machismo

Maresia

Ela é do mar

Gosta tanto que o carrega na alma e no nome

Traz dentro de si

Não por egoísmo, mas por necessidade

De vez em quando, transborda.

Alma agonizante, alma pulsante

Pulsa tanto que já nem sente

Ou sente tanto que já se acostumou

Assim pensava.

De tanto sentir a dor de sentir o que sente

Maremotizou-se.

Mulher, neste mundo é proibido sentir

Não levante a voz, não nade contra a corrente

Criança boa é criança calada

Quem cala, consente

Oh, garota, você tem que falar com Fulano!

Criança boa é criança obediente

A criança que reclama não é ouvida

A criança que sofre não é vista

Criança boa é criança que aceita

De tanto aceitar, aceita que tudo é como é

Deixa o mar inundar tudo

E ocupar cada pedacinho

pro barulho das ondas abafar os outros

E pra terra satisfeita ficar.

Terra acha que cada coisa tem seu lugar

Poeira embaixo do tapete deve estar

Todo dia nasce novo sol

O mar também muda

Esquenta, ferve, evapora

Água é movimento

natural que não se contém.

E quando sai toda a água, a alma seca

O silêncio vira eco

Retumba

Chacoalha.

Ela não é louca

A consciência dá força

Mulher-mar.

Deu-se a ressaca

Não a culpem

Ela só está sendo mar

E não cabe ao mar ensinar à terra

como se recuperar da ressaca

Cada coisa tem seu lugar

E mar calmo nunca fez bom marinheiro

Quiçá marinheira

Que já nasce remando nas ondas

do machismo da vida.

 

(O Eu Literário)

 

 

 

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“A vítima perfeita” e “Objetos cortantes”: a centralidade das personagens femininas

Olá, queridos!

Começo pedindo desculpa pela longa ausência de postagens do blog; é que estive (ainda estou, na verdade) com problemas pessoais. Mas para mostrar que as atividades por aqui não acabaram, trago agora um post novo, sobre duas de minhas últimas leituras: romances policiais com thriller psicológico, com muito suspense, mistério, investigação e segredos a serem descobertos – meu tipo de leitura “favoritaço”, eu confesso!

Os dois escolhidos foram A vítima perfeita (Rocco, 2015, 432 p.), de Sophie Hannan, e Objetos cortantes (Intrínseca, 2015, 256 p.), de Gillian Flynn. Ambos possuem histórias totalmente diferentes, mas o fio da navalha é semelhante: protagonistas que se veem em meio a um mistério policial, envolvendo sumiços/mortes, e que saem em busca de pistas para desvendar e compreender o que aconteceu. Ah, e que se descobrem partes integrantes daqueles quebra-cabeças, muito mais do que podiam imaginar. Clichê dos romances policiais/thrillers psicológicos – dois gêneros que costumam ser inter-relacionados. Algo, no entanto, se destacou para mim: nas duas obras, essas personagens principais são mulheres – e que possuem alguma fragilidade psicológica e emocional proveniente de um grande trauma do passado, mas se mostram autônomas e suficientemente fortes para enfrentarem seus desafios. Veio-me a reflexão: por que em boa parte das vezes as personagens mais exploradas nesses livros têm sido mulheres?

A vítima perfeita, Objetos cortantes e seus personagens (ops, SUAS!)

Em A vítima perfeita, Hannah traz três personagens femininas comandando a história, por diferentes ângulos e direções. Naomi Jenkins, uma jovem empreendedora independente e bem-sucedida, a grande protagonista da trama, que carrega um segredo trágico de seu passado e se entrega à paixão nos braços de um desconhecido que mantém com ela um caso extraconjugal; a sargento-detetive Charlie Zailer, policial astuta e que comanda uma equipe masculina, mas que aparentemente não se dá muito bem na vida amorosa; e Juliet Haworth, a esposa do amante de Naomi, que é descrita por ele à namorada como muito frágil e dependente. Após se relacionar por um ano com o caminhoneiro Robert Haworth, encontrando-o sempre uma vez por semana em um mesmo quarto de hotel simplório, Naomi fica muito preocupada e desconfiada quando, em uma determinada quinta-feira, ele simplesmente não aparece, não avisa e não dá mais nenhum sinal. A partir daí, a história se desenvolve. Naomi fica sem entender o sumiço do amante e resolve ir procurá-lo na residência do casal, mesmo ele sempre tendo feito-a prometer que jamais iria aparecer por lá. Sem encontrá-lo (mas vendo seu caminhão estacionado na porta), e dando de cara com uma fria e misteriosa Juliet, apela para a polícia, que não dá muito crédito ao desespero da mulher, acreditando se tratar de um mero caso amoroso em que o cara decidiu largar a amante. Desesperada, Naomi resolve, então, inventar uma história na tentativa de chamar atenção dos policiais para o caso. Mas o que era uma parcial invenção vai se revelando não tão falso como ela imaginava. Apesar de a trama girar aparentemente em torno do desaparecimento de Robert, quem dá as cartas é mesmo a trinca de mulheres durante todo o tempo.

