mulheres. Gillian Flynn nos apresenta a protagonista Camille Preaker, uma mulher na casa dos 20 e muitos anos, bastante fechada e fragilizada, recém-saída de uma clínica psiquiátrica onde passou um tempo internada em virtude de praticar automutilação. Camille mora sozinha, longe da família, e não possui uma boa relação com a mãe. É jornalista de um impresso de pouco prestígio e se considera uma pessoa medíocre. Para o seu azar, o chefe lhe manda passar uns dias em sua cidade natal, a pequena e pacata Wind Gap, onde a jovem não vai há muitos anos, a fim de conseguir uma supermatéria para o jornal, investigando o estranho desaparecimento de uma criança na localidade. Apesar de ficar assombrada com a ideia, ela aceita, para provar ao seu chefe – e principalmente a si mesma – que é capaz de enfrentar esse desafio em busca do sucesso profissional. Daí em diante, Camille acaba se vendo de volta ao seu passado – e obrigada a morar novamente com a mãe, na casa onde cresceu. Na residência, vivem Adora, uma dona de casa elegante, que faz a linha mãe superprotetora com a filha caçula, Amma (meia-irmã de Camille), mas que parece desconfortável com a presença da primogênita, e ainda sente-se perturbada pela morte precoce da filha do meio, Marian, falecida antes do nascimento da mais nova; o padrasto de Camille, Alan, uma figura absolutamente insossa, vazia e inexpressiva, que vive às sombras de Adora e de Amma; e a tal meia-irmã, de 13 anos, uma adolescente dúbia, provocativa e misteriosa, que se comporta como uma criança, ou melhor, como a boneca da mamãe, em casa, e como uma mulher imponente e insinuante na rua, a típica líder das mean girls do colégio – e com quem a jornalista nunca tivera contato, a bem dizer, antes de voltar agora à sua cidade. Enquanto Camille investiga os fatos em busca de notícias sobre o desaparecimento para suas matérias, percebe que este está relacionado com outro desaparecimento seguido de homicídio de uma garotinha no ano anterior, e se vê novamente envolta em sua complexa e conturbada teia familiar, mais uma vez imersa em seu passado. As descobertas que surgem são capazes de mudar toda a sua vida.

A força das personagens femininas

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

Parece que trabalhar com personagens femininas em thrillers psicológicos e romances policiais dá certo. Mulheres que reúnem inúmeras complexidades emocionais, capazes de passar por traumas profundos e superá-los, tocar a vida, camuflar as cicatrizes e ser, inclusive, profissionais descoladas e muito bem-sucedidas, independentes, como no caso de Naomi Jenkins. Outras que, devido a toda uma infância e juventude muito conturbadas, possuem traumas muito enraizados, problemas emocionais que de tão profundos afloram na pele, mas que, com um esforço maior do que se pode imaginar, seguem vivendo – ou sobrevivendo –, e ainda se veem capazes de se deixar emaranhar pelos fios familiares novamente, como ocorre com Camille Preaker, em nome do comprometimento profissional. Se em A vítima perfeita o foco fica mais na história policial em si, com desaparecimentos, buscas, investigação, segredos, descobertas, ação e reviravoltas, Objetos cortantes prioriza as relações humanas e psicológicas. Flynn mergulha mais fundo na psique humana e explora o lado obscuro das pessoas, os efeitos emocionais que cada acontecimento pode gerar no indivíduo, e nos mostra, com detalhes muito bem trabalhados, doentes relações familiares. Uma em maior e outra em menor profundidade, essas autoras desnudam as inúmeras camadas emocionais e psicológicas de personagens fortes, independentes e muito distintas entre si, mas que compartilham de traumas que as afetaram definitivamente. Mulheres comuns, do dia a dia, com dramas semelhantes aos de muitas nós, com certeza (e infelizmente, porque o número de estupros, crime cometido contra uma das personagens, é enorme). Mas o principal: mulheres que fogem daquele antigo estereótipo feminino, das simples e meramente frágeis, resignadas a participações secundárias, as que serviam mais para ilustrar (ou serem vítimas). Aqui, o papel muda. Mostram-se mulheres no ápice de suas possibilidades. Vítimas de dramas, mas donas de suas próprias vidas. Mocinhas e vilãs (de si mesmas). Repletas de faces. Protagonistas. E não mais só de romances água com açúcar.

Mas por que será que personagens femininas têm feito tanto sucesso em tramas complexas, psicológicas, policiais, profundas e cheias de reviravoltas de um tempo para cá? Por que é cada vez mais comum encontrarmos Naomis e Camilles em thrillers na literatura? Lembro, por exemplo, que outros dois conhecidos livros do gênero escritos pela própria Gillian Flynn, Garota exemplar e Lugares escuros, também são centrados em personagens mulheres. Ok, as autoras são também mulheres, talvez suas escolhas sejam uma mera questão de identificação, de maior conhecimento humano, de sororidade. Mas me parece que a graça (e a força emotiva) tem estado em nós! (risos) Mas sem aquele clichê de que é porque “mulheres são complicadas”, e por isso combinam com personagens “confusas”, né? Talvez consigamos explorar mais – sem generalizações e sem sexismo, por favor – nossas várias e possíveis camadas psicológicas e acessar mais de uma emoção ao mesmo tempo. Sensibilidade aguçada. O que, é claro, rende personagens potenciais. Além disso, acho que o contexto social do mundo tem sua parcela nessa mudança de paradigmas literários também. Se a mulher tem conquistado, à base de muita luta, seu lugar na sociedade, em busca da igualdade de gêneros, parece que o mesmo está refletindo na literatura. E muito me agrada.

