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“Lugares escuros” e a sombria psique humana

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Sinopse

Desde que perdeu a mãe e as duas irmãs mais velhas, mortas em um trágico massacre ocorrido dentro da própria casa quando tinha apenas 7 anos, Libby Day colecionou dias de mera sobrevivência, vazios e opacos. O principal suspeito pelos assassinatos foi o próprio irmão, Ben Day, o mais velho dos filhos, à época um jovem adolescente, preso desde então. Vinte e quatro anos depois, Libby se vê sem dinheiro nenhum e resolve vender sua presença, seu relato e algumas lembranças da infância relacionadas à família para um clube de aficionados por crimes – o Kill Club. A partir dessa iniciativa nada nobre, ela percebe-se de volta ao passado, do qual fugiu sempre, e resolve enfim enfrentar todos aqueles acontecimentos (pela primeira vez), a fim de descobrir se realmente foi seu irmão o assassino dos Day.

Opinião e comentários

Este é o segundo livro da americana Gillian Flynn, que já tinha escrito Objetos cortantes [crítica sobre este aqui: “‘A vítima perfeita’ e ‘Objetos cortantes’: a centralidade das personagens femininas”], e achei palpável a evolução narrativa. Aqui, ela reafirma seu refinado talento para a tessitura de tramas psicológicas, com grande foco na construção de personagens complexos, densos e cheios de traumas e feridas. E femininos.

Em Lugares escuros, achei os personagens especialmente frios. Libby, a protagonista, apesar de toda a história triste e comovente que carrega, não consegue causar grande empatia no leitor. Ela é solitária, muito fechada e interesseira. Os personagens, de uma maneira geral, têm essas mesmas características. Ninguém é mocinha ou mocinho, daquela forma clássica (e irreal, né, não custa lembrar). O livro retrata a humanidade e seu egocentrismo, que de fato guarda pouca empatia entre as pessoas.

A obra é dividida em três linhas narrativas: uma nos dias atuais, na voz de Libby, e duas na época dos crimes, sob a perspectiva de Patty, a mãe, e Ben, o irmão. Essa foi uma escolha que funcionou bastante; os três fios correm muito bem, com ótimas amarras. As narrativas de Patty e Ben, principalmente, complementam-se perfeitamente no decorrer das páginas (não de cara, mas gradativamente ao longo dos capítulos). A única ressalva, aliás, a meu ver, fica por conta disso: o início do livro é meio lento, a história demora a engrenar. Podia ter mais emoção.

Passada em um vilarejo do interior dos Estados Unidos, a trama reproduz preconceitos – principalmente nas partes narradas na década de 1980 – e machismo. A família pobre que é humilhada, os jovens punks acusados de serem satanistas, a mãe divorciada discriminada e difamada, sendo considerada, inclusive, prostituta. Bons motes para discussões e reflexões. Mais um ponto.

O suspense psicológico criado por Flynn em Lugares escuros muito me agradou também. Há diversos elementos e personagens envolvidos no enredo, e o clima de tensão se mantém até o fim. A autora desenvolveu a história melhor desta vez, principalmente o fim, que foi trabalhado com calma – diferentemente de Objetos cortantes, que deixa o leitor com a sensação de que as últimas páginas foram cuspidas. Aliás, mais pontos para Flynn, porque o desfecho é uma baita virada, inovador e surpreendente. Ao longo do livro, ela dá pistas sobre o que viria pela frente, algo que acho importante para dar credibilidade. Por isso, mesmo sendo um pouco imprevisível (mas eu tinha essa suspeita, há!), é um fim bem construído e muito satisfatório, na minha opinião.

Além do início lento, como disse, a única coisa que achei não ter funcionado tão bem foi o Kill Club, cuja participação podia ter sido mais bem explorada, e não foi. Pelo contrário: rendeu uma partezinha meio monótona (e é ainda no início do livro, o que reforça o primeiro comentário). Mas isso não chega a prejudicar a leitura nem o interesse pela trama, que merece ser lida.

Nota

9/10. Gostei muito. 😉

Obs.: Há um filme baseado no livro, protagonizado pela Charlize Theron. É até legalzinho, mas, para quem leu, fraco.

Obs. 2: Como comentei mais acima, essa é realmente uma autora que tem se destacado na literatura feminina, com grandes personagens mulheres, que quebram os estereótipos de simplesmente frágeis, ou simplesmente mocinhas, ou simplesmente qualquer coisa delicada. Ou mesmo daquelas personagenzonas femininas fodonas que fazem e acontecem. Flynn mais uma vez dá luz a uma protagonista complexa e profunda, mocinha e vilã de si mesma, com força e destaque, mas também cheia de defeitos. Afinal, por que diminuir a mulher em uma só coisa se ela pode ser tão mais, não é mesmo? Pode ser real e interessante. Por isso, mais Flynns no mercado de livros!

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Primeira do ano: “Não conte a ninguém”

Feliz Ano-Novo!

O sumiço foi grande, as atribulações pessoais e profissionais, muitas, tem um monte de postagens atrasadas – que ainda pretendo fazer! -, mas, como estou em uns diazinhos de férias na praia, nada como uma leitura para começar o ano bem, né? E já foi concluída a primeira de 2017. Então, por que não furar a fila e mandar logo uma breve resenha de Não conte a ninguém, do badalado Harlan Coben? Vamos a ela!

Quem acompanha o blog já deve saber que sou apaixonada por thrillers. Os meus preferidos são os psicológicos. Eu não conhecia muito o estilo de Coben, só via seu nome com frequência por aí e lia ótimas críticas sobre seus livros de mistério e suspense – ou seja, era hora de me encontrar com ele. A sinopse desse livro me chamou atenção e despertou meu interesse. Depois, descobri que se trata de sua obra mais consagrada. Li em duas sentadas (é razoavelmente curto, tem 250 páginas) e gostei muito.

Sinopse

Há oito anos, enquanto comemoravam o aniversário de seu primeiro beijo, o Dr. David Beck e sua esposa, Elizabeth, sofreram um terrível ataque. Ele foi golpeado e caiu no lago, inconsciente. Ela foi raptada e brutalmente assassinada por um serial killer. O caso volta à tona quando a polícia encontra dois corpos enterrados perto do local do crime, junto com o taco de beisebol usado para nocautear David. Ao mesmo tempo, o médico recebe um misterioso e-mail, que, aparentemente, só pode ter sido enviado por sua esposa. Esses novos fatos fazem ressurgir inúmeras perguntas sem respostas: como David conseguiu sair do lago? Elizabeth está viva? E, se estiver, de quem era o corpo enterrado oito anos antes? Por que ela demorou tanto para entrar em contato com o marido? Na mira do FBI como principal suspeito da morte da esposa e caçado por um perigosíssimo assassino de aluguel, David Beck contará apenas com o apoio de sua melhor amiga, a modelo Shauna, da célebre advogada Hester Crimstein e de um traficante de drogas para descobrir toda a verdade e provar a sua inocência.

Opinião

Eita, livro rápido! Eu ainda não conheço o estilo do autor, visto que foi minha primeira leitura dele, mas, ao menos por Não conte a ninguém, posso dizer que ele é muito perspicaz, criativo e eficiente. A trama vai se desenrolando em uma simplicidade que impressiona. Ao contrário da enorme maioria de histórias por aí, não tem – realmente não tem – encheção de linguiça. A todo momento, algo novo acontece, um fato inédito surge.

A narrativa é contada na primeira e na terceira pessoas. Os pontos de vista são intercalados de maneira irregular: às vezes, acompanhamos tudo pela ótica de Beck, o protagonista (e é nestes momentos que ocorre a primeira pessoa); outras vezes, pela do narrador-observador, que cada hora relata os passos e pensamentos de cada um dos demais personagens – mas cada um em seu intervalo distinto, é bem delineada a marcação de perspectivas. Isso é uma ferramenta de escrita muito comum na literatura policial, e Coben faz uso dela muito bem. Contribui bastante para o ritmo acelerado e instigante da trama. Até porque, como falei, não tem nenhum espaço para a monotonia, já que ele construiu um livro tão irrigado de mistérios e surpresas.

Outro fator relevante é que desde o início sabemos quem é o matador de aluguel citado na sinopse, quem é o contratante e também acompanhamos os seus passos. A grande questão é o que motivou tudo o que fizeram. O que aconteceu paralelo a tudo aquilo. E é aí que a criatividade de Coben fez ótimos voos.

