crítica literária

“Lugares escuros” e a sombria psique humana

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Sinopse

Desde que perdeu a mãe e as duas irmãs mais velhas, mortas em um trágico massacre ocorrido dentro da própria casa quando tinha apenas 7 anos, Libby Day colecionou dias de mera sobrevivência, vazios e opacos. O principal suspeito pelos assassinatos foi o próprio irmão, Ben Day, o mais velho dos filhos, à época um jovem adolescente, preso desde então. Vinte e quatro anos depois, Libby se vê sem dinheiro nenhum e resolve vender sua presença, seu relato e algumas lembranças da infância relacionadas à família para um clube de aficionados por crimes – o Kill Club. A partir dessa iniciativa nada nobre, ela percebe-se de volta ao passado, do qual fugiu sempre, e resolve enfim enfrentar todos aqueles acontecimentos (pela primeira vez), a fim de descobrir se realmente foi seu irmão o assassino dos Day.

Opinião e comentários

Este é o segundo livro da americana Gillian Flynn, que já tinha escrito Objetos cortantes [crítica sobre este aqui: “‘A vítima perfeita’ e ‘Objetos cortantes’: a centralidade das personagens femininas”], e achei palpável a evolução narrativa. Aqui, ela reafirma seu refinado talento para a tessitura de tramas psicológicas, com grande foco na construção de personagens complexos, densos e cheios de traumas e feridas. E femininos.

Em Lugares escuros, achei os personagens especialmente frios. Libby, a protagonista, apesar de toda a história triste e comovente que carrega, não consegue causar grande empatia no leitor. Ela é solitária, muito fechada e interesseira. Os personagens, de uma maneira geral, têm essas mesmas características. Ninguém é mocinha ou mocinho, daquela forma clássica (e irreal, né, não custa lembrar). O livro retrata a humanidade e seu egocentrismo, que de fato guarda pouca empatia entre as pessoas.

A obra é dividida em três linhas narrativas: uma nos dias atuais, na voz de Libby, e duas na época dos crimes, sob a perspectiva de Patty, a mãe, e Ben, o irmão. Essa foi uma escolha que funcionou bastante; os três fios correm muito bem, com ótimas amarras. As narrativas de Patty e Ben, principalmente, complementam-se perfeitamente no decorrer das páginas (não de cara, mas gradativamente ao longo dos capítulos). A única ressalva, aliás, a meu ver, fica por conta disso: o início do livro é meio lento, a história demora a engrenar. Podia ter mais emoção.

Passada em um vilarejo do interior dos Estados Unidos, a trama reproduz preconceitos – principalmente nas partes narradas na década de 1980 – e machismo. A família pobre que é humilhada, os jovens punks acusados de serem satanistas, a mãe divorciada discriminada e difamada, sendo considerada, inclusive, prostituta. Bons motes para discussões e reflexões. Mais um ponto.

O suspense psicológico criado por Flynn em Lugares escuros muito me agradou também. Há diversos elementos e personagens envolvidos no enredo, e o clima de tensão se mantém até o fim. A autora desenvolveu a história melhor desta vez, principalmente o fim, que foi trabalhado com calma – diferentemente de Objetos cortantes, que deixa o leitor com a sensação de que as últimas páginas foram cuspidas. Aliás, mais pontos para Flynn, porque o desfecho é uma baita virada, inovador e surpreendente. Ao longo do livro, ela dá pistas sobre o que viria pela frente, algo que acho importante para dar credibilidade. Por isso, mesmo sendo um pouco imprevisível (mas eu tinha essa suspeita, há!), é um fim bem construído e muito satisfatório, na minha opinião.

Além do início lento, como disse, a única coisa que achei não ter funcionado tão bem foi o Kill Club, cuja participação podia ter sido mais bem explorada, e não foi. Pelo contrário: rendeu uma partezinha meio monótona (e é ainda no início do livro, o que reforça o primeiro comentário). Mas isso não chega a prejudicar a leitura nem o interesse pela trama, que merece ser lida.

Nota

9/10. Gostei muito. 😉

Obs.: Há um filme baseado no livro, protagonizado pela Charlize Theron. É até legalzinho, mas, para quem leu, fraco.

