“Sonhos partidos”: delicado, mas lento

Olá, queridos! ❤

Enfim, muito enfim, o primeiro post de 2016. Podem estourar os fogos! haha

Estava com bastante saudade do meu espacinho, mas este ano começou bem movimentado para mim. Um motivo maravilhoso: mudança de emprego. 🙂 Mas o fato é que estas semanas têm sido agitadas; meu tempo está sendo totalmente dedicado ao novo trabalho. Aos pouquinhos pretendo voltar a postar no blog com mais frequência, como fazia no ano passado.

Vamos logo ao que interessa, então. O post de hoje é uma resenha crítica sobre uma de minhas últimas leituras: Sonhos partidos, de M. O. Walsh, publicado pela Intrínseca.

Capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quem me acompanha, sabe: meu gênero literário preferido são os thrillers psicológicos/romances policiais/suspenses. Adoro! Em um dia normal passeando pela livraria, folheando livros aleatoriamente, este chamou minha atenção. Nunca tinha ouvido falar sobre ele, mas seus textos de quarta capa e orelha despertaram meu interesse. Um crime – no caso, um estupro – que não foi solucionado e anos depois volta à tona. Sinopse que poderia ser de um policial, não? Palavras-chave: crime, suspeitos, investigação, mistério. Mote principal: quem é o culpado? Mas, com o passar das páginas, a expectativa foi dando lugar à decepção literária. Na verdade, apesar de ser escrito sobre esse pano de fundo, achei a história um grande drama, além de uma leitura lenta e pouco empolgante.

Por dentro da história

A obra gira em torno de uma adolescente de cerca de 15 anos chamada Lindy Simpson, a típica garota popular americana. Linda, atlética, simpática, cheia de amigos e de meninos encantados por ela. Até que em uma noite, quando voltava para sua casa de bicicleta (em uma cidade superpacata e onde todos os vizinhos se conhecem e se ajudam), foi agarrada e estuprada. E, desde então, nunca mais foi a mesma, adquirindo posturas e comportamentos bizarros e que muitos não compreendiam. O culpado não foi descoberto, e a polícia saiu do caso rápido demais. Quatro homens, sendo três garotos, foram considerados suspeitos na época – todos informalmente, apenas. Um destes é justamente o narrador do livro, que resolve reviver e contar essa história quando já é um adulto, o que torna tudo um tanto estranho. Até que ponto sua narrativa, seu ponto de vista é confiável?

Detalhe impressionante: nosso narrador não tem nome. E eu só me toquei disso quando concluí a leitura e fui olhar outras opiniões na internet. A trama é tão bem-escrita, nesse quesito, que nem nos incomodamos com a ausência de um nome para ele. Ponto para o autor, o estreante M. O. Wash.

Como eu comentei acima, o mote inicial é bacana e atraente. Sedutor; seduziu-me. Mas conforme as páginas foram passando, fui me cansando. A narrativa fica em um ir e vir sem fim. Uma hora ele está em 1989, aí vai para 1992, aí volta para 1990, aí volta mais para 1987, vai de novo para 1992, e por aí continua. (Estou dando anos como exemplos, apenas.) Em geral, é possível compreender e traçar mentalmente a linha cronológica. Mas houve momentos em que eu me perdi e não sabia se tal fato era antes ou depois dos outros já narrados. Achei que, nesse ponto, o autor não se saiu tão bem assim.

Sobre o conteúdo literário em si, vamos percebendo que o livro não é sobre Lindy na verdade, a jovem estuprada. O livro é sobre o garoto, nosso narrador, um dos suspeitos. À medida que acompanhamos suas lembranças, fica nítido que é tudo sobre ele. O quanto ele era próximo dela antes do crime e se viu afastado depois; o modo como ele acabou se “apaixonando” por ela e moldando-se em mil e uma personalidades diferentes na tentativa de ficar parecido com suas novas identidades criadas pós-estupro; como tentava compreendê-la, achava que a entendia melhor do que ninguém e no fundo era incapaz disso; o quanto sua própria vida mudou e foi afetada por aquele acontecimento; como ele se tornou um suspeito aos olhos da mãe; que ele fez tudo o que fez simplesmente porque se sentiu culpado por ela ter sido violentada (e ele só fala explicitamente sobre isso no final). Possivelmente bem-intencionado, mas seus relatos mostram como ele foi egoísta na juventude. Da forma que, mesmo quando a mulher é a vítima, quem fica no centro da história é o homem. E algumas falas de Lindy ilustram bem isso, um tapa na cara do narrador-sem-nome.

Boas ressalvas

Fiquei na dúvida se considerei o livro machista ou não. No fim das contas, acho que ele tentou mostrar – talvez nem de maneira consciente – o quanto a sociedade é machista. O quanto os homens, em geral, não conseguem lidar com algo tão brutal e tão delicado que é o estupro. Como não compreendem as reações das mulheres, o quanto se acham no direito de participar de tudo, o quanto tendem a querer resolver tudo e acham que serão capazes de apagar as memórias da mulher – e consideram um absurdo quando elas não acolhem suas tentativas de ajuda ou se rebelam. Observando por esse lado, o livro é positivo. Acho que o grande lance de Sonhos partidos é mostrar como o garoto não consegue lidar com a sua falta de protagonismo na história (e na vida de Lindy). Bom, essa foi minha percepção, minha opinião.

Mais uma vez, fiquei na dúvida se achei adequado um autor (homem) escrever um livro sobre o estupro de uma menina. Ao fim da história, percebi o que discorri acima: não é sobre o estupro, no fundo, mas sim sobre o garoto e o modo como ele encarou tudo aquilo, sobre o seu egoísmo. De novo, sobre esse prisma achei que foi uma linha inteligente que Walsh adotou. Realmente, ele não poderia (ou não deveria) escrever sobre um estupro a uma mulher e nem sob o enfoque desta, pelo simples fato de não ser uma; é aquela coisa que chamamos de lugar de fala. Por isso, tomei isso como a grande boa ressalva do livro. A obra traz para reflexão um tema tão relevante e tão fundamental, mas ele teve o cuidado de não usar um espaço que não seria dele. Ele mostra um machismo e um egoísmo típicos de nossa sociedade justamente sob a narrativa de um homem. E o livro é daqueles que termina e nos faz pensar. Isso é sempre bom.

Nota

Em termos puramente literários, me decepcionou bastante. Morno, lento, cansativo muitas vezes e sem reviravoltas. Mas talvez essa tenha sido realmente a intenção do autor. Uma narrativa delicada. A questão humana e social que ele traz é valorosa. Tem potencial reflexivo. E não dá para não reparar que o autor escreve bem. Na balança de tudo isso, dou nota 6,8 de 10. Ou 7, vá lá.

Obs.: Em termos editoriais, meu grande destaque vai para a capa. Achei uma sacada fantástica: extremamente delicada, sutil. O lamento vai para o tratamento de texto, pois do meio para o final do livro vi muitos errinhos de português.

 

E aí, quem mais já leu Sonhos partidos? O que acharam?

Beijinhos e boa semana!

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