Bom, como sou uma grande apreciadora dos thrillers psicológicos, confesso que senti um pouquinho de falta das construções psicológicas, das reflexões sociais e psíquicas mais aprofundadas que aquelas obras proporcionam. Tipo Gillian Flynn. Mas, tudo bem, percebi logo que aqui o traço é diferente, é mais objetivo e mais focado nas reviravoltas e nas ações – que não são poucas. É muita ação mesmo! Tampouco, também, é um livro que foca nos policiais, como a Rainha do Crime; eles são meros coadjuvantes. As investigações acontecem, mas são mais sutis. Pouca elucubração e muita ação.

Como não há tanta preocupação com a construção dos personagens, é mais difícil rolar aquelas identificações pessoais. Além disso, nosso protagonista é muito reservado, um tanto apático – pudera, sofreu um grande trauma ao perder a esposa, vítima de um atentato/sequestro, e ainda se culpa por isso -, o que dificulta isso ainda mais. Para alguns, talvez esse seja um ponto negativo do livro. Para mim, não chegou a ser. Encarei como o estilo do autor mesmo, como comentei, e foquei na plot. Ainda consegui me afeiçoar a ele por um ponto sutil, mas muito importante: apesar de ter sido escrito em 2001, o que acredito que ajude a afastá-lo das discussões sociais mais atuais, o personagem já traz uns pensamentos bacaninhas sobre Alerta Machismo, o que é sempre legal!

Nota

Leitura soft, rápida, gostosa e que não deixa a gente largar o livro. Para quem gosta de mistérios, desaparecimentos, assassinatos e reviravoltas, superindico! Dou nota 9,5/10,0. Um ponto negativo? Não chega a ser negativo, mas no último terço do livro rola tanta reviravolta que o leitor quase se perde. É bacana, você fica até a última página do livro na apreensão e na expectativa. Mas, ao fim, fiquei com uma sensaçãozinha de que se o autor tivesse se preocupado um tiquinho menos com a criação de tantas coisas, a trama talvez pudesse ter ficado um pouco mais consistente. Sem surgir aquela pergunta “Mas se ele sabia disso desde sempre, como não desconfiou de nada nunca e aceitou tudo ‘numa boa’?”. Mas está ok, tá, Coben? Adorei você e vou ler mais.

Beijos, amores :*

Preparador: o profissional ignoto

Outrora, publiquei que o revisor é um profissional invisível e expliquei os motivos (ver aqui). Todos concordaram. No entanto, apesar de sua “invisibilidade”, provavelmente boa parte dos leitores já ouviu falar dessa função – ainda que não a conheça muito bem. “Revisor” é um nome comum. Hoje, chegou a vez de falar sobre um profissional que, além de invisível, é ignoto, realmente desconhecido do grande público: o preparador.

Quê? Oi? Preparador? Nunca ouvi falar dessa função. Ele prepara o quê?

Ele prepara originais, meu povo. O preparador (de texto) nada mais é que um revisor também. Acontece que, dentro da editoração, existem diversas etapas, divididas entre muitos profissionais. Por isso, existe uma diferenciação entre tipos de revisor. Assim, convencionou-se chamar, dentro do universo editorial, de revisor a pessoa que revisa o livro já no papel, quando este já foi diagramado, e de preparador a criatura que revisa o texto quando este ainda está no início do processo, normalmente no Word, e não passou por nenhum tratamento. Ou seja, a formação de ambos é a mesma, por isso muitas vezes o profissional trabalha como preparador e como revisor também, só que em livros distintos. No entanto, cada função guarda algumas peculiaridades, e é importante que haja uma clara orientação sobre o que se espera de cada uma (cabe à editora ou ao cliente dar esse briefing).

Imagem do livro A construção do livro, de Emanul Araújo, 2ª edição, 2008, p.59 (Foto: O Eu Literário)

Imagem de A construção do livro, de Emanuel Araújo, 2ª edição, 2008, p. 59 (Foto: O Eu Literário)

Ok, entendi. Mas, afinal, o que exatamente faz o preparador?

O preparador é quem faz a primeira leitura integral do texto; o responsável pela primeira revisão. Normalmente, o original do futuro livro chega às editoras em Word, como mencionado, e é sobre este arquivo que é feita a preparação. Ela visa à correção do conteúdo, de acordo com a língua portuguesa, e à normatização do material, tendo como base o manual de edição da editora. Ou seja, tudo aquilo que o revisor faz, como vocês já leram a esta altura no outro post, o preparador faz também. Vamos às principais diferenças entre um e outro, então:*

  • cabe ao preparador a revisão mais profunda e mais hard; ao revisor (de provas diagramadas), a última leitura, para pegar pastéis e acertar últimas arestas;
  • a principal preocupação do preparador está com o conteúdo: se este está claro, coerente e coeso, se as ideias e frases estão bem encadeadas, se os parágrafos seguem uma ordem lógica, se o estilo segue uma unidade ao longo de todo o livro; ao chegar na revisão, por mais que seja essencial que o profissional ainda esteja atento a esses itens, entende-se que a estrutura e o conteúdo estejam ok já, por isso a principal preocupação do revisor é checar a forma mesmo: como o material já foi diagramado, é necessário que ele observe se a diagramação está seguindo os mesmos padrões, se as quebras de linha estão boas, se os títulos nos capítulos (e nos cabeços) conferem com os que aparecem no sumário etc.;
  • enquanto as emendas do preparador tendem a ser maiores e mais delicadas, com inversões de frases e trechos reescritos, as do revisor tendem a ser mais pontuais, já que o livro chega bem mais limpo, sobrando apenas alguns erros de pontuação, digitação e acentuação, por exemplo – isso na teoria e no ideal dos mundos, claro;
  • faz parte do que se espera de um bom preparador que ele confira nomes, datas e informações que apareçam no texto, principalmente no caso de obras de não ficção, por meio de pesquisas na internet; esta não é uma função do revisor – a menos que ele note algo que lhe pareça equivocado;
  • se a obra for estrangeira, quer dizer que, antes da preparação, ela já passou pela tradução. Nesses casos, cabe ao preparador, e não ao revisor, o cotejo com o original para checar se há saltos ou problemas;
  • e por último, mas tão fundamental quanto: o preparador deve corrigir erros ortográficos e gramaticais e estabelecer padronizações no texto (quando usar caixa-alta e caxa-baixa, itálico ou aspas) visando sempre à uniformidade; o revisor precisa checar se tudo isso foi feito direitinho e acertar o que precisar de ajustes.

Como vocês perceberam, apesar de ser a mesma profissão, são diferentes funções. A premissa é a mesma e uma completa a outra no processo editorial, mas é importantíssimo que se estabeleçam as atividades e o trabalho esperados de cada um.

O preparador, além de meramente revisar o texto, guarda uma tarefa delicada: pensar o livro e ver se ele está funcionando bem para aquilo que se propõe. Na imagem acima, Araújo cita “preparador” e “editor” de maneira meio híbrida, como se não ficasse absolutamente claro a quem ele está se referindo. A meu ver, é um pouco por isto: quando uma preparação é bem-feita, o preparador atuou um pouco como editor também, pois apontou coisas que não estavam bacanas, sugeriu alterações estruturais para serem vistas com o editor ou com o autor, se preocupou em observar que o capítulo 2 parece ter sido colocado no momento errado do texto e ficaria melhor ao fim, na verdade, por exemplo. Não é à toa que a preparação vem antes da revisão e da diagramação. É uma pena, apenas, que bons preparadores não seja tão fáceis de se encontrar…

 

Bônus: Há, ainda, dois outros tipos de revisor muito conhecidos dentro do mundo editorial: o copidesque e o revisor técnico. O primeiro, em muitos lugares, é tido como um preparador. Eu, no entanto, considero que há uma pequena diferença entre preparador e copi: este último não aglutina essa característica de editor que citei. Já o revisor técnico é requerido apenas para alguns livros especiais, normalmente textos de não ficção de conteúdo muito acadêmico e específico, e esse profissional deve ser alguém muito ligado ao universo do livro, pois sua função é conferir total e completamente o conteúdo em si, fazer pesquisas aprofundadas, algo com que um preparador não precisa se preocupar tanto assim.

* As diferenças de cada função devem ser checadas com cada casa editorial e/ou cada cliente, porque isso é algo que varia muito de lugar para lugar. Esta é apenas uma visão geral e baseada nas minhas próprias experiências.

Wishlist literária, oba!

É Natal, é Natal, um Feliz Natal! Quem quer “desculpa” para montar uma wishlist de livros levanta a mão. \o/

Como mencionei em um dos primeiros posts aqui do blog, andei um longo tempo afastada da leitura por hobby em virtude de motivos diversos e pessoais, apesar de livros sempre terem sido um objeto de encanto para mim. Nos últimos meses, me reaproximei desse mundo, meu mundo :), e desde então voltei a ficar vendo e pesquisando várias obras. Ao longo das últimas semanas, já havia alguns títulos que eu estava almejando, mas movida pela proximidade do fim de ano e pelas famosas “wishlists“, dei uma incrementada para formar a minha lista de desejos literários.