Obs. 2: Como comentei mais acima, essa é realmente uma autora que tem se destacado na literatura feminina, com grandes personagens mulheres, que quebram os estereótipos de simplesmente frágeis, ou simplesmente mocinhas, ou simplesmente qualquer coisa delicada. Ou mesmo daquelas personagenzonas femininas fodonas que fazem e acontecem. Flynn mais uma vez dá luz a uma protagonista complexa e profunda, mocinha e vilã de si mesma, com força e destaque, mas também cheia de defeitos. Afinal, por que diminuir a mulher em uma só coisa se ela pode ser tão mais, não é mesmo? Pode ser real e interessante. Por isso, mais Flynns no mercado de livros!

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“Sonhos partidos”: delicado, mas lento

Olá, queridos! ❤

Enfim, muito enfim, o primeiro post de 2016. Podem estourar os fogos! haha

Estava com bastante saudade do meu espacinho, mas este ano começou bem movimentado para mim. Um motivo maravilhoso: mudança de emprego. 🙂 Mas o fato é que estas semanas têm sido agitadas; meu tempo está sendo totalmente dedicado ao novo trabalho. Aos pouquinhos pretendo voltar a postar no blog com mais frequência, como fazia no ano passado.

Vamos logo ao que interessa, então. O post de hoje é uma resenha crítica sobre uma de minhas últimas leituras: Sonhos partidos, de M. O. Walsh, publicado pela Intrínseca.

Capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quem me acompanha, sabe: meu gênero literário preferido são os thrillers psicológicos/romances policiais/suspenses. Adoro! Em um dia normal passeando pela livraria, folheando livros aleatoriamente, este chamou minha atenção. Nunca tinha ouvido falar sobre ele, mas seus textos de quarta capa e orelha despertaram meu interesse. Um crime – no caso, um estupro – que não foi solucionado e anos depois volta à tona. Sinopse que poderia ser de um policial, não? Palavras-chave: crime, suspeitos, investigação, mistério. Mote principal: quem é o culpado? Mas, com o passar das páginas, a expectativa foi dando lugar à decepção literária. Na verdade, apesar de ser escrito sobre esse pano de fundo, achei a história um grande drama, além de uma leitura lenta e pouco empolgante.

Por dentro da história

A obra gira em torno de uma adolescente de cerca de 15 anos chamada Lindy Simpson, a típica garota popular americana. Linda, atlética, simpática, cheia de amigos e de meninos encantados por ela. Até que em uma noite, quando voltava para sua casa de bicicleta (em uma cidade superpacata e onde todos os vizinhos se conhecem e se ajudam), foi agarrada e estuprada. E, desde então, nunca mais foi a mesma, adquirindo posturas e comportamentos bizarros e que muitos não compreendiam. O culpado não foi descoberto, e a polícia saiu do caso rápido demais. Quatro homens, sendo três garotos, foram considerados suspeitos na época – todos informalmente, apenas. Um destes é justamente o narrador do livro, que resolve reviver e contar essa história quando já é um adulto, o que torna tudo um tanto estranho. Até que ponto sua narrativa, seu ponto de vista é confiável?

Detalhe impressionante: nosso narrador não tem nome. E eu só me toquei disso quando concluí a leitura e fui olhar outras opiniões na internet. A trama é tão bem-escrita, nesse quesito, que nem nos incomodamos com a ausência de um nome para ele. Ponto para o autor, o estreante M. O. Wash.

Como eu comentei acima, o mote inicial é bacana e atraente. Sedutor; seduziu-me. Mas conforme as páginas foram passando, fui me cansando. A narrativa fica em um ir e vir sem fim. Uma hora ele está em 1989, aí vai para 1992, aí volta para 1990, aí volta mais para 1987, vai de novo para 1992, e por aí continua. (Estou dando anos como exemplos, apenas.) Em geral, é possível compreender e traçar mentalmente a linha cronológica. Mas houve momentos em que eu me perdi e não sabia se tal fato era antes ou depois dos outros já narrados. Achei que, nesse ponto, o autor não se saiu tão bem assim.

