“Lugares escuros” e a sombria psique humana

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Sinopse

Desde que perdeu a mãe e as duas irmãs mais velhas, mortas em um trágico massacre ocorrido dentro da própria casa quando tinha apenas 7 anos, Libby Day colecionou dias de mera sobrevivência, vazios e opacos. O principal suspeito pelos assassinatos foi o próprio irmão, Ben Day, o mais velho dos filhos, à época um jovem adolescente, preso desde então. Vinte e quatro anos depois, Libby se vê sem dinheiro nenhum e resolve vender sua presença, seu relato e algumas lembranças da infância relacionadas à família para um clube de aficionados por crimes – o Kill Club. A partir dessa iniciativa nada nobre, ela percebe-se de volta ao passado, do qual fugiu sempre, e resolve enfim enfrentar todos aqueles acontecimentos (pela primeira vez), a fim de descobrir se realmente foi seu irmão o assassino dos Day.

Opinião e comentários

Este é o segundo livro da americana Gillian Flynn, que já tinha escrito Objetos cortantes [crítica sobre este aqui: “‘A vítima perfeita’ e ‘Objetos cortantes’: a centralidade das personagens femininas”], e achei palpável a evolução narrativa. Aqui, ela reafirma seu refinado talento para a tessitura de tramas psicológicas, com grande foco na construção de personagens complexos, densos e cheios de traumas e feridas. E femininos.

Em Lugares escuros, achei os personagens especialmente frios. Libby, a protagonista, apesar de toda a história triste e comovente que carrega, não consegue causar grande empatia no leitor. Ela é solitária, muito fechada e interesseira. Os personagens, de uma maneira geral, têm essas mesmas características. Ninguém é mocinha ou mocinho, daquela forma clássica (e irreal, né, não custa lembrar). O livro retrata a humanidade e seu egocentrismo, que de fato guarda pouca empatia entre as pessoas.

A obra é dividida em três linhas narrativas: uma nos dias atuais, na voz de Libby, e duas na época dos crimes, sob a perspectiva de Patty, a mãe, e Ben, o irmão. Essa foi uma escolha que funcionou bastante; os três fios correm muito bem, com ótimas amarras. As narrativas de Patty e Ben, principalmente, complementam-se perfeitamente no decorrer das páginas (não de cara, mas gradativamente ao longo dos capítulos). A única ressalva, aliás, a meu ver, fica por conta disso: o início do livro é meio lento, a história demora a engrenar. Podia ter mais emoção.

Passada em um vilarejo do interior dos Estados Unidos, a trama reproduz preconceitos – principalmente nas partes narradas na década de 1980 – e machismo. A família pobre que é humilhada, os jovens punks acusados de serem satanistas, a mãe divorciada discriminada e difamada, sendo considerada, inclusive, prostituta. Bons motes para discussões e reflexões. Mais um ponto.

O suspense psicológico criado por Flynn em Lugares escuros muito me agradou também. Há diversos elementos e personagens envolvidos no enredo, e o clima de tensão se mantém até o fim. A autora desenvolveu a história melhor desta vez, principalmente o fim, que foi trabalhado com calma – diferentemente de Objetos cortantes, que deixa o leitor com a sensação de que as últimas páginas foram cuspidas. Aliás, mais pontos para Flynn, porque o desfecho é uma baita virada, inovador e surpreendente. Ao longo do livro, ela dá pistas sobre o que viria pela frente, algo que acho importante para dar credibilidade. Por isso, mesmo sendo um pouco imprevisível (mas eu tinha essa suspeita, há!), é um fim bem construído e muito satisfatório, na minha opinião.

Além do início lento, como disse, a única coisa que achei não ter funcionado tão bem foi o Kill Club, cuja participação podia ter sido mais bem explorada, e não foi. Pelo contrário: rendeu uma partezinha meio monótona (e é ainda no início do livro, o que reforça o primeiro comentário). Mas isso não chega a prejudicar a leitura nem o interesse pela trama, que merece ser lida.

Nota

9/10. Gostei muito. 😉

Obs.: Há um filme baseado no livro, protagonizado pela Charlize Theron. É até legalzinho, mas, para quem leu, fraco.

Obs. 2: Como comentei mais acima, essa é realmente uma autora que tem se destacado na literatura feminina, com grandes personagens mulheres, que quebram os estereótipos de simplesmente frágeis, ou simplesmente mocinhas, ou simplesmente qualquer coisa delicada. Ou mesmo daquelas personagenzonas femininas fodonas que fazem e acontecem. Flynn mais uma vez dá luz a uma protagonista complexa e profunda, mocinha e vilã de si mesma, com força e destaque, mas também cheia de defeitos. Afinal, por que diminuir a mulher em uma só coisa se ela pode ser tão mais, não é mesmo? Pode ser real e interessante. Por isso, mais Flynns no mercado de livros!

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4 comentários

  1. Olá!
    Terminei ontem a leitura desse livro e já fui assistir o filme na Netflix pra ver se Libby era daquele jeito mesmo ( o sofrimento dela não convence) Ben é muito idiota. O clube achei até interessante apesar daquelas aquelas mulheres todas que não tem algo útil que fazer me lembrou o maniaco do parque sendo bancando por ricaças. E o que a mãe “fez” tbm achei interessante. Embora toda a história poderia ter tido pelo menos um personagens que me causasse simpatia. rs
    Ainda estou digerindo a história para poder fazer minha resenha.
    A sua está excelente descreveu bem o que senti. Bjs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Marcia! Obrigada pelo comentário. É uma história que não foi escrita pra causar simpatia mesmo, mas incômodo. Personagens propositalmente frios e sombrios. Mas a vida real muitas vezes é assim, né? Eu compreendo o seu sentimento e compactuo com ele. Como leitor, sentimos falta de um personagem que nos gere mais empatia. Mas amei o livro justamente por isso, por fugir do comum e dos caminhos tradicionais. E por mostrar o outro lado da mente humana, nada nobre. Realmente, são “dark places”.
      Beijinhos!

      Curtido por 1 pessoa

      1. Sim também gostei muito e parece que já é uma característica da autora usar o lado mais escuro da mente humana, em Objetos cortantes foi assim embora a personagem de OC nos causasse mais empatia era tbm seca, sombria. rs

        Curtido por 1 pessoa

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