Agora vejam que coincidência. Em Objetos cortantes, novamente me deparei com três personagens femininas desenovelando a trama. Três fortes, enigmáticas e obscuras mulheres. Gillian Flynn nos apresenta a protagonista Camille Preaker, uma mulher na casa dos 20 e muitos anos, bastante fechada e fragilizada, recém-saída de uma clínica psiquiátrica onde passou um tempo internada em virtude de praticar automutilação. Camille mora sozinha, longe da família, e não possui uma boa relação com a mãe. É jornalista de um impresso de pouco prestígio e se considera uma pessoa medíocre. Para o seu azar, o chefe lhe manda passar uns dias em sua cidade natal, a pequena e pacata Wind Gap, onde a jovem não vai há muitos anos, a fim de conseguir uma supermatéria para o jornal, investigando o estranho desaparecimento de uma criança na localidade. Apesar de ficar assombrada com a ideia, ela aceita, para provar ao seu chefe – e principalmente a si mesma – que é capaz de enfrentar esse desafio em busca do sucesso profissional. Daí em diante, Camille acaba se vendo de volta ao seu passado – e obrigada a morar novamente com a mãe, na casa onde cresceu. Na residência, vivem Adora, uma dona de casa elegante, que faz a linha mãe superprotetora com a filha caçula, Amma (meia-irmã de Camille), mas que parece desconfortável com a presença da primogênita, e ainda sente-se perturbada pela morte precoce da filha do meio, Marian, falecida antes do nascimento da mais nova; o padrasto de Camille, Alan, uma figura absolutamente insossa, vazia e inexpressiva, que vive às sombras de Adora e de Amma; e a tal meia-irmã, de 13 anos, uma adolescente dúbia, provocativa e misteriosa, que se comporta como uma criança, ou melhor, como a boneca da mamãe, em casa, e como uma mulher imponente e insinuante na rua, a típica líder das mean girls do colégio – e com quem a jornalista nunca tivera contato, a bem dizer, antes de voltar agora à sua cidade. Enquanto Camille investiga os fatos em busca de notícias sobre o desaparecimento para suas matérias, percebe que este está relacionado com outro desaparecimento seguido de homicídio de uma garotinha no ano anterior, e se vê novamente envolta em sua complexa e conturbada teia familiar, mais uma vez imersa em seu passado. As descobertas que surgem são capazes de mudar toda a sua vida.

A força das personagens femininas

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

Parece que trabalhar com personagens femininas em thrillers psicológicos e romances policiais dá certo. Mulheres que reúnem inúmeras complexidades emocionais, capazes de passar por traumas profundos e superá-los, tocar a vida, camuflar as cicatrizes e ser, inclusive, profissionais descoladas e muito bem-sucedidas, independentes, como no caso de Naomi Jenkins. Outras que, devido a toda uma infância e juventude muito conturbadas, possuem traumas muito enraizados, problemas emocionais que de tão profundos afloram na pele, mas que, com um esforço maior do que se pode imaginar, seguem vivendo – ou sobrevivendo –, e ainda se veem capazes de se deixar emaranhar pelos fios familiares novamente, como ocorre com Camille Preaker, em nome do comprometimento profissional. Se em A vítima perfeita o foco fica mais na história policial em si, com desaparecimentos, buscas, investigação, segredos, descobertas, ação e reviravoltas, Objetos cortantes prioriza as relações humanas e psicológicas. Flynn mergulha mais fundo na psique humana e explora o lado obscuro das pessoas, os efeitos emocionais que cada acontecimento pode gerar no indivíduo, e nos mostra, com detalhes muito bem trabalhados, doentes relações familiares. Uma em maior e outra em menor profundidade, essas autoras desnudam as inúmeras camadas emocionais e psicológicas de personagens fortes, independentes e muito distintas entre si, mas que compartilham de traumas que as afetaram definitivamente. Mulheres comuns, do dia a dia, com dramas semelhantes aos de muitas nós, com certeza (e infelizmente, porque o número de estupros, crime cometido contra uma das personagens, é enorme). Mas o principal: mulheres que fogem daquele antigo estereótipo feminino, das simples e meramente frágeis, resignadas a participações secundárias, as que serviam mais para ilustrar (ou serem vítimas). Aqui, o papel muda. Mostram-se mulheres no ápice de suas possibilidades. Vítimas de dramas, mas donas de suas próprias vidas. Mocinhas e vilãs (de si mesmas). Repletas de faces. Protagonistas. E não mais só de romances água com açúcar.

