“Eu” leitora

“Lugares escuros” e a sombria psique humana

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Sinopse

Desde que perdeu a mãe e as duas irmãs mais velhas, mortas em um trágico massacre ocorrido dentro da própria casa quando tinha apenas 7 anos, Libby Day colecionou dias de mera sobrevivência, vazios e opacos. O principal suspeito pelos assassinatos foi o próprio irmão, Ben Day, o mais velho dos filhos, à época um jovem adolescente, preso desde então. Vinte e quatro anos depois, Libby se vê sem dinheiro nenhum e resolve vender sua presença, seu relato e algumas lembranças da infância relacionadas à família para um clube de aficionados por crimes – o Kill Club. A partir dessa iniciativa nada nobre, ela percebe-se de volta ao passado, do qual fugiu sempre, e resolve enfim enfrentar todos aqueles acontecimentos (pela primeira vez), a fim de descobrir se realmente foi seu irmão o assassino dos Day.

Opinião e comentários

Este é o segundo livro da americana Gillian Flynn, que já tinha escrito Objetos cortantes [crítica sobre este aqui: “‘A vítima perfeita’ e ‘Objetos cortantes’: a centralidade das personagens femininas”], e achei palpável a evolução narrativa. Aqui, ela reafirma seu refinado talento para a tessitura de tramas psicológicas, com grande foco na construção de personagens complexos, densos e cheios de traumas e feridas. E femininos.

Em Lugares escuros, achei os personagens especialmente frios. Libby, a protagonista, apesar de toda a história triste e comovente que carrega, não consegue causar grande empatia no leitor. Ela é solitária, muito fechada e interesseira. Os personagens, de uma maneira geral, têm essas mesmas características. Ninguém é mocinha ou mocinho, daquela forma clássica (e irreal, né, não custa lembrar). O livro retrata a humanidade e seu egocentrismo, que de fato guarda pouca empatia entre as pessoas.

A obra é dividida em três linhas narrativas: uma nos dias atuais, na voz de Libby, e duas na época dos crimes, sob a perspectiva de Patty, a mãe, e Ben, o irmão. Essa foi uma escolha que funcionou bastante; os três fios correm muito bem, com ótimas amarras. As narrativas de Patty e Ben, principalmente, complementam-se perfeitamente no decorrer das páginas (não de cara, mas gradativamente ao longo dos capítulos). A única ressalva, aliás, a meu ver, fica por conta disso: o início do livro é meio lento, a história demora a engrenar. Podia ter mais emoção.

Passada em um vilarejo do interior dos Estados Unidos, a trama reproduz preconceitos – principalmente nas partes narradas na década de 1980 – e machismo. A família pobre que é humilhada, os jovens punks acusados de serem satanistas, a mãe divorciada discriminada e difamada, sendo considerada, inclusive, prostituta. Bons motes para discussões e reflexões. Mais um ponto.

O suspense psicológico criado por Flynn em Lugares escuros muito me agradou também. Há diversos elementos e personagens envolvidos no enredo, e o clima de tensão se mantém até o fim. A autora desenvolveu a história melhor desta vez, principalmente o fim, que foi trabalhado com calma – diferentemente de Objetos cortantes, que deixa o leitor com a sensação de que as últimas páginas foram cuspidas. Aliás, mais pontos para Flynn, porque o desfecho é uma baita virada, inovador e surpreendente. Ao longo do livro, ela dá pistas sobre o que viria pela frente, algo que acho importante para dar credibilidade. Por isso, mesmo sendo um pouco imprevisível (mas eu tinha essa suspeita, há!), é um fim bem construído e muito satisfatório, na minha opinião.

Além do início lento, como disse, a única coisa que achei não ter funcionado tão bem foi o Kill Club, cuja participação podia ter sido mais bem explorada, e não foi. Pelo contrário: rendeu uma partezinha meio monótona (e é ainda no início do livro, o que reforça o primeiro comentário). Mas isso não chega a prejudicar a leitura nem o interesse pela trama, que merece ser lida.

Nota

9/10. Gostei muito. 😉

Obs.: Há um filme baseado no livro, protagonizado pela Charlize Theron. É até legalzinho, mas, para quem leu, fraco.

Obs. 2: Como comentei mais acima, essa é realmente uma autora que tem se destacado na literatura feminina, com grandes personagens mulheres, que quebram os estereótipos de simplesmente frágeis, ou simplesmente mocinhas, ou simplesmente qualquer coisa delicada. Ou mesmo daquelas personagenzonas femininas fodonas que fazem e acontecem. Flynn mais uma vez dá luz a uma protagonista complexa e profunda, mocinha e vilã de si mesma, com força e destaque, mas também cheia de defeitos. Afinal, por que diminuir a mulher em uma só coisa se ela pode ser tão mais, não é mesmo? Pode ser real e interessante. Por isso, mais Flynns no mercado de livros!

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Primeira do ano: “Não conte a ninguém”

Feliz Ano-Novo!

O sumiço foi grande, as atribulações pessoais e profissionais, muitas, tem um monte de postagens atrasadas – que ainda pretendo fazer! -, mas, como estou em uns diazinhos de férias na praia, nada como uma leitura para começar o ano bem, né? E já foi concluída a primeira de 2017. Então, por que não furar a fila e mandar logo uma breve resenha de Não conte a ninguém, do badalado Harlan Coben? Vamos a ela!

Quem acompanha o blog já deve saber que sou apaixonada por thrillers. Os meus preferidos são os psicológicos. Eu não conhecia muito o estilo de Coben, só via seu nome com frequência por aí e lia ótimas críticas sobre seus livros de mistério e suspense – ou seja, era hora de me encontrar com ele. A sinopse desse livro me chamou atenção e despertou meu interesse. Depois, descobri que se trata de sua obra mais consagrada. Li em duas sentadas (é razoavelmente curto, tem 250 páginas) e gostei muito.

Sinopse

Há oito anos, enquanto comemoravam o aniversário de seu primeiro beijo, o Dr. David Beck e sua esposa, Elizabeth, sofreram um terrível ataque. Ele foi golpeado e caiu no lago, inconsciente. Ela foi raptada e brutalmente assassinada por um serial killer. O caso volta à tona quando a polícia encontra dois corpos enterrados perto do local do crime, junto com o taco de beisebol usado para nocautear David. Ao mesmo tempo, o médico recebe um misterioso e-mail, que, aparentemente, só pode ter sido enviado por sua esposa. Esses novos fatos fazem ressurgir inúmeras perguntas sem respostas: como David conseguiu sair do lago? Elizabeth está viva? E, se estiver, de quem era o corpo enterrado oito anos antes? Por que ela demorou tanto para entrar em contato com o marido? Na mira do FBI como principal suspeito da morte da esposa e caçado por um perigosíssimo assassino de aluguel, David Beck contará apenas com o apoio de sua melhor amiga, a modelo Shauna, da célebre advogada Hester Crimstein e de um traficante de drogas para descobrir toda a verdade e provar a sua inocência.

Opinião

Eita, livro rápido! Eu ainda não conheço o estilo do autor, visto que foi minha primeira leitura dele, mas, ao menos por Não conte a ninguém, posso dizer que ele é muito perspicaz, criativo e eficiente. A trama vai se desenrolando em uma simplicidade que impressiona. Ao contrário da enorme maioria de histórias por aí, não tem – realmente não tem – encheção de linguiça. A todo momento, algo novo acontece, um fato inédito surge.

A narrativa é contada na primeira e na terceira pessoas. Os pontos de vista são intercalados de maneira irregular: às vezes, acompanhamos tudo pela ótica de Beck, o protagonista (e é nestes momentos que ocorre a primeira pessoa); outras vezes, pela do narrador-observador, que cada hora relata os passos e pensamentos de cada um dos demais personagens – mas cada um em seu intervalo distinto, é bem delineada a marcação de perspectivas. Isso é uma ferramenta de escrita muito comum na literatura policial, e Coben faz uso dela muito bem. Contribui bastante para o ritmo acelerado e instigante da trama. Até porque, como falei, não tem nenhum espaço para a monotonia, já que ele construiu um livro tão irrigado de mistérios e surpresas.