Portanto, amigos e familiares que quiserem me presentear e estiverem sem ideias, ficam as dicas, tá? (rs)

 

MINHA LISTA DE DESEJOS LITERÁRIOS:

e não sobrou nenhum

lugares escuros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

suicidas1

dias perfeitos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

joyland

criança 44

 

 

 

 

 

 

 

 

sombras de um crime

não conte a ninguém

 

 

 

 

 

 

 

 

(Todas as imagens são as das capas)

Menções honrosas (leia-se: títulos que não estão entre os que eu mais desejo, mas também os quero): Desejo proibido, de Sophie Jackson (editora Arqueiro); A garota no trem, de Paula Hawkins (Grupo Editorial Record); e O chamado do Cuco, de Robert Galbraith [J. K. Rowling] (Rocco).

O que acharam dos meus escolhidos? Quais são os livros que vocês mais estão cobiçando neste fim de ano?

Lembrando sempre que comprar e ganhar livros é ótimo, mas, especialmente nesta época, é muito bacana também doar. ❤

Beijinhos, queridos

 

TOP 10: erros mais comuns que o revisor encontra

Revisar um livro não é tarefa molezinha. Não basta se guiar pelas “correções” do Word – até porque ele indica coisas equivocadas muitas vezes, fica a dica. É preciso ler o texto como um todo, para compreender o seu sentido, perceber qual é o estilo dos autores, ter uma boa noção do pé em que ele está. Depois, lê-lo minuciosamente, com atenção multiplicada, pois cada parágrafo, frase e palavra requerem cuidado. É responsabilidade do revisor corrigir erros ortográficos, como trocar “excessão” por “exceção”; erros de digitação, porque é muito comum a gente acabar torcando as letas [sic]; acertar concordâncias nominais e verbais, regências, acentos sobrando ou faltando; ficar ligado se os autores estão sendo bem-sucedidos em transmitir a ideia que pretendem, ou seja, checar a coerência e a coesão textuais de cada trecho; e editar o material de modo que ele fique totalmente alinhado ao manual adotado pela editora que publicará o livro (cada casa editorial segue seu próprio manual, com escolhas editorias sobre formato de referências, bibliografia, uso de itálico, negrito, sublinhado e aspas, maiúsculas e minúsculas etc.).

Em suma, esse é o trabalho do revisor. Mas, após algumas revisões, a gente percebe que alguns erros são mais comuns que outros, né? Montei, então, meu próprio TOP 10 dos deslizes mais frequentes em textos que reviso. Sempre bacana para nos ligarmos também. Ninguém está imune – nem nós, revisores, também meros mortais. Vamos aos erros, então!

 

Atenção às derrapadas frequentes! (Imagem: O Eu Literário)

Atenção às derrapadas frequentes! (Imagem ilustrativa: O Eu Literário)

 

TOP 10

10º – Porque x por que x porquê x por quê?

É clichê já, mas continua sendo muito comum encontrar erros no uso dos “porquês”. Para simplificar, vamos à regra. “Por que”, separado, é utilizado quando podemos substituí-lo por “por qual razão” – e não somente em perguntas, como muitos acham. Exemplo: Por que ele foi embora? (Por qual razão ele foi embora?) / Eu não sei por que ele chorou. (Eu não sei por qual razão ele chorou.) Já “porque”, junto, pode ser substituído por “pois” ou “uma vez que”; ele exprime ideia causal ou explicativa. Exemplo: Ele chorou porque caiu. / Venha cedo, porque vou sair. O “por quê”, separado e com acento, é simples: sempre que for “por que” no final de frase. Por quê? / Você sabe o por quê. E, finalmente, “porquê”, junto e com acento, apenas quando for valor de substantivo na sentença, ou seja, quando puder ser trocado por “o motivo” (dica: em boa parte das vezes, ele aparece precedido pelo artigo “o”). Exemplo: Qual é o porquê da rejeição? / Não sabemos o porquê.

9º – Tem e vem

Às vezes acontece por falta de atenção mesmo, mas não acentuar a terceira pessoa do plural dos verbos “ter” e “vir” é recorrente. Principalmente quando o autor constrói uma frase em ordem invertida, como no exemplo que aparece na imagem ilustrativa acima. Não custa lembrar: Ele tem um carro. Ele tem dois carros. Eles têm um carro. / Quando eles vêm? Ela vem amanhã. Ou seja, sempre que o sujeito estiver na terceira pessoa do plural, os verbos “ter” e vir” levam acento em sua conjugação.
Bônus: Os verbos que derivam de “ter” (“manter”, “entreter”, “conter”) e de “vir” (“advir”, “provir”, “intervir”) sempre são acentuados na terceira pessoa; no singular, o acento é agudo, e no plural, circunflexo.

8º – Regência verbal de “assistir” e “visar”

Regência verbal trata da relação sintática que liga o verbo ao seu complemento, tem a ver com a sua transitividade. Na prática: alguns verbos não pedem preposição nenhuma ao se ligar ao complemento; outros pedem “a”, “com”, “de” e por aí vai. E é importante saber quando usar cada preposição. Duas regências que causam muita confusão são as dos verbos “assistir” (com o sentido de ver) e “visar” (com o sentido de almejar). Assistir com sentido de ver é transitivo indireto e pede a preposição “a”. Exemplo: Assistir à televisão. O mesmo ocorre com visar. Exemplo: Visa a um emprego melhor. / Visa ao cargo. (E não Visa o cargo, pois a preposição flexiona com o artigo “o”.)
Bônus: Outro caso que pega muita gente em textos é quando há uma construção com a palavra “que” na frase. É importante continuar atento à regência! Por exemplo: A casa que moro é amarela. (Errado, pois o correto é A casa em que moro é amarela.)

7º – Palavras repetidas

Parece banal, mas tente escrever um texto longo sem repetir palavras. Difícil, não? Vira e mexe aparece aquela palavra que não tem sinônimos pertinentes. Quando isso acontecer, o jeito é tentar reescrever a frase, de modo a não precisar mais usar determinado termo ou inverter a ordem. Qualquer alternativa que evite repetições ou que as afaste, pelo menos. (Infelizmente, em alguns casos não tem por onde fugir. Mas, na maioria, dá!)

6º –  Hífen ou não hífen, eis a questão!

A reforma ortográfica entra em vigor em 1º de janeiro de 2016, e um dos itens mais polêmicos é o uso ou não uso do tal do hífen. Muita coisa mudou e vale a pena pesquisar as principais alterações. Não vou destrinchar aqui, porque o objetivo deste post não é ser tão minimalista. O meu destaque fica, então, para duas expressões que vejo erradas com frequência: “mão de obra” e “autoavaliação”. No primeiro caso, não tem mais hífen porque as locuções ligadas por “de” o perderam (mas sempre há exceções, cuidado). No segundo, o hífen também caiu, pois se trata de palavra ligada a um prefixo cujas vogais que “se encostam” são diferentes.

5º – Crase

Grande vilã de uma galera, né? Há muitas regrinhas, mas vou tentar simplificar com algumas das principais dicas. Crase nada mais é do que a conjunção do artigo definido “a” com a preposição “a” – ou com o “a” que inicia pronomes relativos. Para sinalizar a ocorrência desses dois “as” juntos, simboliza-se isso com o acento grave (o fenômeno crase). Dicas: se a crase simboliza a fusão da preposição com o artigo feminino, é sinal de que não se usa o acento grave antes de palavras masculinas. Também não se usa antes de verbos no infinitivo, nem antes de pronomes pessoais, nem no meio de expressões com termos repetidos. Exemplos: Vende-se a prazo. / Fui convidado a me retirar. / Deu o presente a ela. / Ficaram cara a cara.
Bônus: Referente a lugares, há um macete antigo e útil. Se você vai A [algum lugar] e volta DA, crase HÁ. Se vai A e volta DE, crase para quê? 😉 Exemplo: Vou à Bahia. / Vou a Belém.

4º – Citação sem referência

Não é um erro de gramática nem de ortografia, mas é algo que o revisor de livros de não ficção encontra muuuito. Toda fala que você insere em seu trabalho e não é sua, mas de terceiros, precisa estar referenciada. E em casos de citações diretas, aquelas em que reproduzimos exatamente o trecho de outra obra (e usamos aspas), por exemplo, não basta dizer de quem é a fala; temos de citar a fonte original e a página de onde ela foi extraída. Exemplo: Segundo Maria José Pereira Rocha (2004, p. 113) , “a proposta de um feminismo pragmatista se efetiva na tentativa de fazer uma outra leitura, uma aproximação, uma redescrição diferente de homens e mulheres”. [No caso, a referência completa dessa obra citada estaria na bibliografia.]

