TOP 10: erros mais comuns que o revisor encontra

Revisar um livro não é tarefa molezinha. Não basta se guiar pelas “correções” do Word – até porque ele indica coisas equivocadas muitas vezes, fica a dica. É preciso ler o texto como um todo, para compreender o seu sentido, perceber qual é o estilo dos autores, ter uma boa noção do pé em que ele está. Depois, lê-lo minuciosamente, com atenção multiplicada, pois cada parágrafo, frase e palavra requerem cuidado. É responsabilidade do revisor corrigir erros ortográficos, como trocar “excessão” por “exceção”; erros de digitação, porque é muito comum a gente acabar torcando as letas [sic]; acertar concordâncias nominais e verbais, regências, acentos sobrando ou faltando; ficar ligado se os autores estão sendo bem-sucedidos em transmitir a ideia que pretendem, ou seja, checar a coerência e a coesão textuais de cada trecho; e editar o material de modo que ele fique totalmente alinhado ao manual adotado pela editora que publicará o livro (cada casa editorial segue seu próprio manual, com escolhas editorias sobre formato de referências, bibliografia, uso de itálico, negrito, sublinhado e aspas, maiúsculas e minúsculas etc.).

Em suma, esse é o trabalho do revisor. Mas, após algumas revisões, a gente percebe que alguns erros são mais comuns que outros, né? Montei, então, meu próprio TOP 10 dos deslizes mais frequentes em textos que reviso. Sempre bacana para nos ligarmos também. Ninguém está imune – nem nós, revisores, também meros mortais. Vamos aos erros, então!

 

Atenção às derrapadas frequentes! (Imagem: O Eu Literário)

Atenção às derrapadas frequentes! (Imagem ilustrativa: O Eu Literário)

 

TOP 10

10º – Porque x por que x porquê x por quê?

É clichê já, mas continua sendo muito comum encontrar erros no uso dos “porquês”. Para simplificar, vamos à regra. “Por que”, separado, é utilizado quando podemos substituí-lo por “por qual razão” – e não somente em perguntas, como muitos acham. Exemplo: Por que ele foi embora? (Por qual razão ele foi embora?) / Eu não sei por que ele chorou. (Eu não sei por qual razão ele chorou.) Já “porque”, junto, pode ser substituído por “pois” ou “uma vez que”; ele exprime ideia causal ou explicativa. Exemplo: Ele chorou porque caiu. / Venha cedo, porque vou sair. O “por quê”, separado e com acento, é simples: sempre que for “por que” no final de frase. Por quê? / Você sabe o por quê. E, finalmente, “porquê”, junto e com acento, apenas quando for valor de substantivo na sentença, ou seja, quando puder ser trocado por “o motivo” (dica: em boa parte das vezes, ele aparece precedido pelo artigo “o”). Exemplo: Qual é o porquê da rejeição? / Não sabemos o porquê.

9º – Tem e vem

Às vezes acontece por falta de atenção mesmo, mas não acentuar a terceira pessoa do plural dos verbos “ter” e “vir” é recorrente. Principalmente quando o autor constrói uma frase em ordem invertida, como no exemplo que aparece na imagem ilustrativa acima. Não custa lembrar: Ele tem um carro. Ele tem dois carros. Eles têm um carro. / Quando eles vêm? Ela vem amanhã. Ou seja, sempre que o sujeito estiver na terceira pessoa do plural, os verbos “ter” e vir” levam acento em sua conjugação.
Bônus: Os verbos que derivam de “ter” (“manter”, “entreter”, “conter”) e de “vir” (“advir”, “provir”, “intervir”) sempre são acentuados na terceira pessoa; no singular, o acento é agudo, e no plural, circunflexo.

8º – Regência verbal de “assistir” e “visar”

Regência verbal trata da relação sintática que liga o verbo ao seu complemento, tem a ver com a sua transitividade. Na prática: alguns verbos não pedem preposição nenhuma ao se ligar ao complemento; outros pedem “a”, “com”, “de” e por aí vai. E é importante saber quando usar cada preposição. Duas regências que causam muita confusão são as dos verbos “assistir” (com o sentido de ver) e “visar” (com o sentido de almejar). Assistir com sentido de ver é transitivo indireto e pede a preposição “a”. Exemplo: Assistir à televisão. O mesmo ocorre com visar. Exemplo: Visa a um emprego melhor. / Visa ao cargo. (E não Visa o cargo, pois a preposição flexiona com o artigo “o”.)
Bônus: Outro caso que pega muita gente em textos é quando há uma construção com a palavra “que” na frase. É importante continuar atento à regência! Por exemplo: A casa que moro é amarela. (Errado, pois o correto é A casa em que moro é amarela.)

7º – Palavras repetidas

Parece banal, mas tente escrever um texto longo sem repetir palavras. Difícil, não? Vira e mexe aparece aquela palavra que não tem sinônimos pertinentes. Quando isso acontecer, o jeito é tentar reescrever a frase, de modo a não precisar mais usar determinado termo ou inverter a ordem. Qualquer alternativa que evite repetições ou que as afaste, pelo menos. (Infelizmente, em alguns casos não tem por onde fugir. Mas, na maioria, dá!)

6º –  Hífen ou não hífen, eis a questão!

A reforma ortográfica entra em vigor em 1º de janeiro de 2016, e um dos itens mais polêmicos é o uso ou não uso do tal do hífen. Muita coisa mudou e vale a pena pesquisar as principais alterações. Não vou destrinchar aqui, porque o objetivo deste post não é ser tão minimalista. O meu destaque fica, então, para duas expressões que vejo erradas com frequência: “mão de obra” e “autoavaliação”. No primeiro caso, não tem mais hífen porque as locuções ligadas por “de” o perderam (mas sempre há exceções, cuidado). No segundo, o hífen também caiu, pois se trata de palavra ligada a um prefixo cujas vogais que “se encostam” são diferentes.