Outro fator relevante é que desde o início sabemos quem é o matador de aluguel citado na sinopse, quem é o contratante e também acompanhamos os seus passos. A grande questão é o que motivou tudo o que fizeram. O que aconteceu paralelo a tudo aquilo. E é aí que a criatividade de Coben fez ótimos voos.

Bom, como sou uma grande apreciadora dos thrillers psicológicos, confesso que senti um pouquinho de falta das construções psicológicas, das reflexões sociais e psíquicas mais aprofundadas que aquelas obras proporcionam. Tipo Gillian Flynn. Mas, tudo bem, percebi logo que aqui o traço é diferente, é mais objetivo e mais focado nas reviravoltas e nas ações – que não são poucas. É muita ação mesmo! Tampouco, também, é um livro que foca nos policiais, como a Rainha do Crime; eles são meros coadjuvantes. As investigações acontecem, mas são mais sutis. Pouca elucubração e muita ação.

Como não há tanta preocupação com a construção dos personagens, é mais difícil rolar aquelas identificações pessoais. Além disso, nosso protagonista é muito reservado, um tanto apático – pudera, sofreu um grande trauma ao perder a esposa, vítima de um atentato/sequestro, e ainda se culpa por isso -, o que dificulta isso ainda mais. Para alguns, talvez esse seja um ponto negativo do livro. Para mim, não chegou a ser. Encarei como o estilo do autor mesmo, como comentei, e foquei na plot. Ainda consegui me afeiçoar a ele por um ponto sutil, mas muito importante: apesar de ter sido escrito em 2001, o que acredito que ajude a afastá-lo das discussões sociais mais atuais, o personagem já traz uns pensamentos bacaninhas sobre Alerta Machismo, o que é sempre legal!

Nota

Leitura soft, rápida, gostosa e que não deixa a gente largar o livro. Para quem gosta de mistérios, desaparecimentos, assassinatos e reviravoltas, superindico! Dou nota 9,5/10,0. Um ponto negativo? Não chega a ser negativo, mas no último terço do livro rola tanta reviravolta que o leitor quase se perde. É bacana, você fica até a última página do livro na apreensão e na expectativa. Mas, ao fim, fiquei com uma sensaçãozinha de que se o autor tivesse se preocupado um tiquinho menos com a criação de tantas coisas, a trama talvez pudesse ter ficado um pouco mais consistente. Sem surgir aquela pergunta “Mas se ele sabia disso desde sempre, como não desconfiou de nada nunca e aceitou tudo ‘numa boa’?”. Mas está ok, tá, Coben? Adorei você e vou ler mais.

Beijos, amores :*

“Sonhos partidos”: delicado, mas lento

Olá, queridos! ❤

Enfim, muito enfim, o primeiro post de 2016. Podem estourar os fogos! haha

Estava com bastante saudade do meu espacinho, mas este ano começou bem movimentado para mim. Um motivo maravilhoso: mudança de emprego. 🙂 Mas o fato é que estas semanas têm sido agitadas; meu tempo está sendo totalmente dedicado ao novo trabalho. Aos pouquinhos pretendo voltar a postar no blog com mais frequência, como fazia no ano passado.

Vamos logo ao que interessa, então. O post de hoje é uma resenha crítica sobre uma de minhas últimas leituras: Sonhos partidos, de M. O. Walsh, publicado pela Intrínseca.

Capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quem me acompanha, sabe: meu gênero literário preferido são os thrillers psicológicos/romances policiais/suspenses. Adoro! Em um dia normal passeando pela livraria, folheando livros aleatoriamente, este chamou minha atenção. Nunca tinha ouvido falar sobre ele, mas seus textos de quarta capa e orelha despertaram meu interesse. Um crime – no caso, um estupro – que não foi solucionado e anos depois volta à tona. Sinopse que poderia ser de um policial, não? Palavras-chave: crime, suspeitos, investigação, mistério. Mote principal: quem é o culpado? Mas, com o passar das páginas, a expectativa foi dando lugar à decepção literária. Na verdade, apesar de ser escrito sobre esse pano de fundo, achei a história um grande drama, além de uma leitura lenta e pouco empolgante.

Por dentro da história

A obra gira em torno de uma adolescente de cerca de 15 anos chamada Lindy Simpson, a típica garota popular americana. Linda, atlética, simpática, cheia de amigos e de meninos encantados por ela. Até que em uma noite, quando voltava para sua casa de bicicleta (em uma cidade superpacata e onde todos os vizinhos se conhecem e se ajudam), foi agarrada e estuprada. E, desde então, nunca mais foi a mesma, adquirindo posturas e comportamentos bizarros e que muitos não compreendiam. O culpado não foi descoberto, e a polícia saiu do caso rápido demais. Quatro homens, sendo três garotos, foram considerados suspeitos na época – todos informalmente, apenas. Um destes é justamente o narrador do livro, que resolve reviver e contar essa história quando já é um adulto, o que torna tudo um tanto estranho. Até que ponto sua narrativa, seu ponto de vista é confiável?

Detalhe impressionante: nosso narrador não tem nome. E eu só me toquei disso quando concluí a leitura e fui olhar outras opiniões na internet. A trama é tão bem-escrita, nesse quesito, que nem nos incomodamos com a ausência de um nome para ele. Ponto para o autor, o estreante M. O. Wash.

Como eu comentei acima, o mote inicial é bacana e atraente. Sedutor; seduziu-me. Mas conforme as páginas foram passando, fui me cansando. A narrativa fica em um ir e vir sem fim. Uma hora ele está em 1989, aí vai para 1992, aí volta para 1990, aí volta mais para 1987, vai de novo para 1992, e por aí continua. (Estou dando anos como exemplos, apenas.) Em geral, é possível compreender e traçar mentalmente a linha cronológica. Mas houve momentos em que eu me perdi e não sabia se tal fato era antes ou depois dos outros já narrados. Achei que, nesse ponto, o autor não se saiu tão bem assim.

Sobre o conteúdo literário em si, vamos percebendo que o livro não é sobre Lindy na verdade, a jovem estuprada. O livro é sobre o garoto, nosso narrador, um dos suspeitos. À medida que acompanhamos suas lembranças, fica nítido que é tudo sobre ele. O quanto ele era próximo dela antes do crime e se viu afastado depois; o modo como ele acabou se “apaixonando” por ela e moldando-se em mil e uma personalidades diferentes na tentativa de ficar parecido com suas novas identidades criadas pós-estupro; como tentava compreendê-la, achava que a entendia melhor do que ninguém e no fundo era incapaz disso; o quanto sua própria vida mudou e foi afetada por aquele acontecimento; como ele se tornou um suspeito aos olhos da mãe; que ele fez tudo o que fez simplesmente porque se sentiu culpado por ela ter sido violentada (e ele só fala explicitamente sobre isso no final). Possivelmente bem-intencionado, mas seus relatos mostram como ele foi egoísta na juventude. Da forma que, mesmo quando a mulher é a vítima, quem fica no centro da história é o homem. E algumas falas de Lindy ilustram bem isso, um tapa na cara do narrador-sem-nome.

Boas ressalvas

Fiquei na dúvida se considerei o livro machista ou não. No fim das contas, acho que ele tentou mostrar – talvez nem de maneira consciente – o quanto a sociedade é machista. O quanto os homens, em geral, não conseguem lidar com algo tão brutal e tão delicado que é o estupro. Como não compreendem as reações das mulheres, o quanto se acham no direito de participar de tudo, o quanto tendem a querer resolver tudo e acham que serão capazes de apagar as memórias da mulher – e consideram um absurdo quando elas não acolhem suas tentativas de ajuda ou se rebelam. Observando por esse lado, o livro é positivo. Acho que o grande lance de Sonhos partidos é mostrar como o garoto não consegue lidar com a sua falta de protagonismo na história (e na vida de Lindy). Bom, essa foi minha percepção, minha opinião.