Sobre o conteúdo literário em si, vamos percebendo que o livro não é sobre Lindy na verdade, a jovem estuprada. O livro é sobre o garoto, nosso narrador, um dos suspeitos. À medida que acompanhamos suas lembranças, fica nítido que é tudo sobre ele. O quanto ele era próximo dela antes do crime e se viu afastado depois; o modo como ele acabou se “apaixonando” por ela e moldando-se em mil e uma personalidades diferentes na tentativa de ficar parecido com suas novas identidades criadas pós-estupro; como tentava compreendê-la, achava que a entendia melhor do que ninguém e no fundo era incapaz disso; o quanto sua própria vida mudou e foi afetada por aquele acontecimento; como ele se tornou um suspeito aos olhos da mãe; que ele fez tudo o que fez simplesmente porque se sentiu culpado por ela ter sido violentada (e ele só fala explicitamente sobre isso no final). Possivelmente bem-intencionado, mas seus relatos mostram como ele foi egoísta na juventude. Da forma que, mesmo quando a mulher é a vítima, quem fica no centro da história é o homem. E algumas falas de Lindy ilustram bem isso, um tapa na cara do narrador-sem-nome.

Boas ressalvas

Fiquei na dúvida se considerei o livro machista ou não. No fim das contas, acho que ele tentou mostrar – talvez nem de maneira consciente – o quanto a sociedade é machista. O quanto os homens, em geral, não conseguem lidar com algo tão brutal e tão delicado que é o estupro. Como não compreendem as reações das mulheres, o quanto se acham no direito de participar de tudo, o quanto tendem a querer resolver tudo e acham que serão capazes de apagar as memórias da mulher – e consideram um absurdo quando elas não acolhem suas tentativas de ajuda ou se rebelam. Observando por esse lado, o livro é positivo. Acho que o grande lance de Sonhos partidos é mostrar como o garoto não consegue lidar com a sua falta de protagonismo na história (e na vida de Lindy). Bom, essa foi minha percepção, minha opinião.

Mais uma vez, fiquei na dúvida se achei adequado um autor (homem) escrever um livro sobre o estupro de uma menina. Ao fim da história, percebi o que discorri acima: não é sobre o estupro, no fundo, mas sim sobre o garoto e o modo como ele encarou tudo aquilo, sobre o seu egoísmo. De novo, sobre esse prisma achei que foi uma linha inteligente que Walsh adotou. Realmente, ele não poderia (ou não deveria) escrever sobre um estupro a uma mulher e nem sob o enfoque desta, pelo simples fato de não ser uma; é aquela coisa que chamamos de lugar de fala. Por isso, tomei isso como a grande boa ressalva do livro. A obra traz para reflexão um tema tão relevante e tão fundamental, mas ele teve o cuidado de não usar um espaço que não seria dele. Ele mostra um machismo e um egoísmo típicos de nossa sociedade justamente sob a narrativa de um homem. E o livro é daqueles que termina e nos faz pensar. Isso é sempre bom.

Nota

Em termos puramente literários, me decepcionou bastante. Morno, lento, cansativo muitas vezes e sem reviravoltas. Mas talvez essa tenha sido realmente a intenção do autor. Uma narrativa delicada. A questão humana e social que ele traz é valorosa. Tem potencial reflexivo. E não dá para não reparar que o autor escreve bem. Na balança de tudo isso, dou nota 6,8 de 10. Ou 7, vá lá.

Obs.: Em termos editoriais, meu grande destaque vai para a capa. Achei uma sacada fantástica: extremamente delicada, sutil. O lamento vai para o tratamento de texto, pois do meio para o final do livro vi muitos errinhos de português.

 

E aí, quem mais já leu Sonhos partidos? O que acharam?

Beijinhos e boa semana!

Minha primeira vez com Agatha Christie – “Os crimes ABC”

Sabe aquela autora clássica, superconhecida e que é considerada uma das principais escritoras do seu subgênero literário preferido? Pois é, chega a ser meio absurdo quando você alcança certa idade sem nunca ter lido, de fato, nenhuma de suas obras. Assim acontecia comigo e a tão comentada – e elogiada – Agatha Christie, chamada por muitos de “Rainha do Crime”.