Mas por que será que personagens femininas têm feito tanto sucesso em tramas complexas, psicológicas, policiais, profundas e cheias de reviravoltas de um tempo para cá? Por que é cada vez mais comum encontrarmos Naomis e Camilles em thrillers na literatura? Lembro, por exemplo, que outros dois conhecidos livros do gênero escritos pela própria Gillian Flynn, Garota exemplar e Lugares escuros, também são centrados em personagens mulheres. Ok, as autoras são também mulheres, talvez suas escolhas sejam uma mera questão de identificação, de maior conhecimento humano, de sororidade. Mas me parece que a graça (e a força emotiva) tem estado em nós! (risos) Mas sem aquele clichê de que é porque “mulheres são complicadas”, e por isso combinam com personagens “confusas”, né? Talvez consigamos explorar mais – sem generalizações e sem sexismo, por favor – nossas várias e possíveis camadas psicológicas e acessar mais de uma emoção ao mesmo tempo. Sensibilidade aguçada. O que, é claro, rende personagens potenciais. Além disso, acho que o contexto social do mundo tem sua parcela nessa mudança de paradigmas literários também. Se a mulher tem conquistado, à base de muita luta, seu lugar na sociedade, em busca da igualdade de gêneros, parece que o mesmo está refletindo na literatura. E muito me agrada.

Mas, é preciso ter cuidado…

Houve, no entanto, detalhes que me causaram certo incômodo nos dois livros, justamente relacionados ao fato de as histórias serem pautadas em personagens femininas: presença de machismo. Algo que pode ter sido inserido nas duas narrativas pelas autoras justamente como uma forma de chamar atenção para tais coisas que acontecem na sociedade e que precisam ser encaradas de forma diferente, precisam acabar; ou seja, talvez, e até possivelmente, tenham sido escritos como forma de crítica mesmo, de repúdio. Mas o fato é que me nausearam.

Naomi Jenkins foi estuprada e parece tratar disso como se ser considerada uma vítima fosse um erro. Ela não se considera “vítima”, nem “sobrevivente”, e mesmo que a postura da personagem seja apenas uma forma autodefensiva para tentar se proteger de todo o sofrimento pelo qual passou, confesso que algo em seu comportamento gerou um incômodo em mim. Não sei especificar exatamente o quê. Talvez uma mistura de conformidade com muitos questionamentos do tipo “Será que eu fiz algo para merecer?”. Em contrapartida, senti falta de um discurso contrário no livro. Tentei pensar pela cabeça dela, e acho que pode ser normal esse tipo de pensamento em uma mulher que sofreu uma violência tão brutal como essa. Como ela mesma diz em um trecho, talvez quanto menos se fale naquilo, menos busque-se enfrentar, menos real aquilo pareça ter sido. Uma forma de escapismo. Mesmo assim, em muitas páginas eu tinha vontade de gritar para ela: “Miga, você é vítima, sim! Não é questão de ‘se vitimizar’, é um fato, trata-se de um crime do qual você foi a vítima. A culpa de nada disso que você sofreu é sua; a culpa nunca é da pessoa estuprada, mas tão somente do ser que cometeu o estupro! Força, não se envergonhe. Estamos com você!”. A cultura do estupro existe, e acho que deve, sempre e sempre, ser tão somente combatida, e pensamentos de negação, conformismo e culpabilização da vítima, repelidos. Inclusive na literatura.