Mais uma vez, fiquei na dúvida se achei adequado um autor (homem) escrever um livro sobre o estupro de uma menina. Ao fim da história, percebi o que discorri acima: não é sobre o estupro, no fundo, mas sim sobre o garoto e o modo como ele encarou tudo aquilo, sobre o seu egoísmo. De novo, sobre esse prisma achei que foi uma linha inteligente que Walsh adotou. Realmente, ele não poderia (ou não deveria) escrever sobre um estupro a uma mulher e nem sob o enfoque desta, pelo simples fato de não ser uma; é aquela coisa que chamamos de lugar de fala. Por isso, tomei isso como a grande boa ressalva do livro. A obra traz para reflexão um tema tão relevante e tão fundamental, mas ele teve o cuidado de não usar um espaço que não seria dele. Ele mostra um machismo e um egoísmo típicos de nossa sociedade justamente sob a narrativa de um homem. E o livro é daqueles que termina e nos faz pensar. Isso é sempre bom.

Nota

Em termos puramente literários, me decepcionou bastante. Morno, lento, cansativo muitas vezes e sem reviravoltas. Mas talvez essa tenha sido realmente a intenção do autor. Uma narrativa delicada. A questão humana e social que ele traz é valorosa. Tem potencial reflexivo. E não dá para não reparar que o autor escreve bem. Na balança de tudo isso, dou nota 6,8 de 10. Ou 7, vá lá.

Obs.: Em termos editoriais, meu grande destaque vai para a capa. Achei uma sacada fantástica: extremamente delicada, sutil. O lamento vai para o tratamento de texto, pois do meio para o final do livro vi muitos errinhos de português.

 

E aí, quem mais já leu Sonhos partidos? O que acharam?

Beijinhos e boa semana!

Redescobrindo o Brasil, ou sua literatura, pelo beijo de colombina

Acho que o que falta é conhecer. Ontem entrei em uma livraria aqui no Rio, me aproximei da sessão de literatura brasileira e chamei a vendedora que estava me atendendo.

– Queria lhe pedir uma dica. Li recentemente Um beijo de colombina, da Adriana Lisboa, e gostei muito. Queria outros livros de autoras de literatura contemporêna brasileira. Você me indica algum?

A menina, de uns 25 anos talvez, ficou me olhando com uma expressão meio confusa, meio sem saber o que me dizer. Sem esperar, perguntei:

– Você conhece Adriana Lisboa?

– Não…

Repeti que era uma autora de literatura contemporânea brasileira, atual, jovem, e a vendedora emendou:

– Peraí, vou chamar outra menina para ajudar você. Fulana, vem cá!

Vem a segunda vendedora da livraria, a que me diz ser responsável pela sessão dos nacionais. Repeti a minha primeira fala, de que queria uma dica de outra autora brasileira contemporânea para ler, na vibe da Adriana Lisboa.

– Olha, eu não conheço literatura nacional, não. Leio fantasia. Mas, olha, uma autora brasileira que o pessoal procura e gosta muito é Martha Medeiros.

Minha vez de fazer uma cara de meio confusa, meio sem saber o que lhe dizer.

– É, conheço Martha Medeiros, é bacana mesmo, mas não é bem essa vibe que eu procuro…

Vendo que ela estava ficando um pouco desconfortável com a situação, deixei para lá e disse gentilmente que ia continuar dando uma olhada geral mesmo.

Sabe por que muitos brasileiros não leem literatura nacional? Porque não a conhecem. É muita publicidade para literatura estrangeira, autores estrangeiros, e pouca informação e divulgação para os nossos. E digo isso com propriedade mesmo, já que eu mesma, apesar de trabalhar com livros (só que acadêmicos e em uma editora pequena, ou seja, um pouco fora desse fluxo intenso do mercado editorial), não tenho na ponta da língua nomes brasucas atuais. (Esta, aliás, é uma falha que estou buscando reparar.) Estamos acostumados a ouvir falar em Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Machado de Assis, mas desconhecemos que há novas safras também ótimas e que precisamos conhecer.

Adriana Lisboa foi um nome que ouvi, há poucos meses, de forma um pouco aleatória, mas sendo apontada como um dos bons nomes da literatura contemporânea nacional. Quando estive na Bienal do Livro, este ano, então, não deixei passar a chance de adquirir algum de seus livros, e quando bati os olhos em Um beijo de colombina me vi atraída. Livro de tamanho pequeno (184 páginas), título bacana e uma capa que, embora bem simples, me conquistou (Alfaguara, 2015, 2ª edição). Após anos e anos tendo como principal referência da literatura brasileira Dom Casmurro, lido ainda no Ensino Médio, fui novamente ao seu encontro. (Não, não quero dizer com isso que nunca mais tinha lido livros nacionais!)

A leitura de Um beijo de colombinadf8e7fbe-484b-443e-8892-9726f7d72102

Em um sábado à tarde em Araruama, férias de fim de ano, cadeira confortável à sombra na varanda e brisa batendo, me pus a começar sua leitura. Livro breve e que, página a página, foi se mostrando uma narrativa simples e despretensiosa. Não há grandes movimentos no livro, nem diálogos longos ou eloquentes – na verdade, há pouquíssimos diálogos. É realmente um roteiro simples. Mas é daqueles cuja riqueza reside justamente em sua aparente simplicidade, sabe? Daquelas coisas que nos dizem sem dizer, que nos mostram sem mostrar. O simples mais bonito. E, assim, mostrou-se uma leitura surpreendente, pois, mesmo com aquele andar tão despretensioso, com aquela trama tão “parada”, baseada por completo apenas em narrações de um único personagem masculino – que simplesmente vai nos contando memórias particulares de sua vida nos últimos meses, vividos com a namorada agora dada como morta, após ter se afogado no mar de Mangaratiba –, me vi totalmente compenetrada em sua leitura. Narrativa introspectiva, daquelas que te puxa para dentro e te leva também para dentro de si mesmo. Concluí o livro em duas tomadas, com um intervalo apenas para lanchar e bater um papo com a família toda reunida na casa.

A narrativa tem um ar melancólico. João, um professor de latim na casa dos 30 anos, vê-se sozinho após Teresa, sua namorada com quem se relacionava e morava há oito meses, morrer ao se afogar na praia. Teresa era uma jovem escritora, recentemente premiada, e que estava reunindo material de pesquisa para seu próximo romance, que seria baseado nas obras e poesias de Manuel Bandeira. Perdido entre a tristeza e o deslocamento do mundo no qual se percebe, João começa a mergulhar em Teresa: em seus livros, em sua casa, em suas memórias com ela e, especialmente, em seu velho exemplar de Estrela da vida inteira, de Bandeira, onde a namorada fizera várias anotações e marcações. Conforme mergulha nas lembranças de Teresa, avalia as possíveis razões que a tenham levado à morte, enquanto a imprensa bate na tese de suicídio, após encontrarem versos sugestivos que ela havia deixado presos por um ímã na geladeira. De licença no trabalho, João resolve, mesmo afirmando não ser escritor, dar continuidade ao projeto da amada.

Uma das primeiras características a chamar minha atenção no livro foi a sua escrita, sua pontuação, principalmente em diálogos. Nada de conversas bem marcadas, com travessões, dois-pontos ou aspas. Não, falas e pensamentos correndo soltos, assim como o poema de Manuel Bandeira de mesmo nome que a personagem feminina de Adriana Lisboa. Impressão de que o cuidado é com o conteúdo, com o que se diz ou se sente, e não com sua forma. No primeiro momento, eu, revisora de textos e apegada à norma culta e suas vírgulas, pontos e sinais, estranhei. Mas logo na sequência vi que era o estilo que Lisboa escolhera, que combinava perfeitamente com a história, com a proposta. Afinal, seu livro é poesia e prosa, tudo junto. É contemporâneo, mas, para mim, claramente retrato de nossa literatura mais clássica. E, como reproduzo um trechinho abaixo, o sentido não fica em nada comprometido. As falas são separadas por parágrafos.