Agatha nasceu em 1890, na Inglaterra, e escreveu mais de oitenta títulos, tendo vendido mais de 4 bilhões de exemplares em todo o mundo, atrás apenas de Shakespeare e da Bíblia. Leia-se: a mulher é foda. Minha curiosidade em relação a ela já era grande há muitos anos, mas em 2015 tornou-se especial. Decidi que era hora do nosso encontro. E minha primeira incursão em sua literatura foi com Os crimes ABC, um dos livros que contam com a figura central do detetive belga Hercule Poirot. Antes de adentrar em seu universo e deixar minhas impressões e opinião, vou dar um breve resumo (sem spoilers) sobre a obra, então.

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A história

O renomado e cheio de prestígio detetive Hercule Poirot já está aposentado, mas não consegue se manter longe dos crimes por muito tempo. Vez ou outra, aparece um novo caso que merece sua atenção e o requisita novamente à ativa. Desta vez, o crime vai pessoal e diretamente à sua residência. Explica-se: em um dia comum, ele recebe um bilhete, assinado por alguém sob alcunha de “ABC”, que o avisa que ocorrerá um homicídio na localidade de Andover no dia 21 de junho. O aviso vem sob a forma de um desafio para Poirot, que deverá impedir que tal assassinato aconteça. Surpreso com tal fato, inédito em sua carreira, ele avisa a Scotland Yard sobre a carta recebida, mas todos acreditam se tratar de alguma pegadinha de mau gosto. Poirot, no entanto, fica com a pulga atrás da orelha.

Na data determinada, uma senhora idosa, de nome Alice Ascher, é assassinada dentro de sua pequena loja em Andover. Sem pistas sobre o crime, a polícia se vê no escuro, e o único detalhe que chama atenção é que, próximo à vítima, foi encontrado um guia de trens conhecido como ABC. Poirot tem certeza de que se trata do homicídio sobre o qual o estranho remetente o avisara dias antes, mas nada consegue descobrir a respeito da origem da mensagem. Semanas depois, uma nova carta chega à sua casa, com o aviso de um novo assassinato que acontecerá, em alguns dias, desta vez em Bexhill. A partir daí, começa uma grande caçada em busca do louco assassino em série, que possui como únicas características identificadas o fato de sempre deixar um exemplar do ABC junto a suas vítimas (que não possuem nenhuma relação entre si) e de sempre antecipar o próximo crime em um bilhete enviado ao detetive. Os assassinatos parecem seguir uma estranha sequência alfabética, em que as vítimas possuem as mesmas iniciais da cidade onde moram. E caberá a Poirot, acompanhado de seu fiel amigo capitão Hastings e dos inspetores da Scotland Yard, descobrir a identidade do assassino e por que ele está matando aquelas determinadas pessoas. E por qual razão o escolhera para ser o destinatário de suas cartas! Será ele apenas um maníaco homicida?

Opinião

Minha expectativa era grande para este primeiro encontro com a Rainha do Crime. E posso dizer que não me decepcionei. Sua literatura é simples e eficiente! Por “simples”, refiro-me ao seu modo de escrever. O mistério por trás da trama é fantástico. Os crimes ABC é um livro de 256 páginas e dividido em 35 capítulos. Ou seja, é uma composição de capítulos todos muito curtos, o que faz com que a leitura seja rápida. A linguagem utilizada, apesar de ter ares mais formais – lembrem-se de que a obra foi escrita em 1936! –, é bem tranquila, sem rebuscamentos, o que também facilita a apreciação.

A trama criada por Agatha Christie é boa e forte. Diferentemente dos romances policiais/thrillers que estou acostumada a ler, aqui o foco principal não está sobre as vítimas e seus círculos sociais, mas sim na figura do detetive da história. Hercule Poirot, um homem já experiente, é descrito como metódico, observador, discreto, confiante e muito inteligente. É sob sua perspectiva e suas investigações que a história é contada e vai se desenrolando – apesar de ser narrada, na verdade, por seu amigo Hastings.