Já na trama de Objetos cortantes, o machismo se expressou de outras maneiras, mais explícitas. A típica cidade pequena, cheia de preconceitos e com comportamentos estigmatizados. Garotas adolescentes que transam como forma de status e são tratadas como objetos sexuais, e mulheres que são tratadas como enfeites e criadas para serem mães e donas de casa. Há uma cena especialmente forte para mim nesse sentido, que mostra como o machismo está enraizado naquela sociedade, em práticas, pensamentos e hábitos que não o detectam e o consideram normal: o momento em que Camille conta para o jovem policial Richard, que é de uma cidade grande e está em Wind Gap investigando os casos dos desaparecimentos e mortes das menininhas, como foi a primeira vez de uma garota de sua turma na época do colégio. A adolescente, que na verdade era ela, ficara bêbada e então transara com “quatro ou cinco” caras do time de futebol seguidamente, sendo passada de um para outro. Ao ouvir, Richard se choca e pergunta se a jovem chegara a prestar queixa de estupro na polícia, pois era isso que havia acontecido. E Camille reage dizendo que só porque a garota transara com vários, bêbada, não quer dizer que tenha sido uma vítima ou que precisasse ser “cuidada”. E chama o policial de machista por pensar isso. Se há elementos importantes na fala da protagonista, sobre mulheres terem direito a fazer o que bem entenderem com o próprio corpo e terem liberdade para transar com quantos quiserem, há também, nitidamente, uma deturpação no discurso, uma visão distorcida sobre tudo isso.

Para não prolongar mais (e nem dar muitas informações e detalhes sobre as histórias), acho que por mais que as intenções das autoras possam ter sido alertar e dar luz a fatos que necessitam de atenção, a impressão que ficou para mim é de que faltou um pouco de tato nesse aspecto. Personagens centrais femininas, mostrando as inúmeras possibilidades psicológicas, comportamentais e sociais de mulheres, são maravilhosas. Mas é preciso ter certo cuidado com a forma de abordagem de determinados estereótipos, para combater mais o machismo, e não corroborar com ele de forma alguma.

(Foto: O Eu Literário)

(Foto: O Eu Literário)

Notas para os livros

Gostei de ambas as leituras. Como aprecio o lado psicológico de personagens, achei que essa parte foi bem explorada e desenrolada em Objetos cortantes e gostei disso. No entanto, em relação ao enredo do livro como um todo, senti falta de mais ação investigativa e policial. O final, apesar de ter uma boa proposta, parece que foi cuspido nas últimas páginas às pressas. Perdeu pontos por isso. Eu daria nota 7,5/10. Já em A vítima perfeita, Sophie Hannan conseguiu construir satisfatoriamente um conjugado de fatos que se interligam, com descobertas que vêm em um ritmo bom, sem deixar nenhuma parte enfadonha. Tem investigação, tem bastante ação, tem suspense; e não deixa de ter um lado humano das personagens, apesar de não ter sido explorado aqui em tanta profundidade. Acho que se a autora tivesse destrinchado mais a protagonista, Naomi, e Juliet, penetrando-as mais, o livro poderia ter sido ainda melhor. Achei-as meio apática – apesar de fazer sentido que elas sejam assim. Dou 8,5/10. E recomendo os dois livros! 😉

“Babilônia” e o preconceito, o machismo e a hipocrisia

Beijo Teresa e EstelaBeijo Ivan e Sérgio

(Imagens de cenas do último capítulo da novela – Reprodução/Google)

“Babilônia” terminou na noite desta sexta-feira, 28 de agosto, e ficou marcada como a “pior novela das 21h da Globo de todos os tempos”, como muitos sites repetiram ao longo dos últimos meses. Ok que o último capítulo foi bem mal-estruturado mesmo. Inês foi condenada pela morte do pai da Regina, cuja assassina era a Beatriz e todos os personagens da novela já sabiam disso, inclusive muitos ouviram a sua confissão. Mas, mesmo assim, a Justiça considerou que a culpada era a Inês (?!). Depois, ambas apareceram presas, e enquanto isso ninguém parecia sentir falta de nenhuma – que nenhum personagem mencionasse a Beatriz era aceitável, mas a Inês tinha filha, tia e todos sabiam que ela era inocente. Ninguém se lembrava mais dela, sentia sua falta ou lamentava o que a loira estava passando? Mas passou batido. Por fim, teve a fuga das duas rivais da prisão, e a cena do carro caindo do penhasco e elas se olhando (com Inês sorrindo!) foi demais de esquisita. Ah, mais uma vez, na sequência não rolou nenhuma repercussão sobre a morte de Beatriz e Inês. Normal, vida que seguia entre a galera lá. Enfim, o final foi bem estranho, mas ok, novelas têm dessas coisas, o foco deste post não é esse.