3º – Onde

“Onde” dá ideia de lugar, e isso gera uma situação equivocada bastante comum: escrever “onde” em vez de “em que”. Exemplos: Onde você mora? (Correto.) / Uma história onde a mocinha morre. (Errado, pois o certo aqui é Uma história em que a mocinha morre.)

2º – Esse x este

Vice-campeão, sem dúvidas. Às vezes, você se pega na dúvida sobre qual usar? Então, se ligue:

Esse/essa/isso – No discurso (no texto), usamos para nos referir a algo, alguma ideia, algum termo que já foi citado anteriormente. Exemplo: Amo ler. Esse hábito me faz bem.

Este/esta/isto – No discurso, seu uso correto é em dois casos. Primeiro, quando já citamos algumas coisas anteriormente e, depois, queremos nos referir à ultima citada. Segundo, quando estamos introduzindo algo que diremos na sequência. Exemplos: Amo uvas, maçãs, bananas e abacaxis. Estes, quando não estão muito ácidos. / É isto que quero lhe dizer: irei para casa.

Bônus: Sabe quando você quer se referir a algo mencionado antes, mais atrás? Ou ao primeiro termo da frase anterior? Opte por “aquele”/”aquela”/”aquilo”. Exemplo: João e Bruno foram à casa da avó. Aquele estava assustado.

1º – Através

Meu eleito! Olha, usar “através” parece que virou um vício de linguagem. É um tal de encaixar essa palavra em todos os contextos imagináveis… Mas preciso alertar: o uso tem sido, na maioria das vezes, indevido. A maneira correta, de acordo com a norma culta da língua, é apenas quando o sentido pretendido é o de atravessar ou por entre. Em casos em que o intuito é dar ideia do meio ou instrumento utilizado, o correto é “por meio” ou “por intermédio”. Exemplos: Ele me viu através da vidraça. / Jogou a bola através da janela. / Começou a namorar por meio de cartas. / Soube da notícia por meio da imprensa.

 

Estão aí os dez erros mais comuns que eu, como revisora, vejo em livros nos quais trabalho. Claro, elenquei os que lembrei, não houve nenhuma pesquisa científica para contabilizar de fato a incidência de cada caso. (risos) Vale lembrar que a língua portuguesa é muito extensa e possui infinitas regras e possibilidades, que variam de acordo com o uso pretendido. Aqui, me baseei na norma culta, mas muitos linguistas já aceitam usos “errados”, como o próprio “através” no lugar de “por meio”. Entretanto, em textos formais e acadêmicos, não custa seguir as normas à risca, né?

Dica final: Este é apenas um post bem resumido. Para aprofundamentos, é sempre bom procurar uma boa gramática. 🙂

 

Revisor: o profissional invisível

Fala comum: “Nossa, que texto maravilhoso! A leitura flui… Este(a) autor(a) escreve muito bem!”.

Fala comum (2): “Nossa, que texto mal escrito! Tem até erros de português… Não teve revisão, não?”.

 

Tenso, né? (Reprodução/Google)

Tenso, né? (Imagem: reprodução/Google)

Quem quer atuar com revisão de textos precisa ter em mente uma coisa básica: seu trabalho será, muitas vezes, invisível. É o tipo de profissional que só aparece, ou seja, só é lembrado, quando o resultado final não é considerado bacana. Quando está bom, é como se mãos “invisíveis” tivessem passado por ali e/ou os méritos vão todos para os autores. Papel ingrato? Talvez. Mas é justamente esta a função de um bom revisor: não aparecer. Deixar o texto claro, coeso e coerente, sem erros ortográficos nem trechos confusos ou repetitivos, para que as ideias do autor possam ser bem compreendidas pelo leitor. Um trabalho por trás das “câmeras”. Acostumem-se a isso.

Invisível, sim; essencial, também!

O revisor é um profissional fundamental e precípuo na editoração de um livro. Todo texto precisa passar por revisão – por mais de uma, inclusive, como já foi comentando neste blog (“Produção editorial: quem faz o quê – Parte I” e “Parte II”). Mesmo que a qualidade da escrita do autor ou da autora seja excelente, sempre haverá, minimamente, errinhos de digitação, muito possivelmente também de ortografia e gramática, e frases e estruturas textuais necessitando de alterações. Algo normal, e nenhum autor deve sentir-se diminuído por isso. Ademais, outra pessoa lendo nosso texto é sempre bacana e nos dá uma segurança maior de que nada passará, não é mesmo? Em virtude de tudo isso, torna-se necessário que qualquer livro seja revisado por um profissional gabaritado para tal.

Um (bom) revisor deve ter algumas qualificações específicas, como em qualquer outra profissão. Eis algumas:

  • para início de conversa, as editoras costumam exigir profissionais graduados em Letras, Produção Editorial ou Jornalismo;
  • é preciso ter um ótimo domínio da língua portuguesa, ter boa noção das regras gramaticais e possuir bom texto. Não é necessário ser nenhum doutor em Linguística, mas ter um conhecimento apropriado é essencial. (Não basta achar, como escuto muito por aí – para meu desespero! –, que é só escrever no Word, já que o próprio programa “revisa” tudo, na medida em que sublinha erros e indica correções. Quem dera revisar fosse só isso ou simples assim…);
  • o revisor deve ser alguém cuidadoso e muito atento a cada detalhe, a cada palavra, a cada colocação pronominal, a cada regência e tempo verbal. Ah, e ser desconfiado por natureza: sabe aquela palavra que você acha que se escreve com “ss” mesmo? Melhor checar no dicionário, porque muitas vezes é assim que a gente descobre que é com “ç”, na verdade, e todo mundo costuma escrevê-la errado;
  • aliás, o melhor amigo do revisor é o dicionário – tenho um enorme sempre do lado;
  • ser organizado, pois para fazer a revisão de um livro, por exemplo, é necessário estabelecer formas e metodologias de trabalho, de modo que as emendas e comentários inseridos no arquivo ou na prova diagramada sejam os mais limpos e claros possíveis; para estabelecer padrões no texto (como escolher se “rainha do crime” será usado sempre aspeado, com as iniciais em maiúsculas ou sem nada) e mantê-los uniformes; para conseguir manejar bem o seu tempo, tendo em vista os prazos estabelecidos com a editora ou com o cliente;
  • ser flexível e um tanto quanto desapegado, pois o texto não é seu; ele é do autor, e, ao passo que se torna livro, passa a ser um pouquinho de muita gente, na verdade. Por isso, todos devem ter em mente que é um trabalho coletivo e que a palavra-chave deve ser “diálogo”. É fundamental ouvir o que cada um tem a dizer e respeitar o espaço do outro para que o seu seja respeitado também;
  • por fim, claro, quanto mais lemos, mais nos atualizamos. Parar de estudar, de ler e de aprender, jamais;
  • bônus: ser revisor é adquirir conhecimentos novos a cada dia, tanto sobre a língua portuguesa quanto sobre história, geografia, literatura medieval ou qual seja o tema do livro que você esteja revisando. 🙂

O revisor pode até ser um profissional “invisível”, mas em trabalhos de qualidade ele é, também, indispensável. Por isso, é importante que cada um procure sua contínua capacitação e qualificação, para que sejamos sempre valorizados no mercado – e, muitas vezes, precisamos pleitear, nós mesmos, por essa valorização profissional.

Boa revisão para vocês! Ser revisor é muito amor. ❤

 

SPOILER: No próximo post, alguns dos erros mais comuns em textos.

“A vítima perfeita” e “Objetos cortantes”: a centralidade das personagens femininas

Olá, queridos!

Começo pedindo desculpa pela longa ausência de postagens do blog; é que estive (ainda estou, na verdade) com problemas pessoais. Mas para mostrar que as atividades por aqui não acabaram, trago agora um post novo, sobre duas de minhas últimas leituras: romances policiais com thriller psicológico, com muito suspense, mistério, investigação e segredos a serem descobertos – meu tipo de leitura “favoritaço”, eu confesso!

