Machado de Assis

Redescobrindo o Brasil, ou sua literatura, pelo beijo de colombina

Acho que o que falta é conhecer. Ontem entrei em uma livraria aqui no Rio, me aproximei da sessão de literatura brasileira e chamei a vendedora que estava me atendendo.

– Queria lhe pedir uma dica. Li recentemente Um beijo de colombina, da Adriana Lisboa, e gostei muito. Queria outros livros de autoras de literatura contemporêna brasileira. Você me indica algum?

A menina, de uns 25 anos talvez, ficou me olhando com uma expressão meio confusa, meio sem saber o que me dizer. Sem esperar, perguntei:

– Você conhece Adriana Lisboa?

– Não…

Repeti que era uma autora de literatura contemporânea brasileira, atual, jovem, e a vendedora emendou:

– Peraí, vou chamar outra menina para ajudar você. Fulana, vem cá!

Vem a segunda vendedora da livraria, a que me diz ser responsável pela sessão dos nacionais. Repeti a minha primeira fala, de que queria uma dica de outra autora brasileira contemporânea para ler, na vibe da Adriana Lisboa.

– Olha, eu não conheço literatura nacional, não. Leio fantasia. Mas, olha, uma autora brasileira que o pessoal procura e gosta muito é Martha Medeiros.

Minha vez de fazer uma cara de meio confusa, meio sem saber o que lhe dizer.

– É, conheço Martha Medeiros, é bacana mesmo, mas não é bem essa vibe que eu procuro…

Vendo que ela estava ficando um pouco desconfortável com a situação, deixei para lá e disse gentilmente que ia continuar dando uma olhada geral mesmo.

Sabe por que muitos brasileiros não leem literatura nacional? Porque não a conhecem. É muita publicidade para literatura estrangeira, autores estrangeiros, e pouca informação e divulgação para os nossos. E digo isso com propriedade mesmo, já que eu mesma, apesar de trabalhar com livros (só que acadêmicos e em uma editora pequena, ou seja, um pouco fora desse fluxo intenso do mercado editorial), não tenho na ponta da língua nomes brasucas atuais. (Esta, aliás, é uma falha que estou buscando reparar.) Estamos acostumados a ouvir falar em Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Machado de Assis, mas desconhecemos que há novas safras também ótimas e que precisamos conhecer.

Adriana Lisboa foi um nome que ouvi, há poucos meses, de forma um pouco aleatória, mas sendo apontada como um dos bons nomes da literatura contemporânea nacional. Quando estive na Bienal do Livro, este ano, então, não deixei passar a chance de adquirir algum de seus livros, e quando bati os olhos em Um beijo de colombina me vi atraída. Livro de tamanho pequeno (184 páginas), título bacana e uma capa que, embora bem simples, me conquistou (Alfaguara, 2015, 2ª edição). Após anos e anos tendo como principal referência da literatura brasileira Dom Casmurro, lido ainda no Ensino Médio, fui novamente ao seu encontro. (Não, não quero dizer com isso que nunca mais tinha lido livros nacionais!)

A leitura de Um beijo de colombinadf8e7fbe-484b-443e-8892-9726f7d72102

Em um sábado à tarde em Araruama, férias de fim de ano, cadeira confortável à sombra na varanda e brisa batendo, me pus a começar sua leitura. Livro breve e que, página a página, foi se mostrando uma narrativa simples e despretensiosa. Não há grandes movimentos no livro, nem diálogos longos ou eloquentes – na verdade, há pouquíssimos diálogos. É realmente um roteiro simples. Mas é daqueles cuja riqueza reside justamente em sua aparente simplicidade, sabe? Daquelas coisas que nos dizem sem dizer, que nos mostram sem mostrar. O simples mais bonito. E, assim, mostrou-se uma leitura surpreendente, pois, mesmo com aquele andar tão despretensioso, com aquela trama tão “parada”, baseada por completo apenas em narrações de um único personagem masculino – que simplesmente vai nos contando memórias particulares de sua vida nos últimos meses, vividos com a namorada agora dada como morta, após ter se afogado no mar de Mangaratiba –, me vi totalmente compenetrada em sua leitura. Narrativa introspectiva, daquelas que te puxa para dentro e te leva também para dentro de si mesmo. Concluí o livro em duas tomadas, com um intervalo apenas para lanchar e bater um papo com a família toda reunida na casa.