A leitura é fluida e corre bem, não é enfadonha. Pelo contrário, te aguça e faz querer ler tudo no mesmo dia – até por tratar-se de um livro razoavelmente pequeno. Agatha constrói uma trama satisfatória, com uma boa quantidade de elementos narrativos, personagens misteriosos e uma agradável reviravolta (no meio do livro, por conta de uma única fala, eu desconfiei de quem era o assassino e acertei, mas o final foi bem construído e não deixou de ser surpreendente). Confesso que senti um pouco de falta, no entanto, de mais ação propriamente dita e emoção no decorrer da história. As últimas dez páginas, mais ou menos, trazem toda a genialidade de Poirot, que, mesmo com pouquíssimos detalhes, consegue desvendar o caso por completo. Mas, no restante todo, o que se vê é um detetive de poucas palavras realmente importantes, que passa mais tempo refletindo – como bem diz para Hastings em algumas ocasiões – do que em atividade de fato. Achei-o um pouco apagado, em relação a tudo o que sempre ouvi – mas inegavelmente prodigioso. Além disso, vale registrar que a autora não se deteve em construir a fundo o lado psicológico de cada personagem. Conhecemos muito pouco das vítimas. No entanto, talvez seja um estilo de suas obras mesmo, que focam mais nas investigações policiais do que na parte humana/psicológica em si, o que não é nenhum demérito literário. Serei capaz de perceber melhor seu estilo nos próximos livros, que lerei com toda a certeza.

Por fim, queria registrar alguns comentários técnicos sobre a edição da Nova Fronteira, a que eu li. A capa dura, algo que dá um ar imponente e clássico, combinou com Agatha Christie. A seriedade é quebrada, no entanto, por sua ilustração, bem colorida e com um sabor bem jovial, pueril. Gostei, achei uma graça! A diagramação do miolo (o interior do livro) é bem padrão comercialmente e funciona de maneira satisfatória. A escolha do papel também acho que foi acertada – aquele “amarelinho”, sabe? Minha única ressalva fica por conta do tratamento com o texto, que poderia ter sido melhor. É a coisa mais natural passarem alguns errinhos em livros, eu bem sei disso. Mas encontrei uma quantidade razoável de pequenos problemas, desde erros de digitação a palavras escritas equivocadamente mesmo. Fica a observação para reedições. 😉

Nota

Para a trama de Agatha Christie Os crimes ABC, dou nota 9/10. Acho que, para sua proposta literária, a narrativa cumpre muito bem e é, sem dúvidas, uma leitura agradável, além de ter um enredo excelente. Eu gostei e lerei outros, para poder analisar melhor o estilo da autora. Esperava um pouquinho mais do livro em termos de emoção e movimento no início e no meio, principalmente por parte de Poirot, como disse acima, mas nada que diminua o meu apreço.

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Abrindo o livro (O Eu Literário)

Ficha do livro

Título: Os crimes ABC
Autora: Agatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 256
Ano: 2015
Edição: 1ª

 

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Miolo (O Eu Literário)

“A vítima perfeita” e “Objetos cortantes”: a centralidade das personagens femininas

Olá, queridos!

Começo pedindo desculpa pela longa ausência de postagens do blog; é que estive (ainda estou, na verdade) com problemas pessoais. Mas para mostrar que as atividades por aqui não acabaram, trago agora um post novo, sobre duas de minhas últimas leituras: romances policiais com thriller psicológico, com muito suspense, mistério, investigação e segredos a serem descobertos – meu tipo de leitura “favoritaço”, eu confesso!

Os dois escolhidos foram A vítima perfeita (Rocco, 2015, 432 p.), de Sophie Hannan, e Objetos cortantes (Intrínseca, 2015, 256 p.), de Gillian Flynn. Ambos possuem histórias totalmente diferentes, mas o fio da navalha é semelhante: protagonistas que se veem em meio a um mistério policial, envolvendo sumiços/mortes, e que saem em busca de pistas para desvendar e compreender o que aconteceu. Ah, e que se descobrem partes integrantes daqueles quebra-cabeças, muito mais do que podiam imaginar. Clichê dos romances policiais/thrillers psicológicos – dois gêneros que costumam ser inter-relacionados. Algo, no entanto, se destacou para mim: nas duas obras, essas personagens principais são mulheres – e que possuem alguma fragilidade psicológica e emocional proveniente de um grande trauma do passado, mas se mostram autônomas e suficientemente fortes para enfrentarem seus desafios. Veio-me a reflexão: por que em boa parte das vezes as personagens mais exploradas nesses livros têm sido mulheres?

A vítima perfeita, Objetos cortantes e seus personagens (ops, SUAS!)