Gozado, comentei, quando Teresa me contou.
Não é?, ela concordou.
[…]
Bobagem, disse Tereza, já acabou.
E voltou para o computador.

(Lisboa, 2015, p.19 e 20)

Apreciadora de Machado e seu Dom Casmurro, involuntariamente vi algum reflexo seu em Lisboa e seu Beijo. Acho que foi a personagem Teresa que, de alguma forma não muito linear, me remeteu a Capitu. Mulheres, fortes, atraentes e um tanto enigmáticas. Por sua vez, seus respectivos, homens que parecem mais frágeis e se veem perdidos de alguma forma. Além disso, o final também me trouxe um quê machadiano. Não escreverei por que, pois não quero fazer revelações do enredo de Lisboa.

Por fim, reitero a leveza e sutileza da trama de Um beijo de colombina, levada muito satisfatoriamente por uma escrita afinada da autora, que mostra um potencial realmente muito bom, tanto quanto nossos autores clássicos, como comentei acima. E, quando achava que o livro era aquilo, ainda me surpreendi com seu final. Uma reviravolta que eu não esperava encontrar ali. Quando terminei, parei e refleti por dois minutos e fui reler os dois últimos capítulos em busca de quaisquer detalhes que pudessem ter passado despercebidos. Livro para ler, saborear e refletir sobre. Além de tudo, Adriana Lisboa foi muito bem-sucedida em criar uma metanarrativa (um “livro dentro de livro”?).  Para quem não o leu ou para quem não conhece Lisboa ainda, eu mais do que recomendo. Sugiro!

Nota

Dez. Gostei mesmo! E continuo aceitando dicas para outras autoras de literatura contemporânea brasileira.

 

Beijinhos e bom novo ano para todos! Por um ano com mais livros nacionais para nós!

Minha primeira vez com Agatha Christie – “Os crimes ABC”

Sabe aquela autora clássica, superconhecida e que é considerada uma das principais escritoras do seu subgênero literário preferido? Pois é, chega a ser meio absurdo quando você alcança certa idade sem nunca ter lido, de fato, nenhuma de suas obras. Assim acontecia comigo e a tão comentada – e elogiada – Agatha Christie, chamada por muitos de “Rainha do Crime”.

Agatha nasceu em 1890, na Inglaterra, e escreveu mais de oitenta títulos, tendo vendido mais de 4 bilhões de exemplares em todo o mundo, atrás apenas de Shakespeare e da Bíblia. Leia-se: a mulher é foda. Minha curiosidade em relação a ela já era grande há muitos anos, mas em 2015 tornou-se especial. Decidi que era hora do nosso encontro. E minha primeira incursão em sua literatura foi com Os crimes ABC, um dos livros que contam com a figura central do detetive belga Hercule Poirot. Antes de adentrar em seu universo e deixar minhas impressões e opinião, vou dar um breve resumo (sem spoilers) sobre a obra, então.

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A história

O renomado e cheio de prestígio detetive Hercule Poirot já está aposentado, mas não consegue se manter longe dos crimes por muito tempo. Vez ou outra, aparece um novo caso que merece sua atenção e o requisita novamente à ativa. Desta vez, o crime vai pessoal e diretamente à sua residência. Explica-se: em um dia comum, ele recebe um bilhete, assinado por alguém sob alcunha de “ABC”, que o avisa que ocorrerá um homicídio na localidade de Andover no dia 21 de junho. O aviso vem sob a forma de um desafio para Poirot, que deverá impedir que tal assassinato aconteça. Surpreso com tal fato, inédito em sua carreira, ele avisa a Scotland Yard sobre a carta recebida, mas todos acreditam se tratar de alguma pegadinha de mau gosto. Poirot, no entanto, fica com a pulga atrás da orelha.

Na data determinada, uma senhora idosa, de nome Alice Ascher, é assassinada dentro de sua pequena loja em Andover. Sem pistas sobre o crime, a polícia se vê no escuro, e o único detalhe que chama atenção é que, próximo à vítima, foi encontrado um guia de trens conhecido como ABC. Poirot tem certeza de que se trata do homicídio sobre o qual o estranho remetente o avisara dias antes, mas nada consegue descobrir a respeito da origem da mensagem. Semanas depois, uma nova carta chega à sua casa, com o aviso de um novo assassinato que acontecerá, em alguns dias, desta vez em Bexhill. A partir daí, começa uma grande caçada em busca do louco assassino em série, que possui como únicas características identificadas o fato de sempre deixar um exemplar do ABC junto a suas vítimas (que não possuem nenhuma relação entre si) e de sempre antecipar o próximo crime em um bilhete enviado ao detetive. Os assassinatos parecem seguir uma estranha sequência alfabética, em que as vítimas possuem as mesmas iniciais da cidade onde moram. E caberá a Poirot, acompanhado de seu fiel amigo capitão Hastings e dos inspetores da Scotland Yard, descobrir a identidade do assassino e por que ele está matando aquelas determinadas pessoas. E por qual razão o escolhera para ser o destinatário de suas cartas! Será ele apenas um maníaco homicida?

Opinião

Minha expectativa era grande para este primeiro encontro com a Rainha do Crime. E posso dizer que não me decepcionei. Sua literatura é simples e eficiente! Por “simples”, refiro-me ao seu modo de escrever. O mistério por trás da trama é fantástico. Os crimes ABC é um livro de 256 páginas e dividido em 35 capítulos. Ou seja, é uma composição de capítulos todos muito curtos, o que faz com que a leitura seja rápida. A linguagem utilizada, apesar de ter ares mais formais – lembrem-se de que a obra foi escrita em 1936! –, é bem tranquila, sem rebuscamentos, o que também facilita a apreciação.

A trama criada por Agatha Christie é boa e forte. Diferentemente dos romances policiais/thrillers que estou acostumada a ler, aqui o foco principal não está sobre as vítimas e seus círculos sociais, mas sim na figura do detetive da história. Hercule Poirot, um homem já experiente, é descrito como metódico, observador, discreto, confiante e muito inteligente. É sob sua perspectiva e suas investigações que a história é contada e vai se desenrolando – apesar de ser narrada, na verdade, por seu amigo Hastings.

A leitura é fluida e corre bem, não é enfadonha. Pelo contrário, te aguça e faz querer ler tudo no mesmo dia – até por tratar-se de um livro razoavelmente pequeno. Agatha constrói uma trama satisfatória, com uma boa quantidade de elementos narrativos, personagens misteriosos e uma agradável reviravolta (no meio do livro, por conta de uma única fala, eu desconfiei de quem era o assassino e acertei, mas o final foi bem construído e não deixou de ser surpreendente). Confesso que senti um pouco de falta, no entanto, de mais ação propriamente dita e emoção no decorrer da história. As últimas dez páginas, mais ou menos, trazem toda a genialidade de Poirot, que, mesmo com pouquíssimos detalhes, consegue desvendar o caso por completo. Mas, no restante todo, o que se vê é um detetive de poucas palavras realmente importantes, que passa mais tempo refletindo – como bem diz para Hastings em algumas ocasiões – do que em atividade de fato. Achei-o um pouco apagado, em relação a tudo o que sempre ouvi – mas inegavelmente prodigioso. Além disso, vale registrar que a autora não se deteve em construir a fundo o lado psicológico de cada personagem. Conhecemos muito pouco das vítimas. No entanto, talvez seja um estilo de suas obras mesmo, que focam mais nas investigações policiais do que na parte humana/psicológica em si, o que não é nenhum demérito literário. Serei capaz de perceber melhor seu estilo nos próximos livros, que lerei com toda a certeza.