Quero dizer o seguinte: talvez o enredo central de “Babilônia” tenha ficado fraco mesmo. Mas foi tão pior do que tantos outros que já passaram pelas telas da TV? Particularmente, não acompanhei de cabo a rabo, mas não vi nada demais quanto à história. Nada que justificasse esse estigma de “pior novela de todos os tempos” ou essa baixa audiência e a enxurrada de críticas de diversos telespectadores. Pelo contrário, eu gostava da novela. Para começar, o elenco contou com nomes de peso: Adriana Esteves, Glória Pires, Camila Pitanga, Fernanda Montenegro (!), Nathalia Timberg, Bruno Gagliasso e diversos outros que atuaram muito bem. Além disso, botou o dedo na ferida, em muitas feridas! Mas o que, para mim, foi sua maior virtude, foi o que a fadou ao “fracasso”.

Logo de cara, nos primeiros capítulos, chegou com um beijo longo e carinhoso entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Choque entre as famílias tradicionais brasileiras [ironia detectada]. Já a personagem de Glória Pires era uma pegadora nata, muita atitude e muito sexo. Choque geral. Sabe o que acontece? Pessoas do mesmo sexo não podem se amar, nem muito menos demonstrar seu amor. Mulheres não podem se comportar como os homens, devem ser delicadas e “bem-comportadas”. Em outras palavras, as pessoas não aceitam assistir a “beijo gay” (não gosto dessa expressão) e nem a mulheres que fujam dos estereótipos de “como as mulheres devem se portar”. Outro exemplo disto, aliás, foi a história de Alice, personagem de Sophie Charlotte, que teve de ter seu rumo alterado porque o público mostrou não aceitar que ela fosse uma garota de programa. E aí está o grande fracasso de “Babilônia”: cedeu à censura da sociedade, começou a modificar as tramas às pressas, perdendo várias sinopses que já estavam programadas e vendo muitos personagens ficarem meio perdidos. Com isso, claro que deve ter rolado desgaste entre os autores, a direção e os atores. E a própria trama central acabou perdendo um pouco a força, já que viu seus personagens sendo modificados.

Tudo isso porque beijos e cenas bem mais ousadas entre homens e mulheres pode, personagens do Zé Mayer pegando todas as mulheres do elenco pode; já carinho entre Estela e Teresa ou Beatriz tendo a iniciativa e transando com muitos, não. Qual é o problema, Brasil?

O problema, além de homofobia e machismo declarados, é a hipocrisia. A novela veio esfregar na nossa cara tudo aquilo que está presente no dia a dia, mas as pessoas ainda insistem em negar e tentar esconder. Machismo? Não existe, é tudo invenção e chatice das “feminazis”. Preconceito? Não, não somos homofóbicos, os gays só não precisam se beijar no meio da rua, né? Oi?!

“Babilônia” ainda enfiou o dedo em muitas feridas. Os preconceitos contra pessoas que moram nas favelas e contra negros. E nos presenteou com o núcleo do prefeito Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira) e sua mãe, Consuelo (Arlete Salles). Pregando o nome do “Altíssimo”, apontavam o dedo na cara das pessoas e usavam a religião como justificativa para apedrejar os homossexuais. Mas, da maneira mais hipócrita possível, eram totalmente adeptos da corrupção e de todos os tipos de falcatruas – sem contar todas as traições de Aderbal à sua esposa. Uma lógica que se repete frequentemente na nossa sociedade (e na nossa política). Beijo não pode, comportamentos iguais entre homens e mulheres não pode, mas discriminar, julgar, ofender, xingar, roubar, trair, enganar o povo e armar falcatruas pode. E, de acordo com os baixos índices do ibope e com diversos comentários nas redes sociais, uma enorme parte dos telespectadores compactua com essa lógica. Sociedade, cadê a sua coerência? Quando você vai evoluir?

“Babilônia”, parabéns por mostrar o que a maioria tenta esconder. E, para fechar com a mesma pegada que começou, rolaram dois beijos lindos no último capítulo (deviam ter continuado rolando ao longo de toda novela, mas antes tarde do que nunca, né?). Espero que venham mais novelas REAIS, tratando de assuntos que importam, e menos nhem nhem nhens 🙂