Os dois escolhidos foram A vítima perfeita (Rocco, 2015, 432 p.), de Sophie Hannan, e Objetos cortantes (Intrínseca, 2015, 256 p.), de Gillian Flynn. Ambos possuem histórias totalmente diferentes, mas o fio da navalha é semelhante: protagonistas que se veem em meio a um mistério policial, envolvendo sumiços/mortes, e que saem em busca de pistas para desvendar e compreender o que aconteceu. Ah, e que se descobrem partes integrantes daqueles quebra-cabeças, muito mais do que podiam imaginar. Clichê dos romances policiais/thrillers psicológicos – dois gêneros que costumam ser inter-relacionados. Algo, no entanto, se destacou para mim: nas duas obras, essas personagens principais são mulheres – e que possuem alguma fragilidade psicológica e emocional proveniente de um grande trauma do passado, mas se mostram autônomas e suficientemente fortes para enfrentarem seus desafios. Veio-me a reflexão: por que em boa parte das vezes as personagens mais exploradas nesses livros têm sido mulheres?

A vítima perfeita, Objetos cortantes e seus personagens (ops, SUAS!)

Em A vítima perfeita, Hannah traz três personagens femininas comandando a história, por diferentes ângulos e direções. Naomi Jenkins, uma jovem empreendedora independente e bem-sucedida, a grande protagonista da trama, que carrega um segredo trágico de seu passado e se entrega à paixão nos braços de um desconhecido que mantém com ela um caso extraconjugal; a sargento-detetive Charlie Zailer, policial astuta e que comanda uma equipe masculina, mas que aparentemente não se dá muito bem na vida amorosa; e Juliet Haworth, a esposa do amante de Naomi, que é descrita por ele à namorada como muito frágil e dependente. Após se relacionar por um ano com o caminhoneiro Robert Haworth, encontrando-o sempre uma vez por semana em um mesmo quarto de hotel simplório, Naomi fica muito preocupada e desconfiada quando, em uma determinada quinta-feira, ele simplesmente não aparece, não avisa e não dá mais nenhum sinal. A partir daí, a história se desenvolve. Naomi fica sem entender o sumiço do amante e resolve ir procurá-lo na residência do casal, mesmo ele sempre tendo feito-a prometer que jamais iria aparecer por lá. Sem encontrá-lo (mas vendo seu caminhão estacionado na porta), e dando de cara com uma fria e misteriosa Juliet, apela para a polícia, que não dá muito crédito ao desespero da mulher, acreditando se tratar de um mero caso amoroso em que o cara decidiu largar a amante. Desesperada, Naomi resolve, então, inventar uma história na tentativa de chamar atenção dos policiais para o caso. Mas o que era uma parcial invenção vai se revelando não tão falso como ela imaginava. Apesar de a trama girar aparentemente em torno do desaparecimento de Robert, quem dá as cartas é mesmo a trinca de mulheres durante todo o tempo.

Agora vejam que coincidência. Em Objetos cortantes, novamente me deparei com três personagens femininas desenovelando a trama. Três fortes, enigmáticas e obscuras mulheres. Gillian Flynn nos apresenta a protagonista Camille Preaker, uma mulher na casa dos 20 e muitos anos, bastante fechada e fragilizada, recém-saída de uma clínica psiquiátrica onde passou um tempo internada em virtude de praticar automutilação. Camille mora sozinha, longe da família, e não possui uma boa relação com a mãe. É jornalista de um impresso de pouco prestígio e se considera uma pessoa medíocre. Para o seu azar, o chefe lhe manda passar uns dias em sua cidade natal, a pequena e pacata Wind Gap, onde a jovem não vai há muitos anos, a fim de conseguir uma supermatéria para o jornal, investigando o estranho desaparecimento de uma criança na localidade. Apesar de ficar assombrada com a ideia, ela aceita, para provar ao seu chefe – e principalmente a si mesma – que é capaz de enfrentar esse desafio em busca do sucesso profissional. Daí em diante, Camille acaba se vendo de volta ao seu passado – e obrigada a morar novamente com a mãe, na casa onde cresceu. Na residência, vivem Adora, uma dona de casa elegante, que faz a linha mãe superprotetora com a filha caçula, Amma (meia-irmã de Camille), mas que parece desconfortável com a presença da primogênita, e ainda sente-se perturbada pela morte precoce da filha do meio, Marian, falecida antes do nascimento da mais nova; o padrasto de Camille, Alan, uma figura absolutamente insossa, vazia e inexpressiva, que vive às sombras de Adora e de Amma; e a tal meia-irmã, de 13 anos, uma adolescente dúbia, provocativa e misteriosa, que se comporta como uma criança, ou melhor, como a boneca da mamãe, em casa, e como uma mulher imponente e insinuante na rua, a típica líder das mean girls do colégio – e com quem a jornalista nunca tivera contato, a bem dizer, antes de voltar agora à sua cidade. Enquanto Camille investiga os fatos em busca de notícias sobre o desaparecimento para suas matérias, percebe que este está relacionado com outro desaparecimento seguido de homicídio de uma garotinha no ano anterior, e se vê novamente envolta em sua complexa e conturbada teia familiar, mais uma vez imersa em seu passado. As descobertas que surgem são capazes de mudar toda a sua vida.

A força das personagens femininas

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

Parece que trabalhar com personagens femininas em thrillers psicológicos e romances policiais dá certo. Mulheres que reúnem inúmeras complexidades emocionais, capazes de passar por traumas profundos e superá-los, tocar a vida, camuflar as cicatrizes e ser, inclusive, profissionais descoladas e muito bem-sucedidas, independentes, como no caso de Naomi Jenkins. Outras que, devido a toda uma infância e juventude muito conturbadas, possuem traumas muito enraizados, problemas emocionais que de tão profundos afloram na pele, mas que, com um esforço maior do que se pode imaginar, seguem vivendo – ou sobrevivendo –, e ainda se veem capazes de se deixar emaranhar pelos fios familiares novamente, como ocorre com Camille Preaker, em nome do comprometimento profissional. Se em A vítima perfeita o foco fica mais na história policial em si, com desaparecimentos, buscas, investigação, segredos, descobertas, ação e reviravoltas, Objetos cortantes prioriza as relações humanas e psicológicas. Flynn mergulha mais fundo na psique humana e explora o lado obscuro das pessoas, os efeitos emocionais que cada acontecimento pode gerar no indivíduo, e nos mostra, com detalhes muito bem trabalhados, doentes relações familiares. Uma em maior e outra em menor profundidade, essas autoras desnudam as inúmeras camadas emocionais e psicológicas de personagens fortes, independentes e muito distintas entre si, mas que compartilham de traumas que as afetaram definitivamente. Mulheres comuns, do dia a dia, com dramas semelhantes aos de muitas nós, com certeza (e infelizmente, porque o número de estupros, crime cometido contra uma das personagens, é enorme). Mas o principal: mulheres que fogem daquele antigo estereótipo feminino, das simples e meramente frágeis, resignadas a participações secundárias, as que serviam mais para ilustrar (ou serem vítimas). Aqui, o papel muda. Mostram-se mulheres no ápice de suas possibilidades. Vítimas de dramas, mas donas de suas próprias vidas. Mocinhas e vilãs (de si mesmas). Repletas de faces. Protagonistas. E não mais só de romances água com açúcar.

Mas por que será que personagens femininas têm feito tanto sucesso em tramas complexas, psicológicas, policiais, profundas e cheias de reviravoltas de um tempo para cá? Por que é cada vez mais comum encontrarmos Naomis e Camilles em thrillers na literatura? Lembro, por exemplo, que outros dois conhecidos livros do gênero escritos pela própria Gillian Flynn, Garota exemplar e Lugares escuros, também são centrados em personagens mulheres. Ok, as autoras são também mulheres, talvez suas escolhas sejam uma mera questão de identificação, de maior conhecimento humano, de sororidade. Mas me parece que a graça (e a força emotiva) tem estado em nós! (risos) Mas sem aquele clichê de que é porque “mulheres são complicadas”, e por isso combinam com personagens “confusas”, né? Talvez consigamos explorar mais – sem generalizações e sem sexismo, por favor – nossas várias e possíveis camadas psicológicas e acessar mais de uma emoção ao mesmo tempo. Sensibilidade aguçada. O que, é claro, rende personagens potenciais. Além disso, acho que o contexto social do mundo tem sua parcela nessa mudança de paradigmas literários também. Se a mulher tem conquistado, à base de muita luta, seu lugar na sociedade, em busca da igualdade de gêneros, parece que o mesmo está refletindo na literatura. E muito me agrada.

Mas, é preciso ter cuidado…

Houve, no entanto, detalhes que me causaram certo incômodo nos dois livros, justamente relacionados ao fato de as histórias serem pautadas em personagens femininas: presença de machismo. Algo que pode ter sido inserido nas duas narrativas pelas autoras justamente como uma forma de chamar atenção para tais coisas que acontecem na sociedade e que precisam ser encaradas de forma diferente, precisam acabar; ou seja, talvez, e até possivelmente, tenham sido escritos como forma de crítica mesmo, de repúdio. Mas o fato é que me nausearam.