Por fim, queria registrar alguns comentários técnicos sobre a edição da Nova Fronteira, a que eu li. A capa dura, algo que dá um ar imponente e clássico, combinou com Agatha Christie. A seriedade é quebrada, no entanto, por sua ilustração, bem colorida e com um sabor bem jovial, pueril. Gostei, achei uma graça! A diagramação do miolo (o interior do livro) é bem padrão comercialmente e funciona de maneira satisfatória. A escolha do papel também acho que foi acertada – aquele “amarelinho”, sabe? Minha única ressalva fica por conta do tratamento com o texto, que poderia ter sido melhor. É a coisa mais natural passarem alguns errinhos em livros, eu bem sei disso. Mas encontrei uma quantidade razoável de pequenos problemas, desde erros de digitação a palavras escritas equivocadamente mesmo. Fica a observação para reedições. 😉

Nota

Para a trama de Agatha Christie Os crimes ABC, dou nota 9/10. Acho que, para sua proposta literária, a narrativa cumpre muito bem e é, sem dúvidas, uma leitura agradável, além de ter um enredo excelente. Eu gostei e lerei outros, para poder analisar melhor o estilo da autora. Esperava um pouquinho mais do livro em termos de emoção e movimento no início e no meio, principalmente por parte de Poirot, como disse acima, mas nada que diminua o meu apreço.

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Abrindo o livro (O Eu Literário)

Ficha do livro

Título: Os crimes ABC
Autora: Agatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 256
Ano: 2015
Edição: 1ª

 

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Miolo (O Eu Literário)

Wishlist literária, oba!

É Natal, é Natal, um Feliz Natal! Quem quer “desculpa” para montar uma wishlist de livros levanta a mão. \o/

Como mencionei em um dos primeiros posts aqui do blog, andei um longo tempo afastada da leitura por hobby em virtude de motivos diversos e pessoais, apesar de livros sempre terem sido um objeto de encanto para mim. Nos últimos meses, me reaproximei desse mundo, meu mundo :), e desde então voltei a ficar vendo e pesquisando várias obras. Ao longo das últimas semanas, já havia alguns títulos que eu estava almejando, mas movida pela proximidade do fim de ano e pelas famosas “wishlists“, dei uma incrementada para formar a minha lista de desejos literários.

Portanto, amigos e familiares que quiserem me presentear e estiverem sem ideias, ficam as dicas, tá? (rs)

 

MINHA LISTA DE DESEJOS LITERÁRIOS:

e não sobrou nenhum

lugares escuros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

suicidas1

dias perfeitos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

joyland

criança 44

 

 

 

 

 

 

 

 

sombras de um crime

não conte a ninguém

 

 

 

 

 

 

 

 

(Todas as imagens são as das capas)

Menções honrosas (leia-se: títulos que não estão entre os que eu mais desejo, mas também os quero): Desejo proibido, de Sophie Jackson (editora Arqueiro); A garota no trem, de Paula Hawkins (Grupo Editorial Record); e O chamado do Cuco, de Robert Galbraith [J. K. Rowling] (Rocco).

O que acharam dos meus escolhidos? Quais são os livros que vocês mais estão cobiçando neste fim de ano?

Lembrando sempre que comprar e ganhar livros é ótimo, mas, especialmente nesta época, é muito bacana também doar. ❤

Beijinhos, queridos

 

“A vítima perfeita” e “Objetos cortantes”: a centralidade das personagens femininas

Olá, queridos!

Começo pedindo desculpa pela longa ausência de postagens do blog; é que estive (ainda estou, na verdade) com problemas pessoais. Mas para mostrar que as atividades por aqui não acabaram, trago agora um post novo, sobre duas de minhas últimas leituras: romances policiais com thriller psicológico, com muito suspense, mistério, investigação e segredos a serem descobertos – meu tipo de leitura “favoritaço”, eu confesso!

Os dois escolhidos foram A vítima perfeita (Rocco, 2015, 432 p.), de Sophie Hannan, e Objetos cortantes (Intrínseca, 2015, 256 p.), de Gillian Flynn. Ambos possuem histórias totalmente diferentes, mas o fio da navalha é semelhante: protagonistas que se veem em meio a um mistério policial, envolvendo sumiços/mortes, e que saem em busca de pistas para desvendar e compreender o que aconteceu. Ah, e que se descobrem partes integrantes daqueles quebra-cabeças, muito mais do que podiam imaginar. Clichê dos romances policiais/thrillers psicológicos – dois gêneros que costumam ser inter-relacionados. Algo, no entanto, se destacou para mim: nas duas obras, essas personagens principais são mulheres – e que possuem alguma fragilidade psicológica e emocional proveniente de um grande trauma do passado, mas se mostram autônomas e suficientemente fortes para enfrentarem seus desafios. Veio-me a reflexão: por que em boa parte das vezes as personagens mais exploradas nesses livros têm sido mulheres?

A vítima perfeita, Objetos cortantes e seus personagens (ops, SUAS!)

Em A vítima perfeita, Hannah traz três personagens femininas comandando a história, por diferentes ângulos e direções. Naomi Jenkins, uma jovem empreendedora independente e bem-sucedida, a grande protagonista da trama, que carrega um segredo trágico de seu passado e se entrega à paixão nos braços de um desconhecido que mantém com ela um caso extraconjugal; a sargento-detetive Charlie Zailer, policial astuta e que comanda uma equipe masculina, mas que aparentemente não se dá muito bem na vida amorosa; e Juliet Haworth, a esposa do amante de Naomi, que é descrita por ele à namorada como muito frágil e dependente. Após se relacionar por um ano com o caminhoneiro Robert Haworth, encontrando-o sempre uma vez por semana em um mesmo quarto de hotel simplório, Naomi fica muito preocupada e desconfiada quando, em uma determinada quinta-feira, ele simplesmente não aparece, não avisa e não dá mais nenhum sinal. A partir daí, a história se desenvolve. Naomi fica sem entender o sumiço do amante e resolve ir procurá-lo na residência do casal, mesmo ele sempre tendo feito-a prometer que jamais iria aparecer por lá. Sem encontrá-lo (mas vendo seu caminhão estacionado na porta), e dando de cara com uma fria e misteriosa Juliet, apela para a polícia, que não dá muito crédito ao desespero da mulher, acreditando se tratar de um mero caso amoroso em que o cara decidiu largar a amante. Desesperada, Naomi resolve, então, inventar uma história na tentativa de chamar atenção dos policiais para o caso. Mas o que era uma parcial invenção vai se revelando não tão falso como ela imaginava. Apesar de a trama girar aparentemente em torno do desaparecimento de Robert, quem dá as cartas é mesmo a trinca de mulheres durante todo o tempo.

Agora vejam que coincidência. Em Objetos cortantes, novamente me deparei com três personagens femininas desenovelando a trama. Três fortes, enigmáticas e obscuras mulheres. Gillian Flynn nos apresenta a protagonista Camille Preaker, uma mulher na casa dos 20 e muitos anos, bastante fechada e fragilizada, recém-saída de uma clínica psiquiátrica onde passou um tempo internada em virtude de praticar automutilação. Camille mora sozinha, longe da família, e não possui uma boa relação com a mãe. É jornalista de um impresso de pouco prestígio e se considera uma pessoa medíocre. Para o seu azar, o chefe lhe manda passar uns dias em sua cidade natal, a pequena e pacata Wind Gap, onde a jovem não vai há muitos anos, a fim de conseguir uma supermatéria para o jornal, investigando o estranho desaparecimento de uma criança na localidade. Apesar de ficar assombrada com a ideia, ela aceita, para provar ao seu chefe – e principalmente a si mesma – que é capaz de enfrentar esse desafio em busca do sucesso profissional. Daí em diante, Camille acaba se vendo de volta ao seu passado – e obrigada a morar novamente com a mãe, na casa onde cresceu. Na residência, vivem Adora, uma dona de casa elegante, que faz a linha mãe superprotetora com a filha caçula, Amma (meia-irmã de Camille), mas que parece desconfortável com a presença da primogênita, e ainda sente-se perturbada pela morte precoce da filha do meio, Marian, falecida antes do nascimento da mais nova; o padrasto de Camille, Alan, uma figura absolutamente insossa, vazia e inexpressiva, que vive às sombras de Adora e de Amma; e a tal meia-irmã, de 13 anos, uma adolescente dúbia, provocativa e misteriosa, que se comporta como uma criança, ou melhor, como a boneca da mamãe, em casa, e como uma mulher imponente e insinuante na rua, a típica líder das mean girls do colégio – e com quem a jornalista nunca tivera contato, a bem dizer, antes de voltar agora à sua cidade. Enquanto Camille investiga os fatos em busca de notícias sobre o desaparecimento para suas matérias, percebe que este está relacionado com outro desaparecimento seguido de homicídio de uma garotinha no ano anterior, e se vê novamente envolta em sua complexa e conturbada teia familiar, mais uma vez imersa em seu passado. As descobertas que surgem são capazes de mudar toda a sua vida.