5º – Crase

Grande vilã de uma galera, né? Há muitas regrinhas, mas vou tentar simplificar com algumas das principais dicas. Crase nada mais é do que a conjunção do artigo definido “a” com a preposição “a” – ou com o “a” que inicia pronomes relativos. Para sinalizar a ocorrência desses dois “as” juntos, simboliza-se isso com o acento grave (o fenômeno crase). Dicas: se a crase simboliza a fusão da preposição com o artigo feminino, é sinal de que não se usa o acento grave antes de palavras masculinas. Também não se usa antes de verbos no infinitivo, nem antes de pronomes pessoais, nem no meio de expressões com termos repetidos. Exemplos: Vende-se a prazo. / Fui convidado a me retirar. / Deu o presente a ela. / Ficaram cara a cara.
Bônus: Referente a lugares, há um macete antigo e útil. Se você vai A [algum lugar] e volta DA, crase HÁ. Se vai A e volta DE, crase para quê? 😉 Exemplo: Vou à Bahia. / Vou a Belém.

4º – Citação sem referência

Não é um erro de gramática nem de ortografia, mas é algo que o revisor de livros de não ficção encontra muuuito. Toda fala que você insere em seu trabalho e não é sua, mas de terceiros, precisa estar referenciada. E em casos de citações diretas, aquelas em que reproduzimos exatamente o trecho de outra obra (e usamos aspas), por exemplo, não basta dizer de quem é a fala; temos de citar a fonte original e a página de onde ela foi extraída. Exemplo: Segundo Maria José Pereira Rocha (2004, p. 113) , “a proposta de um feminismo pragmatista se efetiva na tentativa de fazer uma outra leitura, uma aproximação, uma redescrição diferente de homens e mulheres”. [No caso, a referência completa dessa obra citada estaria na bibliografia.]

3º – Onde

“Onde” dá ideia de lugar, e isso gera uma situação equivocada bastante comum: escrever “onde” em vez de “em que”. Exemplos: Onde você mora? (Correto.) / Uma história onde a mocinha morre. (Errado, pois o certo aqui é Uma história em que a mocinha morre.)

2º – Esse x este

Vice-campeão, sem dúvidas. Às vezes, você se pega na dúvida sobre qual usar? Então, se ligue:

Esse/essa/isso – No discurso (no texto), usamos para nos referir a algo, alguma ideia, algum termo que já foi citado anteriormente. Exemplo: Amo ler. Esse hábito me faz bem.

Este/esta/isto – No discurso, seu uso correto é em dois casos. Primeiro, quando já citamos algumas coisas anteriormente e, depois, queremos nos referir à ultima citada. Segundo, quando estamos introduzindo algo que diremos na sequência. Exemplos: Amo uvas, maçãs, bananas e abacaxis. Estes, quando não estão muito ácidos. / É isto que quero lhe dizer: irei para casa.

Bônus: Sabe quando você quer se referir a algo mencionado antes, mais atrás? Ou ao primeiro termo da frase anterior? Opte por “aquele”/”aquela”/”aquilo”. Exemplo: João e Bruno foram à casa da avó. Aquele estava assustado.

1º – Através

Meu eleito! Olha, usar “através” parece que virou um vício de linguagem. É um tal de encaixar essa palavra em todos os contextos imagináveis… Mas preciso alertar: o uso tem sido, na maioria das vezes, indevido. A maneira correta, de acordo com a norma culta da língua, é apenas quando o sentido pretendido é o de atravessar ou por entre. Em casos em que o intuito é dar ideia do meio ou instrumento utilizado, o correto é “por meio” ou “por intermédio”. Exemplos: Ele me viu através da vidraça. / Jogou a bola através da janela. / Começou a namorar por meio de cartas. / Soube da notícia por meio da imprensa.

 

Estão aí os dez erros mais comuns que eu, como revisora, vejo em livros nos quais trabalho. Claro, elenquei os que lembrei, não houve nenhuma pesquisa científica para contabilizar de fato a incidência de cada caso. (risos) Vale lembrar que a língua portuguesa é muito extensa e possui infinitas regras e possibilidades, que variam de acordo com o uso pretendido. Aqui, me baseei na norma culta, mas muitos linguistas já aceitam usos “errados”, como o próprio “através” no lugar de “por meio”. Entretanto, em textos formais e acadêmicos, não custa seguir as normas à risca, né?

Dica final: Este é apenas um post bem resumido. Para aprofundamentos, é sempre bom procurar uma boa gramática. 🙂

 

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4 comentários

  1. Post muito bom e útil. Uma dúvida apenas no exemplo de esse X este. “Aquele estava assustado.” Não seriam “aqueles estavam assustados”?, já que se refere aos primeiros termos da frase anterior, os “mais distantes”? No caso, João e Bruno. Se se refere à avó, então seria “esta estava assustada”. E nem seria “aquele”, mas “aquela”, no feminino.

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    1. Oi, Erika! Obrigada pelo seu comentário.
      No caso do exemplo “João e Bruno foram à casa da avó. Aquele estava assustado.”, o termo “aquele” refere-se a “João”, o termo mais distante da oração. Se o intuito fosse referir-se a “Bruno”, o último elemento citado, o mais correto seria usar “este”. (E se quiséssemos nos referir à avó, poderíamos usar “esta”.)
      Abraços!

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