Naomi Jenkins foi estuprada e parece tratar disso como se ser considerada uma vítima fosse um erro. Ela não se considera “vítima”, nem “sobrevivente”, e mesmo que a postura da personagem seja apenas uma forma autodefensiva para tentar se proteger de todo o sofrimento pelo qual passou, confesso que algo em seu comportamento gerou um incômodo em mim. Não sei especificar exatamente o quê. Talvez uma mistura de conformidade com muitos questionamentos do tipo “Será que eu fiz algo para merecer?”. Em contrapartida, senti falta de um discurso contrário no livro. Tentei pensar pela cabeça dela, e acho que pode ser normal esse tipo de pensamento em uma mulher que sofreu uma violência tão brutal como essa. Como ela mesma diz em um trecho, talvez quanto menos se fale naquilo, menos busque-se enfrentar, menos real aquilo pareça ter sido. Uma forma de escapismo. Mesmo assim, em muitas páginas eu tinha vontade de gritar para ela: “Miga, você é vítima, sim! Não é questão de ‘se vitimizar’, é um fato, trata-se de um crime do qual você foi a vítima. A culpa de nada disso que você sofreu é sua; a culpa nunca é da pessoa estuprada, mas tão somente do ser que cometeu o estupro! Força, não se envergonhe. Estamos com você!”. A cultura do estupro existe, e acho que deve, sempre e sempre, ser tão somente combatida, e pensamentos de negação, conformismo e culpabilização da vítima, repelidos. Inclusive na literatura.

Já na trama de Objetos cortantes, o machismo se expressou de outras maneiras, mais explícitas. A típica cidade pequena, cheia de preconceitos e com comportamentos estigmatizados. Garotas adolescentes que transam como forma de status e são tratadas como objetos sexuais, e mulheres que são tratadas como enfeites e criadas para serem mães e donas de casa. Há uma cena especialmente forte para mim nesse sentido, que mostra como o machismo está enraizado naquela sociedade, em práticas, pensamentos e hábitos que não o detectam e o consideram normal: o momento em que Camille conta para o jovem policial Richard, que é de uma cidade grande e está em Wind Gap investigando os casos dos desaparecimentos e mortes das menininhas, como foi a primeira vez de uma garota de sua turma na época do colégio. A adolescente, que na verdade era ela, ficara bêbada e então transara com “quatro ou cinco” caras do time de futebol seguidamente, sendo passada de um para outro. Ao ouvir, Richard se choca e pergunta se a jovem chegara a prestar queixa de estupro na polícia, pois era isso que havia acontecido. E Camille reage dizendo que só porque a garota transara com vários, bêbada, não quer dizer que tenha sido uma vítima ou que precisasse ser “cuidada”. E chama o policial de machista por pensar isso. Se há elementos importantes na fala da protagonista, sobre mulheres terem direito a fazer o que bem entenderem com o próprio corpo e terem liberdade para transar com quantos quiserem, há também, nitidamente, uma deturpação no discurso, uma visão distorcida sobre tudo isso.

Para não prolongar mais (e nem dar muitas informações e detalhes sobre as histórias), acho que por mais que as intenções das autoras possam ter sido alertar e dar luz a fatos que necessitam de atenção, a impressão que ficou para mim é de que faltou um pouco de tato nesse aspecto. Personagens centrais femininas, mostrando as inúmeras possibilidades psicológicas, comportamentais e sociais de mulheres, são maravilhosas. Mas é preciso ter certo cuidado com a forma de abordagem de determinados estereótipos, para combater mais o machismo, e não corroborar com ele de forma alguma.

(Foto: O Eu Literário)

(Foto: O Eu Literário)

Notas para os livros

Gostei de ambas as leituras. Como aprecio o lado psicológico de personagens, achei que essa parte foi bem explorada e desenrolada em Objetos cortantes e gostei disso. No entanto, em relação ao enredo do livro como um todo, senti falta de mais ação investigativa e policial. O final, apesar de ter uma boa proposta, parece que foi cuspido nas últimas páginas às pressas. Perdeu pontos por isso. Eu daria nota 7,5/10. Já em A vítima perfeita, Sophie Hannan conseguiu construir satisfatoriamente um conjugado de fatos que se interligam, com descobertas que vêm em um ritmo bom, sem deixar nenhuma parte enfadonha. Tem investigação, tem bastante ação, tem suspense; e não deixa de ter um lado humano das personagens, apesar de não ter sido explorado aqui em tanta profundidade. Acho que se a autora tivesse destrinchado mais a protagonista, Naomi, e Juliet, penetrando-as mais, o livro poderia ter sido ainda melhor. Achei-as meio apática – apesar de fazer sentido que elas sejam assim. Dou 8,5/10. E recomendo os dois livros! 😉

Produção editorial: quem faz o quê — Parte II

Olá, queridos!

No post anterior, discorri sobre o quem é quem, o “quem faz o quê” da produção editorial. Comecei escrevendo um pouco a respeito do autor, do tradutor, do preparador e do diagramador (incluindo menções ao organizador e ao copidesque). Agora, então, darei continuidade. Direto ao ponto: hora de comentar as principais funções e atribuições do revisor, do capista, do editor e do produtor gráfico. Assim, a gente fecha a cadeia da editoração. 🙂

 

Revisor: A palavra “revisor” pode ser utilizada para qualquer profissional responsável por ler e fazer alterações no texto, sejam elas de cunho ortográfico e gramatical (ou seja, adequação à língua), de cunho editorial (fazer as adequações ao manual e aos estilos adotados comumente pela editora) ou de cunho normativo (adequar às normas da ABNT ou afins). Há, ainda, a possibilidade de ser um revisor técnico, que é chamado em alguns livros específicos para fazer uma revisão do conteúdo propriamente dito (como já vimos, o conteúdo é de responsabilidade do autor, mas em um livro inteiramente sobre história da arte na Idade Média, por exemplo, talvez o editor julgue necessária uma revisão técnica, ou seja, que alguém bastante conhecedor desse tema, um especialista nele, leia o texto todo para se certificar de que todo o conteúdo esteja correto). Mas, aqui, estou me referindo ao revisor de provas diagramadas, seguindo a sequência (habitual) da cadeia editorial que estamos traçando. O revisor é a pessoa a receber o livro diagramado e, pela primeira vez, impresso. Ele é responsável, então, por pegar aquele chumaço de folhas e ler o texto inteiro, na íntegra, para fazer uma nova revisão — pois aqui estamos considerando que o texto não está mais “virgem”, que já foi devidamente mexido e revisado no Word pelo preparador e/ou pelo copidesque. Mesmo que o texto tenha passado por uma (boa) preparação, também chamada de “primeira revisão”, é totalmente normal que role a “segunda revisão”, feita pelo revisor de provas — e, dependendo da sujeira do texto, ou seja, do quanto ele esteja complicado, pode haver ainda a “terceira” ou “quarta”, tudo vai de como estiver a qualidade. Em geral, o revisor costuma ser mais para acertar arestas. Se o preparador é responsável pelas primeiras e mais profundas alterações, se atentando mais para a parte estrutural do texto e do esqueleto do livro, o revisor é tão importante quanto, mas se volta mais para os detalhes: checar pontuação, acentuação e padronizações (este item é muito importante, valerá um post depois); ver se passou algo na preparação, como frases desconexas ou com falta de clareza; conferir a estrutura da bibliografia em livros de não ficção; ou seja, deixar o livro totalmente “redondo”. Cada erro e alteração que o revisor considere necessários, ele deve anotar a caneta (normalmente, vermelha) na prova diagramada, com marcações que chamamos de “emendas”. (As emendas, como vimos na primeira parte deste post, são passadas para o arquivo pelo diagramador.) E se por acaso o revisor ainda se deparar com algum problema no texto que deva ser reportado ao autor, algum trecho que necessite de esclarecimento, ele pode fazer isso: sinalizar a dúvida para esta ser enviada àquele. É só no final de todo este processo que o texto estará fechado — o texto, não o miolo como um todo ainda. Observação: às vezes, o próprio revisor já faz também os itens do fechamento (quebras, bater a grafia dos títulos no texto x no sumário, checar paginação, cabeços etc), mas esta costuma ser uma função do editor ou do assistente editorial.