Em A vítima perfeita, Hannah traz três personagens femininas comandando a história, por diferentes ângulos e direções. Naomi Jenkins, uma jovem empreendedora independente e bem-sucedida, a grande protagonista da trama, que carrega um segredo trágico de seu passado e se entrega à paixão nos braços de um desconhecido que mantém com ela um caso extraconjugal; a sargento-detetive Charlie Zailer, policial astuta e que comanda uma equipe masculina, mas que aparentemente não se dá muito bem na vida amorosa; e Juliet Haworth, a esposa do amante de Naomi, que é descrita por ele à namorada como muito frágil e dependente. Após se relacionar por um ano com o caminhoneiro Robert Haworth, encontrando-o sempre uma vez por semana em um mesmo quarto de hotel simplório, Naomi fica muito preocupada e desconfiada quando, em uma determinada quinta-feira, ele simplesmente não aparece, não avisa e não dá mais nenhum sinal. A partir daí, a história se desenvolve. Naomi fica sem entender o sumiço do amante e resolve ir procurá-lo na residência do casal, mesmo ele sempre tendo feito-a prometer que jamais iria aparecer por lá. Sem encontrá-lo (mas vendo seu caminhão estacionado na porta), e dando de cara com uma fria e misteriosa Juliet, apela para a polícia, que não dá muito crédito ao desespero da mulher, acreditando se tratar de um mero caso amoroso em que o cara decidiu largar a amante. Desesperada, Naomi resolve, então, inventar uma história na tentativa de chamar atenção dos policiais para o caso. Mas o que era uma parcial invenção vai se revelando não tão falso como ela imaginava. Apesar de a trama girar aparentemente em torno do desaparecimento de Robert, quem dá as cartas é mesmo a trinca de mulheres durante todo o tempo.

Agora vejam que coincidência. Em Objetos cortantes, novamente me deparei com três personagens femininas desenovelando a trama. Três fortes, enigmáticas e obscuras mulheres. Gillian Flynn nos apresenta a protagonista Camille Preaker, uma mulher na casa dos 20 e muitos anos, bastante fechada e fragilizada, recém-saída de uma clínica psiquiátrica onde passou um tempo internada em virtude de praticar automutilação. Camille mora sozinha, longe da família, e não possui uma boa relação com a mãe. É jornalista de um impresso de pouco prestígio e se considera uma pessoa medíocre. Para o seu azar, o chefe lhe manda passar uns dias em sua cidade natal, a pequena e pacata Wind Gap, onde a jovem não vai há muitos anos, a fim de conseguir uma supermatéria para o jornal, investigando o estranho desaparecimento de uma criança na localidade. Apesar de ficar assombrada com a ideia, ela aceita, para provar ao seu chefe – e principalmente a si mesma – que é capaz de enfrentar esse desafio em busca do sucesso profissional. Daí em diante, Camille acaba se vendo de volta ao seu passado – e obrigada a morar novamente com a mãe, na casa onde cresceu. Na residência, vivem Adora, uma dona de casa elegante, que faz a linha mãe superprotetora com a filha caçula, Amma (meia-irmã de Camille), mas que parece desconfortável com a presença da primogênita, e ainda sente-se perturbada pela morte precoce da filha do meio, Marian, falecida antes do nascimento da mais nova; o padrasto de Camille, Alan, uma figura absolutamente insossa, vazia e inexpressiva, que vive às sombras de Adora e de Amma; e a tal meia-irmã, de 13 anos, uma adolescente dúbia, provocativa e misteriosa, que se comporta como uma criança, ou melhor, como a boneca da mamãe, em casa, e como uma mulher imponente e insinuante na rua, a típica líder das mean girls do colégio – e com quem a jornalista nunca tivera contato, a bem dizer, antes de voltar agora à sua cidade. Enquanto Camille investiga os fatos em busca de notícias sobre o desaparecimento para suas matérias, percebe que este está relacionado com outro desaparecimento seguido de homicídio de uma garotinha no ano anterior, e se vê novamente envolta em sua complexa e conturbada teia familiar, mais uma vez imersa em seu passado. As descobertas que surgem são capazes de mudar toda a sua vida.