Mas, é preciso ter cuidado…

Houve, no entanto, detalhes que me causaram certo incômodo nos dois livros, justamente relacionados ao fato de as histórias serem pautadas em personagens femininas: presença de machismo. Algo que pode ter sido inserido nas duas narrativas pelas autoras justamente como uma forma de chamar atenção para tais coisas que acontecem na sociedade e que precisam ser encaradas de forma diferente, precisam acabar; ou seja, talvez, e até possivelmente, tenham sido escritos como forma de crítica mesmo, de repúdio. Mas o fato é que me nausearam.

Naomi Jenkins foi estuprada e parece tratar disso como se ser considerada uma vítima fosse um erro. Ela não se considera “vítima”, nem “sobrevivente”, e mesmo que a postura da personagem seja apenas uma forma autodefensiva para tentar se proteger de todo o sofrimento pelo qual passou, confesso que algo em seu comportamento gerou um incômodo em mim. Não sei especificar exatamente o quê. Talvez uma mistura de conformidade com muitos questionamentos do tipo “Será que eu fiz algo para merecer?”. Em contrapartida, senti falta de um discurso contrário no livro. Tentei pensar pela cabeça dela, e acho que pode ser normal esse tipo de pensamento em uma mulher que sofreu uma violência tão brutal como essa. Como ela mesma diz em um trecho, talvez quanto menos se fale naquilo, menos busque-se enfrentar, menos real aquilo pareça ter sido. Uma forma de escapismo. Mesmo assim, em muitas páginas eu tinha vontade de gritar para ela: “Miga, você é vítima, sim! Não é questão de ‘se vitimizar’, é um fato, trata-se de um crime do qual você foi a vítima. A culpa de nada disso que você sofreu é sua; a culpa nunca é da pessoa estuprada, mas tão somente do ser que cometeu o estupro! Força, não se envergonhe. Estamos com você!”. A cultura do estupro existe, e acho que deve, sempre e sempre, ser tão somente combatida, e pensamentos de negação, conformismo e culpabilização da vítima, repelidos. Inclusive na literatura.

Já na trama de Objetos cortantes, o machismo se expressou de outras maneiras, mais explícitas. A típica cidade pequena, cheia de preconceitos e com comportamentos estigmatizados. Garotas adolescentes que transam como forma de status e são tratadas como objetos sexuais, e mulheres que são tratadas como enfeites e criadas para serem mães e donas de casa. Há uma cena especialmente forte para mim nesse sentido, que mostra como o machismo está enraizado naquela sociedade, em práticas, pensamentos e hábitos que não o detectam e o consideram normal: o momento em que Camille conta para o jovem policial Richard, que é de uma cidade grande e está em Wind Gap investigando os casos dos desaparecimentos e mortes das menininhas, como foi a primeira vez de uma garota de sua turma na época do colégio. A adolescente, que na verdade era ela, ficara bêbada e então transara com “quatro ou cinco” caras do time de futebol seguidamente, sendo passada de um para outro. Ao ouvir, Richard se choca e pergunta se a jovem chegara a prestar queixa de estupro na polícia, pois era isso que havia acontecido. E Camille reage dizendo que só porque a garota transara com vários, bêbada, não quer dizer que tenha sido uma vítima ou que precisasse ser “cuidada”. E chama o policial de machista por pensar isso. Se há elementos importantes na fala da protagonista, sobre mulheres terem direito a fazer o que bem entenderem com o próprio corpo e terem liberdade para transar com quantos quiserem, há também, nitidamente, uma deturpação no discurso, uma visão distorcida sobre tudo isso.

Para não prolongar mais (e nem dar muitas informações e detalhes sobre as histórias), acho que por mais que as intenções das autoras possam ter sido alertar e dar luz a fatos que necessitam de atenção, a impressão que ficou para mim é de que faltou um pouco de tato nesse aspecto. Personagens centrais femininas, mostrando as inúmeras possibilidades psicológicas, comportamentais e sociais de mulheres, são maravilhosas. Mas é preciso ter certo cuidado com a forma de abordagem de determinados estereótipos, para combater mais o machismo, e não corroborar com ele de forma alguma.

(Foto: O Eu Literário)

(Foto: O Eu Literário)

Notas para os livros

Gostei de ambas as leituras. Como aprecio o lado psicológico de personagens, achei que essa parte foi bem explorada e desenrolada em Objetos cortantes e gostei disso. No entanto, em relação ao enredo do livro como um todo, senti falta de mais ação investigativa e policial. O final, apesar de ter uma boa proposta, parece que foi cuspido nas últimas páginas às pressas. Perdeu pontos por isso. Eu daria nota 7,5/10. Já em A vítima perfeita, Sophie Hannan conseguiu construir satisfatoriamente um conjugado de fatos que se interligam, com descobertas que vêm em um ritmo bom, sem deixar nenhuma parte enfadonha. Tem investigação, tem bastante ação, tem suspense; e não deixa de ter um lado humano das personagens, apesar de não ter sido explorado aqui em tanta profundidade. Acho que se a autora tivesse destrinchado mais a protagonista, Naomi, e Juliet, penetrando-as mais, o livro poderia ter sido ainda melhor. Achei-as meio apática – apesar de fazer sentido que elas sejam assim. Dou 8,5/10. E recomendo os dois livros! 😉

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