A narrativa tem um ar melancólico. João, um professor de latim na casa dos 30 anos, vê-se sozinho após Teresa, sua namorada com quem se relacionava e morava há oito meses, morrer ao se afogar na praia. Teresa era uma jovem escritora, recentemente premiada, e que estava reunindo material de pesquisa para seu próximo romance, que seria baseado nas obras e poesias de Manuel Bandeira. Perdido entre a tristeza e o deslocamento do mundo no qual se percebe, João começa a mergulhar em Teresa: em seus livros, em sua casa, em suas memórias com ela e, especialmente, em seu velho exemplar de Estrela da vida inteira, de Bandeira, onde a namorada fizera várias anotações e marcações. Conforme mergulha nas lembranças de Teresa, avalia as possíveis razões que a tenham levado à morte, enquanto a imprensa bate na tese de suicídio, após encontrarem versos sugestivos que ela havia deixado presos por um ímã na geladeira. De licença no trabalho, João resolve, mesmo afirmando não ser escritor, dar continuidade ao projeto da amada.

Uma das primeiras características a chamar minha atenção no livro foi a sua escrita, sua pontuação, principalmente em diálogos. Nada de conversas bem marcadas, com travessões, dois-pontos ou aspas. Não, falas e pensamentos correndo soltos, assim como o poema de Manuel Bandeira de mesmo nome que a personagem feminina de Adriana Lisboa. Impressão de que o cuidado é com o conteúdo, com o que se diz ou se sente, e não com sua forma. No primeiro momento, eu, revisora de textos e apegada à norma culta e suas vírgulas, pontos e sinais, estranhei. Mas logo na sequência vi que era o estilo que Lisboa escolhera, que combinava perfeitamente com a história, com a proposta. Afinal, seu livro é poesia e prosa, tudo junto. É contemporâneo, mas, para mim, claramente retrato de nossa literatura mais clássica. E, como reproduzo um trechinho abaixo, o sentido não fica em nada comprometido. As falas são separadas por parágrafos.

Gozado, comentei, quando Teresa me contou.
Não é?, ela concordou.
[…]
Bobagem, disse Tereza, já acabou.
E voltou para o computador.

(Lisboa, 2015, p.19 e 20)

Apreciadora de Machado e seu Dom Casmurro, involuntariamente vi algum reflexo seu em Lisboa e seu Beijo. Acho que foi a personagem Teresa que, de alguma forma não muito linear, me remeteu a Capitu. Mulheres, fortes, atraentes e um tanto enigmáticas. Por sua vez, seus respectivos, homens que parecem mais frágeis e se veem perdidos de alguma forma. Além disso, o final também me trouxe um quê machadiano. Não escreverei por que, pois não quero fazer revelações do enredo de Lisboa.

Por fim, reitero a leveza e sutileza da trama de Um beijo de colombina, levada muito satisfatoriamente por uma escrita afinada da autora, que mostra um potencial realmente muito bom, tanto quanto nossos autores clássicos, como comentei acima. E, quando achava que o livro era aquilo, ainda me surpreendi com seu final. Uma reviravolta que eu não esperava encontrar ali. Quando terminei, parei e refleti por dois minutos e fui reler os dois últimos capítulos em busca de quaisquer detalhes que pudessem ter passado despercebidos. Livro para ler, saborear e refletir sobre. Além de tudo, Adriana Lisboa foi muito bem-sucedida em criar uma metanarrativa (um “livro dentro de livro”?).  Para quem não o leu ou para quem não conhece Lisboa ainda, eu mais do que recomendo. Sugiro!

Nota

Dez. Gostei mesmo! E continuo aceitando dicas para outras autoras de literatura contemporânea brasileira.

 

Beijinhos e bom novo ano para todos! Por um ano com mais livros nacionais para nós!

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