A força das personagens femininas

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

Parece que trabalhar com personagens femininas em thrillers psicológicos e romances policiais dá certo. Mulheres que reúnem inúmeras complexidades emocionais, capazes de passar por traumas profundos e superá-los, tocar a vida, camuflar as cicatrizes e ser, inclusive, profissionais descoladas e muito bem-sucedidas, independentes, como no caso de Naomi Jenkins. Outras que, devido a toda uma infância e juventude muito conturbadas, possuem traumas muito enraizados, problemas emocionais que de tão profundos afloram na pele, mas que, com um esforço maior do que se pode imaginar, seguem vivendo – ou sobrevivendo –, e ainda se veem capazes de se deixar emaranhar pelos fios familiares novamente, como ocorre com Camille Preaker, em nome do comprometimento profissional. Se em A vítima perfeita o foco fica mais na história policial em si, com desaparecimentos, buscas, investigação, segredos, descobertas, ação e reviravoltas, Objetos cortantes prioriza as relações humanas e psicológicas. Flynn mergulha mais fundo na psique humana e explora o lado obscuro das pessoas, os efeitos emocionais que cada acontecimento pode gerar no indivíduo, e nos mostra, com detalhes muito bem trabalhados, doentes relações familiares. Uma em maior e outra em menor profundidade, essas autoras desnudam as inúmeras camadas emocionais e psicológicas de personagens fortes, independentes e muito distintas entre si, mas que compartilham de traumas que as afetaram definitivamente. Mulheres comuns, do dia a dia, com dramas semelhantes aos de muitas nós, com certeza (e infelizmente, porque o número de estupros, crime cometido contra uma das personagens, é enorme). Mas o principal: mulheres que fogem daquele antigo estereótipo feminino, das simples e meramente frágeis, resignadas a participações secundárias, as que serviam mais para ilustrar (ou serem vítimas). Aqui, o papel muda. Mostram-se mulheres no ápice de suas possibilidades. Vítimas de dramas, mas donas de suas próprias vidas. Mocinhas e vilãs (de si mesmas). Repletas de faces. Protagonistas. E não mais só de romances água com açúcar.

Mas por que será que personagens femininas têm feito tanto sucesso em tramas complexas, psicológicas, policiais, profundas e cheias de reviravoltas de um tempo para cá? Por que é cada vez mais comum encontrarmos Naomis e Camilles em thrillers na literatura? Lembro, por exemplo, que outros dois conhecidos livros do gênero escritos pela própria Gillian Flynn, Garota exemplar e Lugares escuros, também são centrados em personagens mulheres. Ok, as autoras são também mulheres, talvez suas escolhas sejam uma mera questão de identificação, de maior conhecimento humano, de sororidade. Mas me parece que a graça (e a força emotiva) tem estado em nós! (risos) Mas sem aquele clichê de que é porque “mulheres são complicadas”, e por isso combinam com personagens “confusas”, né? Talvez consigamos explorar mais – sem generalizações e sem sexismo, por favor – nossas várias e possíveis camadas psicológicas e acessar mais de uma emoção ao mesmo tempo. Sensibilidade aguçada. O que, é claro, rende personagens potenciais. Além disso, acho que o contexto social do mundo tem sua parcela nessa mudança de paradigmas literários também. Se a mulher tem conquistado, à base de muita luta, seu lugar na sociedade, em busca da igualdade de gêneros, parece que o mesmo está refletindo na literatura. E muito me agrada.

Mas, é preciso ter cuidado…

Houve, no entanto, detalhes que me causaram certo incômodo nos dois livros, justamente relacionados ao fato de as histórias serem pautadas em personagens femininas: presença de machismo. Algo que pode ter sido inserido nas duas narrativas pelas autoras justamente como uma forma de chamar atenção para tais coisas que acontecem na sociedade e que precisam ser encaradas de forma diferente, precisam acabar; ou seja, talvez, e até possivelmente, tenham sido escritos como forma de crítica mesmo, de repúdio. Mas o fato é que me nausearam.