Capista: Profissional responsável por criar a capa do livro. Normalmente, é um designer editorial/gráfico, mas pode ser um ilustrador também. Cada vez mais, é comum que as editoras terceirizem etapas da produção, e com isso o profissional que diagrama o miolo do livro não é o mesmo que cria a sua capa depois. Há diversos profissionais que se especializam apenas em fazer capas e que atuam só nisso. Eu, no entanto, acho bacana quando o capista é o mesmo diagramador do miolo, pois isso confere uma unidade maior ao livro. À primeira vista ou a um olhar mais leigo, as colocações do título e do nome do autor, as fontes e o uso do espaço podem parecer meio aleatórios, mas acreditem, não são. Ou seria legal que não fossem. E, por isso mesmo, é interessante quando as escolhas da capa se associam às escolhas do projeto gráfico do miolo — e, logo, essa afinação será maior se ambos forem de responsabilidade do mesmo profissional, ou se, pelo menos, houver um trabalho de equipe muito bem orquestrado entre o capista e o diagramador, de modo que estes dois possam trocar figurinhas. A capa é elemento fundamental de um livro. Ela não apenas precisa dizer sobre o conteúdo do livro e mostrar ao leitor o que esperar dele; ela é usada como peça de marketing editorial. É só pensar em uma livraria abarrotada de livros. Quem nunca pegou um exemplar atraído por uma capa bonita ou chamativa? Pois é, esta é a função do capista: pensar e criar uma capa que tenha bastante a ver com o conteúdo do livro e com o projeto gráfico do miolo e que, preferencialmente, também seja comercial, ou seja, tenha um bom apelo visual para ajudar nas vendas. Acho importante comentar que, na minha humilde opinião, tanto o diagramador quanto o capista precisam ler, pelo menos razoavelmente, o livro para fazerem seus trabalhos da melhor forma possível (digo isso porque já ouvi muitos profissionais dizendo que não o fazem, por conta de curto tempo etc, e apenas seguem as orientações gerais que lhes são passadas).

Editor: Maestro. Gerente geral da produção editorial. É até difícil descrever as principais atribuições do editor, porque ele participa de toda a cadeia da produção. É ele quem olha o original pela primeira vez, para ver do que se trata o material e como será feita a editoração e de quais profissionais precisará. É ele quem fica em contato com o autor, para saber quais são suas expectativas com o livro e se há orientações ou observações iniciais — e é muito importante estabelecer logo de cara este contato, traçando uma relação de confiança entre os dois lados do balcão. É ele quem monta o cronograma de toda a produção editorial que será feita, e também ele quem vai supervisionando e controlando cada etapa. É ele quem checa o arquivo final, faz o fechamento do miolo e envia tudo para a gráfica. Mas é claro que, nesse meio de campo, rola muita bola e há diversos pormenores que o editor pode (ter de) fazer também. Por exemplo, após o preparador e/ou o copidesque ter mexido no texto, o arquivo de Word fica cheio de marcações de revisão, que devem ser aceitas ou rejeitadas. É comumente o editor quem recebe esse arquivo e gerencia as emendas do Word do preparador/copidesque. Aí, ele separa as dúvidas textuais que o preparador/copidesque tenha sinalizado e as envia para o autor, que lhe responderá. Novamente, caberá ao editor passar as respostas do autor para o texto. O mesmo tipo de interferência e participação do editor pode acontecer após a revisão da diagramada. Em suma, o editor é a ponte entre cada uma das etapas de editoração, e é o maior contato desta com o autor. Leia-se: um bom processo editorial depende muito de uma boa atuação do editor, que funciona mesmo como um maestro que rege o conjunto todo. É importante que seja um profissional dinâmico, que conheça bem todas as etapas e como funcionam e que seja comunicativo e com jogo de cintura. Muitas vezes, o editor não trabalha sozinho, mas, sim, com alguém que o ajuda em suas atribuições diretamente: um assistente editorial ou editor assistente. Em muitos casos, o próprio assistente editorial fica responsável sozinho por algumas dessas funções.

Produtor gráfico:  Em geral, ele não trabalha dentro das editoras. O produtor gráfico é o profissional especializado em conhecer as técnicas de impressão, os diferentíssimos tipos de papel, de tintas, de cores, além de fazer orçamentos para pedidos e compras de todos os materiais utilizados para imprimir os exemplares na gráfica. É legal que o produtor gráfico atue como um consultor, dialogando com o diagramador/designer editorial e com o editor, para escolherem qual é o papel que ficará melhor no miolo e na capa, por exemplo, e qual é a melhor opção de impressão. Além disso, é responsável por supervisionar a impressão dos exemplares, checando se esta está saindo boa, se a tinta está pegando bem no papel, se não está manchando a folha, se a carga da tinta está homogênea em todas as páginas etc. Qualquer problema, ele deve entrar em contato com o editor. Acontece, por exemplo, de, durante a impressão, um papel se mostrar não funcional com a forma de impressão escolhida. Aí, é necessário esse contato com o editor para que as mudanças apropriadas possam ser feitas. Em suma, é o produtor gráfico quem recebe os arquivos do livro na gráfica, enviados pela editora, e controla a impressão. Também providencia o envio das provas heliográficas para a editora.

 

E, com isto, estão dispostos os principais profissionais que atuam na produção editorial de livros. Espero que tenham gostado e que as colocações tenham ficado claras e bacanas.

Beijinhos e até o próximo post!

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Produção editorial: quem faz o quê — Parte I

(Imagem: Reprodução/Google)

Quem recebe o livro, quando ainda é só um original do autor, na editora? Quem faz uma primeira “triagem” nele, vendo do que vai precisar? Quem acerta seu texto? Quem escolhe a fonte que vai ser usada? E o papel? (Sim, tudo isso e cada detalhe é devidamente escolhido!) Quem cria a capa? Quem dá um último confere no arquivo antes de enviá-lo para a gráfica que imprimirá os exemplares?

Pois é, queridos amantes de livros. Nada é aleatório no processo da produção editorial. Há todo um cronograma e uma divisão de tarefas entre diversos profissionais para que a mágica aconteça e aquele original do autor, normalmente um simples arquivo de Word, se transforme em LIVRO. É uma coisa meio “mágica” mesmo para mim, pelo empenho que tanta gente dedica e pelo modo como aquele aglomerado de páginas e capítulos vai se transformando, vai surgindo aos nossos olhos; como tudo aquilo vai sendo moldado e pensado, até que, voilà, temos aquele exemplar com miolo, capa, quarta capa e lombada nas nossas mãos. E o brilho no olhar que os livros são capazes de provocar, tanto nos profissionais que trabalham com sua produção quanto nos leitores, é algo fascinante. É “mágico” mesmo.

Mas dando continuidade ao post “Quem atua no processo editorial?“, em que enumeramos a ordem habitual das etapas de uma produção, comentando quais são os profissionais que atuam em cada estágio, vamos agora destrinchar um pouco mais as principais funções de cada uma dessas pessoas. O “quem faz o quê”. Então, bora lá conhecer mais sobre a produção editorial! 😉

Autor: É quem escreve a obra, o responsável pelo conteúdo do livro que você lê. Seja uma obra de ficção ou um estudo acadêmico, todas as ideias ali contidas são do autor – que, após enviar o original para a editora, permanece tendo papel fundamental durante o decorrer da produção editorial, para sanar dúvidas do editor e do revisor, fazer possíveis e importantes observações para estes ou mesmo para o designer e o capista, e para checar se o sentido original do texto foi corretamente mantido durante as etapas editoriais. Vale comentar, ainda, que há muitas obras que são coletâneas, em que cada capítulo é como um artigo próprio, escrito por um autor diferente. Nesses casos, é comum haver a figura do organizador (ou coordenador, ou compilador), que fica responsável pelo conjunto dos autores e por buscar dar a unidade do livro, e é quem responde por este junto à editora.

Tradutor: É bem comum, principalmente nas grandes editoras, comprar os direitos de uma obra estrangeira para traduzi-la e distribuí-la em português aqui no Brasil. É de se imaginar que, para que isso seja possível, há uma pessoa que fica destinada a todo o trabalho de traduzir o original de outra língua. Este profissional não é o revisor nem editor. Uma pessoa é designada especialmente para isso, até porque a tradução envolve um campo de atuação muito próprio e específico. Não basta ter domínio da língua original. É preciso ter domínio tanto da língua em questão quanto do português e ter uma série de noções e conhecimentos sobre tradução em si (configura um campo de estudo!). Além disso, o recomendável é que o tradutor tenha um conhecimento sobre a forma de escrever do autor. Se for um livro de ficção, por exemplo, ou seja, literatura, faz toda a diferença já ter visto ou lido outros livros do mesmo autor, para ver se aquela palavra que ele usou pode ser traduzida assim ou assado, de acordo com o estilo que ele costuma adotar em suas obras. O tradutor precisa, além de deixar o livro em língua portuguesa, fazer as escolhas adequadas, buscando respeitar a ideia original do autor e o seu estilo. Para tudo isso, é normal que haja dúvidas durante seu trabalho, que devem, idealmente, ser esclarecidas com o próprio autor (ou com algum representante); se for possível, ter esse contato direto entre autor e tradutor é fundamental, para que as melhores decisões possam ser estabelecidas. Além disso, após concluída a tradução, é bacana também que o tradutor passe algumas observações para o editor/preparador/revisor, sobre algumas escolhas importantes que foram tomadas, buscando garantir que, em etapas futuras, estas não sejam desfeitas por outro profissional que vá dar continuidade ao processo e visando à coesão editorial.

