natureza

Maresia

Ela é do mar

Gosta tanto que o carrega na alma e no nome

Traz dentro de si

Não por egoísmo, mas por necessidade

De vez em quando, transborda.

Alma agonizante, alma pulsante

Pulsa tanto que já nem sente

Ou sente tanto que já se acostumou

Assim pensava.

De tanto sentir a dor de sentir o que sente

Maremotizou-se.

Mulher, neste mundo é proibido sentir

Não levante a voz, não nade contra a corrente

Criança boa é criança calada

Quem cala, consente

Oh, garota, você tem que falar com Fulano!

Criança boa é criança obediente

A criança que reclama não é ouvida

A criança que sofre não é vista

Criança boa é criança que aceita

De tanto aceitar, aceita que tudo é como é

Deixa o mar inundar tudo

E ocupar cada pedacinho

pro barulho das ondas abafar os outros

E pra terra satisfeita ficar.

Terra acha que cada coisa tem seu lugar

Poeira embaixo do tapete deve estar

Todo dia nasce novo sol

O mar também muda

Esquenta, ferve, evapora

Água é movimento

natural que não se contém.

E quando sai toda a água, a alma seca

O silêncio vira eco

Retumba

Chacoalha.

Ela não é louca

A consciência dá força

Mulher-mar.

Deu-se a ressaca

Não a culpem

Ela só está sendo mar

E não cabe ao mar ensinar à terra

como se recuperar da ressaca

Cada coisa tem seu lugar

E mar calmo nunca fez bom marinheiro

Quiçá marinheira

Que já nasce remando nas ondas

do machismo da vida.

 

(O Eu Literário)

 

 

 

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