Naomi Jenkins foi estuprada e parece tratar disso como se ser considerada uma vítima fosse um erro. Ela não se considera “vítima”, nem “sobrevivente”, e mesmo que a postura da personagem seja apenas uma forma autodefensiva para tentar se proteger de todo o sofrimento pelo qual passou, confesso que algo em seu comportamento gerou um incômodo em mim. Não sei especificar exatamente o quê. Talvez uma mistura de conformidade com muitos questionamentos do tipo “Será que eu fiz algo para merecer?”. Em contrapartida, senti falta de um discurso contrário no livro. Tentei pensar pela cabeça dela, e acho que pode ser normal esse tipo de pensamento em uma mulher que sofreu uma violência tão brutal como essa. Como ela mesma diz em um trecho, talvez quanto menos se fale naquilo, menos busque-se enfrentar, menos real aquilo pareça ter sido. Uma forma de escapismo. Mesmo assim, em muitas páginas eu tinha vontade de gritar para ela: “Miga, você é vítima, sim! Não é questão de ‘se vitimizar’, é um fato, trata-se de um crime do qual você foi a vítima. A culpa de nada disso que você sofreu é sua; a culpa nunca é da pessoa estuprada, mas tão somente do ser que cometeu o estupro! Força, não se envergonhe. Estamos com você!”. A cultura do estupro existe, e acho que deve, sempre e sempre, ser tão somente combatida, e pensamentos de negação, conformismo e culpabilização da vítima, repelidos. Inclusive na literatura.

Já na trama de Objetos cortantes, o machismo se expressou de outras maneiras, mais explícitas. A típica cidade pequena, cheia de preconceitos e com comportamentos estigmatizados. Garotas adolescentes que transam como forma de status e são tratadas como objetos sexuais, e mulheres que são tratadas como enfeites e criadas para serem mães e donas de casa. Há uma cena especialmente forte para mim nesse sentido, que mostra como o machismo está enraizado naquela sociedade, em práticas, pensamentos e hábitos que não o detectam e o consideram normal: o momento em que Camille conta para o jovem policial Richard, que é de uma cidade grande e está em Wind Gap investigando os casos dos desaparecimentos e mortes das menininhas, como foi a primeira vez de uma garota de sua turma na época do colégio. A adolescente, que na verdade era ela, ficara bêbada e então transara com “quatro ou cinco” caras do time de futebol seguidamente, sendo passada de um para outro. Ao ouvir, Richard se choca e pergunta se a jovem chegara a prestar queixa de estupro na polícia, pois era isso que havia acontecido. E Camille reage dizendo que só porque a garota transara com vários, bêbada, não quer dizer que tenha sido uma vítima ou que precisasse ser “cuidada”. E chama o policial de machista por pensar isso. Se há elementos importantes na fala da protagonista, sobre mulheres terem direito a fazer o que bem entenderem com o próprio corpo e terem liberdade para transar com quantos quiserem, há também, nitidamente, uma deturpação no discurso, uma visão distorcida sobre tudo isso.

Para não prolongar mais (e nem dar muitas informações e detalhes sobre as histórias), acho que por mais que as intenções das autoras possam ter sido alertar e dar luz a fatos que necessitam de atenção, a impressão que ficou para mim é de que faltou um pouco de tato nesse aspecto. Personagens centrais femininas, mostrando as inúmeras possibilidades psicológicas, comportamentais e sociais de mulheres, são maravilhosas. Mas é preciso ter certo cuidado com a forma de abordagem de determinados estereótipos, para combater mais o machismo, e não corroborar com ele de forma alguma.

(Foto: O Eu Literário)

(Foto: O Eu Literário)

Notas para os livros

Gostei de ambas as leituras. Como aprecio o lado psicológico de personagens, achei que essa parte foi bem explorada e desenrolada em Objetos cortantes e gostei disso. No entanto, em relação ao enredo do livro como um todo, senti falta de mais ação investigativa e policial. O final, apesar de ter uma boa proposta, parece que foi cuspido nas últimas páginas às pressas. Perdeu pontos por isso. Eu daria nota 7,5/10. Já em A vítima perfeita, Sophie Hannan conseguiu construir satisfatoriamente um conjugado de fatos que se interligam, com descobertas que vêm em um ritmo bom, sem deixar nenhuma parte enfadonha. Tem investigação, tem bastante ação, tem suspense; e não deixa de ter um lado humano das personagens, apesar de não ter sido explorado aqui em tanta profundidade. Acho que se a autora tivesse destrinchado mais a protagonista, Naomi, e Juliet, penetrando-as mais, o livro poderia ter sido ainda melhor. Achei-as meio apática – apesar de fazer sentido que elas sejam assim. Dou 8,5/10. E recomendo os dois livros! 😉