A força das personagens femininas

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

Parece que trabalhar com personagens femininas em thrillers psicológicos e romances policiais dá certo. Mulheres que reúnem inúmeras complexidades emocionais, capazes de passar por traumas profundos e superá-los, tocar a vida, camuflar as cicatrizes e ser, inclusive, profissionais descoladas e muito bem-sucedidas, independentes, como no caso de Naomi Jenkins. Outras que, devido a toda uma infância e juventude muito conturbadas, possuem traumas muito enraizados, problemas emocionais que de tão profundos afloram na pele, mas que, com um esforço maior do que se pode imaginar, seguem vivendo – ou sobrevivendo –, e ainda se veem capazes de se deixar emaranhar pelos fios familiares novamente, como ocorre com Camille Preaker, em nome do comprometimento profissional. Se em A vítima perfeita o foco fica mais na história policial em si, com desaparecimentos, buscas, investigação, segredos, descobertas, ação e reviravoltas, Objetos cortantes prioriza as relações humanas e psicológicas. Flynn mergulha mais fundo na psique humana e explora o lado obscuro das pessoas, os efeitos emocionais que cada acontecimento pode gerar no indivíduo, e nos mostra, com detalhes muito bem trabalhados, doentes relações familiares. Uma em maior e outra em menor profundidade, essas autoras desnudam as inúmeras camadas emocionais e psicológicas de personagens fortes, independentes e muito distintas entre si, mas que compartilham de traumas que as afetaram definitivamente. Mulheres comuns, do dia a dia, com dramas semelhantes aos de muitas nós, com certeza (e infelizmente, porque o número de estupros, crime cometido contra uma das personagens, é enorme). Mas o principal: mulheres que fogem daquele antigo estereótipo feminino, das simples e meramente frágeis, resignadas a participações secundárias, as que serviam mais para ilustrar (ou serem vítimas). Aqui, o papel muda. Mostram-se mulheres no ápice de suas possibilidades. Vítimas de dramas, mas donas de suas próprias vidas. Mocinhas e vilãs (de si mesmas). Repletas de faces. Protagonistas. E não mais só de romances água com açúcar.

Mas por que será que personagens femininas têm feito tanto sucesso em tramas complexas, psicológicas, policiais, profundas e cheias de reviravoltas de um tempo para cá? Por que é cada vez mais comum encontrarmos Naomis e Camilles em thrillers na literatura? Lembro, por exemplo, que outros dois conhecidos livros do gênero escritos pela própria Gillian Flynn, Garota exemplar e Lugares escuros, também são centrados em personagens mulheres. Ok, as autoras são também mulheres, talvez suas escolhas sejam uma mera questão de identificação, de maior conhecimento humano, de sororidade. Mas me parece que a graça (e a força emotiva) tem estado em nós! (risos) Mas sem aquele clichê de que é porque “mulheres são complicadas”, e por isso combinam com personagens “confusas”, né? Talvez consigamos explorar mais – sem generalizações e sem sexismo, por favor – nossas várias e possíveis camadas psicológicas e acessar mais de uma emoção ao mesmo tempo. Sensibilidade aguçada. O que, é claro, rende personagens potenciais. Além disso, acho que o contexto social do mundo tem sua parcela nessa mudança de paradigmas literários também. Se a mulher tem conquistado, à base de muita luta, seu lugar na sociedade, em busca da igualdade de gêneros, parece que o mesmo está refletindo na literatura. E muito me agrada.

Mas, é preciso ter cuidado…

Houve, no entanto, detalhes que me causaram certo incômodo nos dois livros, justamente relacionados ao fato de as histórias serem pautadas em personagens femininas: presença de machismo. Algo que pode ter sido inserido nas duas narrativas pelas autoras justamente como uma forma de chamar atenção para tais coisas que acontecem na sociedade e que precisam ser encaradas de forma diferente, precisam acabar; ou seja, talvez, e até possivelmente, tenham sido escritos como forma de crítica mesmo, de repúdio. Mas o fato é que me nausearam.

Naomi Jenkins foi estuprada e parece tratar disso como se ser considerada uma vítima fosse um erro. Ela não se considera “vítima”, nem “sobrevivente”, e mesmo que a postura da personagem seja apenas uma forma autodefensiva para tentar se proteger de todo o sofrimento pelo qual passou, confesso que algo em seu comportamento gerou um incômodo em mim. Não sei especificar exatamente o quê. Talvez uma mistura de conformidade com muitos questionamentos do tipo “Será que eu fiz algo para merecer?”. Em contrapartida, senti falta de um discurso contrário no livro. Tentei pensar pela cabeça dela, e acho que pode ser normal esse tipo de pensamento em uma mulher que sofreu uma violência tão brutal como essa. Como ela mesma diz em um trecho, talvez quanto menos se fale naquilo, menos busque-se enfrentar, menos real aquilo pareça ter sido. Uma forma de escapismo. Mesmo assim, em muitas páginas eu tinha vontade de gritar para ela: “Miga, você é vítima, sim! Não é questão de ‘se vitimizar’, é um fato, trata-se de um crime do qual você foi a vítima. A culpa de nada disso que você sofreu é sua; a culpa nunca é da pessoa estuprada, mas tão somente do ser que cometeu o estupro! Força, não se envergonhe. Estamos com você!”. A cultura do estupro existe, e acho que deve, sempre e sempre, ser tão somente combatida, e pensamentos de negação, conformismo e culpabilização da vítima, repelidos. Inclusive na literatura.

Já na trama de Objetos cortantes, o machismo se expressou de outras maneiras, mais explícitas. A típica cidade pequena, cheia de preconceitos e com comportamentos estigmatizados. Garotas adolescentes que transam como forma de status e são tratadas como objetos sexuais, e mulheres que são tratadas como enfeites e criadas para serem mães e donas de casa. Há uma cena especialmente forte para mim nesse sentido, que mostra como o machismo está enraizado naquela sociedade, em práticas, pensamentos e hábitos que não o detectam e o consideram normal: o momento em que Camille conta para o jovem policial Richard, que é de uma cidade grande e está em Wind Gap investigando os casos dos desaparecimentos e mortes das menininhas, como foi a primeira vez de uma garota de sua turma na época do colégio. A adolescente, que na verdade era ela, ficara bêbada e então transara com “quatro ou cinco” caras do time de futebol seguidamente, sendo passada de um para outro. Ao ouvir, Richard se choca e pergunta se a jovem chegara a prestar queixa de estupro na polícia, pois era isso que havia acontecido. E Camille reage dizendo que só porque a garota transara com vários, bêbada, não quer dizer que tenha sido uma vítima ou que precisasse ser “cuidada”. E chama o policial de machista por pensar isso. Se há elementos importantes na fala da protagonista, sobre mulheres terem direito a fazer o que bem entenderem com o próprio corpo e terem liberdade para transar com quantos quiserem, há também, nitidamente, uma deturpação no discurso, uma visão distorcida sobre tudo isso.