Preparador: Quando o original em português já está com a editora, a primeira coisa que precisa ser feita é a sua preparação. O preparador é o profissional responsável por fazer a primeira leitura profunda do texto completo. É ele quem vai fazer as adequações necessárias no original de acordo com as normas editoriais da Casa (é normal que cada editora tenha seu próprio manual); quem vai fazer uma primeira leitura, buscando corrigir erros ortográficos, gramaticais e de digitação; quem vai atentar para a coerência e a coesão textual e marcar dúvidas em ideias que não ficaram claras, que deverão ser esclarecidas com o autor depois; e que tem a função de observar a estrutura do arquivo – ele pode julgar se o livro precisa de um prefácio ou um prólogo, por exemplo, e fazer a observação para o editor, mudar a ordem de parágrafos ou mesmo sugerir alterações na ordem de capítulos etc. O preparador é um revisor, mas um revisor que atua no primeiro momento da produção; ele trabalha no arquivo de Word, justamente porque é em uma fase inicial, em que é comum haver muitas alterações e correções a serem feitas. Digamos que a preparação é uma “revisão mais profunda”. Ele é o maior responsável por garantir que o conteúdo do texto esteja ok. Comentário relevante: há também a figura do copidesque. Em um outro post, posso discorrer mais sobre as diferenças entre copidesque, preparador e revisor, pois é algo muito discutível, visto que cada editora pensa de uma forma e faz suas próprias distinções. Basicamente, as funções de um copi são semelhantes (não necessariamente iguais) às do preparador, por isso nem sempre sua figura existe na produção de um livro.

Diagramador: Quando o arquivo de Word está “fechado”, ou seja, já passou pela preparação e ficou sem nenhuma questão pendente, é o momento de ele ser diagramado. A diagramação é um design gráfico, logo, é feita por um designer. É o designer/diagramador o responsável por pensar e escolher todo o projeto gráfico do miolo. Tudo deve ter um porquê: a(s) fonte(s) usada(s), o corpo, o espacejamento entre as linhas, o tipo de alinhamento (no meio “comercial”, o mais comum é o justificado, em que as linhas sempre começam e terminam seguindo exatamente o mesmo recuo na página, mas também pode ser feita a opção pelo alinhamento à esquerda, por exemplo, de acordo com a ideia do livro e com o objetivo do autor), o local onde aparecem os cabeços e os números das páginas, a forma do sumário, o papel que será utilizado na impressão etc. Em resumo, o diagramador é quem pensa a forma do livro. E ele tem liberdade para isso. Pode haver conversas – e é sempre bacana que haja! – com o autor, no sentido de este último dar suas opiniões e, inclusive, fazer alguns pedidos, como “Ah, pelo motivo X, eu gostaria muito que fosse usado o alinhamento à esquerda!”, mas as escolhas quanto ao formato são a cargo do diagramador mesmo. Além disso, também é função do diagramador, depois, passar para o arquivo do livro as emendas que o revisor marcar na prova diagramada. (Sobre essas nomenclaturas, ver post anterior sobre termos da produção editorial.) Ah, o diagramador costuma trabalhar, principalmente, no programa Indesign (mas a escolha fica por conta do profissional), podendo lançar mão de outros também, como o Corel, Illustrator ou Photoshop, de acordo com as especificidades de cada obra e com seu próprio gosto pessoal.

Para esta postagem não ficar quilométrica, as pinceladas gerais sobre as principais funções do revisor, do capista, do editor e do produtor gráfico ficarão para uma continuação, tá? Prometo que virá logo. É só para não ficar uma leitura muito cansativa.

Portanto, concluindo, vou mencionar aquilo que é a principal coisa de toda a produção de um livro, e que talvez vocês, lendo os posts, já tenham notado: o mais importante de tudo é o DIÁLOGO. Uma produção pautada por uma boa comunicação entre todas as pontas da cadeia, entre todos os envolvidos, deixando sempre claros e mapeados os objetivos e as escolhas de todos, é a chave para um bom livro – e para um bom processo editorial. Além disso, acho sempre válido comentar e lembrar que tudo isto é uma visão geral e com base em percepções e experiências próprias, pois não há um “formato de editoração” exato; cada editora pode atuar de um jeito e cada profissional pode acabar praticando funções distintas, tudo depende também do livro em questão.

Bons livros e até breve!

 

Bienal do Livro – Rio 2015

Já tinha um tempo que eu não ia à Bienal do Livro. Estava ansiosa para ir este ano; me sentia criança novamente. E minhas expectativas não foram quebradas. Assim que pisei naquele espaço gigantesco (e, desta vez, com uma credencial de “Editor” pendurada no pescoço, o que me fazia sentir ainda mais nas nuvens, confesso) e me vi rodeada de estandes, livros e editoras enormes por todos os lados, dei um sorriso daqueles que brilha e pensei: “Estou em casa!”.

Fui apenas como visitante, pois a editora em que trabalho não participa da Bienal – é um evento para “as grandes”. E não estava sozinha, fui em uma pequena caravana familiar. Por isso, e por um cansaço físico que me/nos consumia, não permaneci por tanto tempo lá. Fissurada por ver livros e escolher os que compraria, só no final me dei conta de que acabei esquecendo de dar mais atenção à parte da programação cultural. Não vi muita coisa legal, que depois fiquei sabendo que tinha; também não assisti a nenhuma palestra nem bate-papo com autores. Valeria a pena fazer uma nova viagem – sim, porque juntando a distância com o trânsito infernal é isso que vira – até lá neste final de semana só para ver tudo isso, mas não sei se vou poder. Mas, enfim, valeu a pena.

Comprei cinco livros (que estão na lista de espera das leituras ainda), e fiquei chateada porque três que eu tinha anotado não constavam lá. O que encabeçava minha listinha, Suicidas, inclusive. 😦 Mas tudo bem, mês que vem eu vou a uma livraria qualquer e procuro os que não encontrei. Os livros que comprei estão na foto no final deste post, para dividir com vocês. (Obs.: Essa, aliás, é uma dica valiosa: ir com uma listinha de livros pré-selecionados para ver e procurar lá, porque é taaaanta opção pulando por todos os lados que a gente acaba se perdendo!)

Ainda sobre minhas percepções da Bienal em si, confirmei minha aposta, que já tinha comentado aqui (O momento atual: livro vende?): o evento, cada vez mais, é pensado prioritariamente para os adolescentes e jovens adultos. Além de este ser o público que eu mais vi lá no dia em que fui – mas também havia muitas crianças, pais, adultos e até pessoas mais velhas, galera de todas as idades mesmo –, também senti isso pelo modo como as editoras fizeram/montaram seus estandes e faziam suas divulgações, sem contar nos diversos “personagens” de sagas young adult que vagavam pela feira, inclusive autores fantasiados, atraindo muita atenção dessa galera, dando muitos autógrafos e tirando várias fotos. Bacana. Marca de um mercado que continua crescendo e tem dado um gás para as vendas de livros.

A única decepção foram os preços. Até vi algumas promoções em algumas editoras, mas bem poucas. A maioria dos livros estava com os preços normais. Acho que um evento literário desse porte e dessa magnitude poderia (e deveria) investir mais em descontos, de maneira mais homogênea.

Por fim, fica um lembrete importante: a Bienal do Livro é fantástica mesmo! Mas existem várias outras feiras e festas literárias espalhadas pelo país. Muitas nem chegam ao conhecimento do grande público. Fiquem ligados, vamos continuar prestigiando a leitura e o mercado editorial brasileiro. Vêm muitas feiras de livros legais por aí, e eu espero que todos que foram à Bienal vão a todas estas também. 😉

Sei que alguns aí quase todas as pessoas da Terra já leram, rs. E aí, boas recomendações sobre minhas aquisições? <3

Sei que alguns aí quase todas as pessoas da Terra já leram, rs. E aí, boas recomendações sobre minhas aquisições? ❤

Por hoje, é isto. Neste final de semana, vai ter postagem em “Da minha profissão” novamente! 😉

Beijinhos