Para não prolongar mais (e nem dar muitas informações e detalhes sobre as histórias), acho que por mais que as intenções das autoras possam ter sido alertar e dar luz a fatos que necessitam de atenção, a impressão que ficou para mim é de que faltou um pouco de tato nesse aspecto. Personagens centrais femininas, mostrando as inúmeras possibilidades psicológicas, comportamentais e sociais de mulheres, são maravilhosas. Mas é preciso ter certo cuidado com a forma de abordagem de determinados estereótipos, para combater mais o machismo, e não corroborar com ele de forma alguma.

(Foto: O Eu Literário)

(Foto: O Eu Literário)

Notas para os livros

Gostei de ambas as leituras. Como aprecio o lado psicológico de personagens, achei que essa parte foi bem explorada e desenrolada em Objetos cortantes e gostei disso. No entanto, em relação ao enredo do livro como um todo, senti falta de mais ação investigativa e policial. O final, apesar de ter uma boa proposta, parece que foi cuspido nas últimas páginas às pressas. Perdeu pontos por isso. Eu daria nota 7,5/10. Já em A vítima perfeita, Sophie Hannan conseguiu construir satisfatoriamente um conjugado de fatos que se interligam, com descobertas que vêm em um ritmo bom, sem deixar nenhuma parte enfadonha. Tem investigação, tem bastante ação, tem suspense; e não deixa de ter um lado humano das personagens, apesar de não ter sido explorado aqui em tanta profundidade. Acho que se a autora tivesse destrinchado mais a protagonista, Naomi, e Juliet, penetrando-as mais, o livro poderia ter sido ainda melhor. Achei-as meio apática – apesar de fazer sentido que elas sejam assim. Dou 8,5/10. E recomendo os dois livros! 😉

Bienal do Livro – Rio 2015

Já tinha um tempo que eu não ia à Bienal do Livro. Estava ansiosa para ir este ano; me sentia criança novamente. E minhas expectativas não foram quebradas. Assim que pisei naquele espaço gigantesco (e, desta vez, com uma credencial de “Editor” pendurada no pescoço, o que me fazia sentir ainda mais nas nuvens, confesso) e me vi rodeada de estandes, livros e editoras enormes por todos os lados, dei um sorriso daqueles que brilha e pensei: “Estou em casa!”.

Fui apenas como visitante, pois a editora em que trabalho não participa da Bienal – é um evento para “as grandes”. E não estava sozinha, fui em uma pequena caravana familiar. Por isso, e por um cansaço físico que me/nos consumia, não permaneci por tanto tempo lá. Fissurada por ver livros e escolher os que compraria, só no final me dei conta de que acabei esquecendo de dar mais atenção à parte da programação cultural. Não vi muita coisa legal, que depois fiquei sabendo que tinha; também não assisti a nenhuma palestra nem bate-papo com autores. Valeria a pena fazer uma nova viagem – sim, porque juntando a distância com o trânsito infernal é isso que vira – até lá neste final de semana só para ver tudo isso, mas não sei se vou poder. Mas, enfim, valeu a pena.

Comprei cinco livros (que estão na lista de espera das leituras ainda), e fiquei chateada porque três que eu tinha anotado não constavam lá. O que encabeçava minha listinha, Suicidas, inclusive. 😦 Mas tudo bem, mês que vem eu vou a uma livraria qualquer e procuro os que não encontrei. Os livros que comprei estão na foto no final deste post, para dividir com vocês. (Obs.: Essa, aliás, é uma dica valiosa: ir com uma listinha de livros pré-selecionados para ver e procurar lá, porque é taaaanta opção pulando por todos os lados que a gente acaba se perdendo!)

Ainda sobre minhas percepções da Bienal em si, confirmei minha aposta, que já tinha comentado aqui (O momento atual: livro vende?): o evento, cada vez mais, é pensado prioritariamente para os adolescentes e jovens adultos. Além de este ser o público que eu mais vi lá no dia em que fui – mas também havia muitas crianças, pais, adultos e até pessoas mais velhas, galera de todas as idades mesmo –, também senti isso pelo modo como as editoras fizeram/montaram seus estandes e faziam suas divulgações, sem contar nos diversos “personagens” de sagas young adult que vagavam pela feira, inclusive autores fantasiados, atraindo muita atenção dessa galera, dando muitos autógrafos e tirando várias fotos. Bacana. Marca de um mercado que continua crescendo e tem dado um gás para as vendas de livros.

A única decepção foram os preços. Até vi algumas promoções em algumas editoras, mas bem poucas. A maioria dos livros estava com os preços normais. Acho que um evento literário desse porte e dessa magnitude poderia (e deveria) investir mais em descontos, de maneira mais homogênea.

Por fim, fica um lembrete importante: a Bienal do Livro é fantástica mesmo! Mas existem várias outras feiras e festas literárias espalhadas pelo país. Muitas nem chegam ao conhecimento do grande público. Fiquem ligados, vamos continuar prestigiando a leitura e o mercado editorial brasileiro. Vêm muitas feiras de livros legais por aí, e eu espero que todos que foram à Bienal vão a todas estas também. 😉

Sei que alguns aí quase todas as pessoas da Terra já leram, rs. E aí, boas recomendações sobre minhas aquisições? <3

Sei que alguns aí quase todas as pessoas da Terra já leram, rs. E aí, boas recomendações sobre minhas aquisições? ❤

Por hoje, é isto. Neste final de semana, vai ter postagem em “Da minha profissão” novamente! 😉

Beijinhos

Livros infantis (2)

Oi, gente!

Eu ia escrever um novo post sobre produção editorial, mas, depois de ter publicado, sexta-feira passada, todas aquelas lembranças literárias da minha infância e do início da minha adolescência, cadê que consegui frear as memórias? (rs) Vira e mexe, vinha outro livro à minha cabeça, outra história lida há anos e que, percebi, deixaram um lugarzinho cativo em mim. Afinal, é lá na infância, naquela época gostosa, que somos apresentados a este objeto mágico chamado “livro”. Normalmente – não regra –, é de lá que vem o nosso hábito de leitor.

Somado a isso, nessa segunda-feira, dia 24 de agosto, foi o Dia da Infância. Então, em homenagem a tudo isso, acabei montando uma lista, com dez livros infantis que li entre uns 5 e 12 anos – nenhum destes foi mencionado na postagem anterior, sobre os livros que me marcaram. Confiram aí a listinha:

1- A bota do bode

A bota do bode

2- A galinha ruiva

A galinha ruiva

3- Doroteia, a centopeia

Doroteia, a centopeia

4- Rita está crescendo

Rita está crescendo

5- A porta do meu coração

A porta do meu coração

6- Sabor de vitória

Sabor de vitória

7- Adeus, escola

Adeus, escola

8- O menino Maluquinho

Menino Maluquinho

9- Furo de reportagem

Furo de reportagem

10- O Clube do terror

O clube do terror

(Imagens das capas – Reprodução/Google)

 

E aí, alguém mais se lembra de alguns desses livros também? Ou de outros livros infantis marcantes? Comentem aí, então. 😉

Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. (Monteiro Lobato)

Livros que me marcaram: memórias da infância

“Sou a marca de uma lágrima tão profunda quanto a solidão.”

Alguém aí se identificou? Eu, sim. Principalmente, quando tinha 11/12 anos de idade. A frase acima faz parte do livro A marca de uma lágrima, de Pedro Bandeira. Foi, sem dúvidas, um dos livros que mais marcou minha infância e o início da minha adolescência. E, hoje, escolhi falar um pouquinho disso, dividir com vocês livros que li entre meus 5 e 14 anos e que me tornaram quem sou – porque somos o que lemos, né?

Capa de A marca de uma lágrima (Imagem do Google)

Capa de A marca de uma lágrima (Imagem do Google)

Ainda criança pequena, já gostava de ler. E, pra minha sorte, da antiga Classe de Alfabetização até a 8ª série, estudei em um mesmo colégio, que prezava muito pelo estímulo à leitura. A escola tinha, como uma de suas disciplinas, um projeto de leitura. Funcionava assim: no início de cada ano letivo, eles comprovam X livros (acho que uns 30, porque as turmas não eram muito numerosas, costumavam ter em torno de 15 a 25 alunos) e deixavam todos em uma caixa. Uma vez por semana, o professor (a partir de 5ª série, quando passa a haver vários professores, um para cada matéria, existia um destinado particularmente e apenas para a aula do projeto) pegava a caixa com os livros e, seguindo alguma ordem – alfabética crescente, decrescente ou outras várias –, ia chamando cada aluno pra ir até lá e escolher, dentre todos aqueles, um livro pra levar pra casa. Os alunos tinham, então, uma semana pra ficar com o livrinho em casa e lê-lo. Na semana seguinte, o professor trazia de novo a caixa e tínhamos, cada um, de apresentar o livro lido de alguma forma. Tínhamos também um caderninho específico para as aulas do projeto de leitura, no qual fazíamos sempre trabalhos diversos sobre a obra. Enfim, uma beleza! Aí, no final do ano, todos os livros eram divididos pelos alunos da turma (às vezes, eram sorteados; às vezes, podíamos escolher com os quais queríamos ficar, e aí a ordem de estudantes para irem escolher era dada por aqueles que mais tinham lido – porque, nas séries mais avançadas, os livros já não eram tão infantis e havia muitas disciplinas, trabalhos e provas, além da vida extraescola, né, então era comum não devolver o livro em apenas uma semana, e só podíamos devolvê-los após a leitura estar completa, já que obrigatoriamente fazíamos trabalhos sobre cada um). Li muuuuito (e ganhei muitos livros legais) por causa do colégio. ❤

Da infância mais infância, títulos que ficaram na memória foram, dentre alguns outros, Um osso duro de roer, que era a história de um cachorrinho; Fininha fofinha, sobre uma elefantinha foférrima; e A foca famosa. O primeiro, eu nunca tive, porque não fui agraciada pelo sorteio do projeto de leitura (rs), e os outros dois dei há uns anos, em uma das mudanças que fiz – detesto mudança, ela nos obriga a desapegar de coisas que não queríamos na verdade.

Capa de A foca famosa (imagem do Google)

Capa de A foca famosa (imagem do Google)

Capa de Bruxa Onilda e a macaca (imagem de divulgação, do site da editora Scipione)

Capa de Bruxa Onilda e a macaca (imagem de divulgação, do site da editora Scipione)

Na sequência, fui apresentada, em casa mesmo até, à destrambelhada Bruxa Onilda. Histórias infantis ainda, mas já mais desenvolvidas, além de divertidinhas. Li (e tive) toda a coleção. Os primeiros que ganhei foram Bruxa Onilda e a macaca e O casamento da Bruxa Onilda. Os meus preferidos, além deste último, acho que eram Bruxa Onilda vai à festa e As memórias da Bruxa Onilda (os livros das trigêmeas já não me conquistaram). Acho essa coleção muito bacana pra crianças, especialmente entre uns 7 e 9 anos. Dessa época, também lembro-me de Irmão imaginário, de Lorris Murail; Ele é meu namorado e Estou de mal, de Beatrice Rouer.

Em 2001, veio a minha primeira Bienal. Lembro que nunca tinha me sentido tão maravilhada em um lugar. Era muuuita coisa pra  ver, pra olhar, pra folhear. E muitas opções de escolha (librianos detestam ter de decidir, afinal, eu queria todos!). Fui com meus pais, e saí de lá com meu primeiro livro “grandinho”: Confusões e calafrios, da coleção Vaga-lume, da editora Ática. Ainda não tinha completado 10 anos, e lembro que meus pais ficaram me advertindo de que aquele livro não era como os que eu estava acostumada a ler até então, não tinha figuras, e perguntavam: “Você vai ler isso??”. Peitei. Ia, sim, ora bolas! O livro tinha me chamado, me atraído. Tinha rolado a química, não era a ausência de figuras ou as páginas a mais que seriam um empecilho. Pelo contrário, tomei aquilo como um desafio. Queria dar um passo à frente nas minhas leituras. E, sim: li o livro rapidinho e AMEI. Ele foi o abre-alas dos livros infantojuvenis na minha vida, os meus xodós (assumo!).

Dois livros que ainda guardo em minhas estantes (Foto: O Eu Literário)

Dois livros que ainda guardo em minhas estantes (Foto: O Eu Literário)

Dentre os infantojuvenis, um dos mais especiais foi justamente A marca de uma lágrima, que li pouco tempo depois. Não foi o meu primeiro contato com Pedro Bandeira; já o havia conhecido com Mariana, outra graciosidade, aliás. Mas foi com A marca que o autor me conquistou definitivamente. Texto delicado e sensível, história bem-escrita. Comecei a ir atrás de livros dele, então. Vieram todos os Karas (recentemente, não resisti e comprei e li o último da série, o recém-publicado A droga da amizade), Agora estou sozinha, Como conquistar essa garotaAqueles olhos verdes, Amor impossível, possível amor… Também li O primeiro amor de Laurinha e o conhecido O fantástico mistério de Feiurinha, apesar de serem mais infantis. Além de Pedro Bandeira, entre meus 11 e 14 anos também li diversos infantojuvenis de romance adolescente e de mistério/suspense – adoro! Vou destacar, aqui, duas coleções que tanto me marcaram e têm memória afetiva pra mim: Vaga-lume, da Ática, e Veredas, da editora Moderna. Ai, ai, que saudade… Quantos livros! Deixa eu dividir outros títulos que me vêm à cabeça: O gênio do crime, de João Carlos Marinho; A turma da rua quinze, de Marçal Aquino; Um cadáver ouve rádio, de Marcos Rey; Na mira do vampiro, de Lopes dos Santos; A ladeira da saudade e Um girassol na janela, de Ganymédes José; Amor de verão, A casa do terror e Para tão longo amor, de Álvaro Cardoso Gomes; Crescer é perigoso e Um amigo no escuro, de Marcia Kupstas; Meu primeiro beijo, de Walcyr Carrasco; O mistério mora ao lado, de Giselda Laporta; Plano B, missão namoro, de Angélica Lopes; Tudo por um namorado, de Thalita Rebouças; e Avalon High, de Meg Cabot.  Ah, outros dois livros que me marcaram também foram O morro dos ventos uivantes, de Emile Brontë, e O retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde.

Já no início da adolescência, começaram a surgir os livros maiores… Saga Harry Potter. ❤ Amo, apaixonada. Já Senhor dos anéis nunca me atraiu. Nem Diário da princesa. A série Crepúsculo, li e gostei. Em geral, o que me atraía mais eram thrillers, romances policiais. Um com o qual me deleitei chama-se Um corpo para o crime, da escocesa Val Mcdermid. Já uma trilogia que tenho muita vontade de ler até hoje (mas fiquei na enrolação na época) é a Millennium, do sueco Stieg Larsson.

Meus HPs eu não dou de jeito nenhum!

Meus HPs eu não dou de jeito nenhum! (Foto: O Eu Literário)

Por fim, destaco Machado de Assis. No 1º ano do Ensino Médio, aos 14 anos, tivemos de ler Dom Casmurro para a disciplina de literatura. Ali, tive meu primeiro contato com essas obras “mais clássicas”. Curti muito o livro e é uma das minhas referências literárias até hoje.

Estas são as principais memórias literárias da minha infância/início da adolescência, fase em que fui leitora mais intensamente. Sabem o que é mais fantástico? Conforme eu fui escrevendo aqui, vários “trechinhos de memórias”, coisas muito vagas e muito soltas, de livros que li, foram vindo à minha mente. Que delícia… Uma pena que haja tantas coisas soltas, difícil lembrar o nome de cada livro. Bom, espero que gostem e se identifiquem em alguns momentos. Será que vocês também leram muitos desses livros? 🙂

Beijinhos

(mais…)