opinião

“Sonhos partidos”: delicado, mas lento

Olá, queridos! ❤

Enfim, muito enfim, o primeiro post de 2016. Podem estourar os fogos! haha

Estava com bastante saudade do meu espacinho, mas este ano começou bem movimentado para mim. Um motivo maravilhoso: mudança de emprego. 🙂 Mas o fato é que estas semanas têm sido agitadas; meu tempo está sendo totalmente dedicado ao novo trabalho. Aos pouquinhos pretendo voltar a postar no blog com mais frequência, como fazia no ano passado.

Vamos logo ao que interessa, então. O post de hoje é uma resenha crítica sobre uma de minhas últimas leituras: Sonhos partidos, de M. O. Walsh, publicado pela Intrínseca.

Capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Quem me acompanha, sabe: meu gênero literário preferido são os thrillers psicológicos/romances policiais/suspenses. Adoro! Em um dia normal passeando pela livraria, folheando livros aleatoriamente, este chamou minha atenção. Nunca tinha ouvido falar sobre ele, mas seus textos de quarta capa e orelha despertaram meu interesse. Um crime – no caso, um estupro – que não foi solucionado e anos depois volta à tona. Sinopse que poderia ser de um policial, não? Palavras-chave: crime, suspeitos, investigação, mistério. Mote principal: quem é o culpado? Mas, com o passar das páginas, a expectativa foi dando lugar à decepção literária. Na verdade, apesar de ser escrito sobre esse pano de fundo, achei a história um grande drama, além de uma leitura lenta e pouco empolgante.

Por dentro da história

A obra gira em torno de uma adolescente de cerca de 15 anos chamada Lindy Simpson, a típica garota popular americana. Linda, atlética, simpática, cheia de amigos e de meninos encantados por ela. Até que em uma noite, quando voltava para sua casa de bicicleta (em uma cidade superpacata e onde todos os vizinhos se conhecem e se ajudam), foi agarrada e estuprada. E, desde então, nunca mais foi a mesma, adquirindo posturas e comportamentos bizarros e que muitos não compreendiam. O culpado não foi descoberto, e a polícia saiu do caso rápido demais. Quatro homens, sendo três garotos, foram considerados suspeitos na época – todos informalmente, apenas. Um destes é justamente o narrador do livro, que resolve reviver e contar essa história quando já é um adulto, o que torna tudo um tanto estranho. Até que ponto sua narrativa, seu ponto de vista é confiável?

Detalhe impressionante: nosso narrador não tem nome. E eu só me toquei disso quando concluí a leitura e fui olhar outras opiniões na internet. A trama é tão bem-escrita, nesse quesito, que nem nos incomodamos com a ausência de um nome para ele. Ponto para o autor, o estreante M. O. Wash.

Como eu comentei acima, o mote inicial é bacana e atraente. Sedutor; seduziu-me. Mas conforme as páginas foram passando, fui me cansando. A narrativa fica em um ir e vir sem fim. Uma hora ele está em 1989, aí vai para 1992, aí volta para 1990, aí volta mais para 1987, vai de novo para 1992, e por aí continua. (Estou dando anos como exemplos, apenas.) Em geral, é possível compreender e traçar mentalmente a linha cronológica. Mas houve momentos em que eu me perdi e não sabia se tal fato era antes ou depois dos outros já narrados. Achei que, nesse ponto, o autor não se saiu tão bem assim.

Sobre o conteúdo literário em si, vamos percebendo que o livro não é sobre Lindy na verdade, a jovem estuprada. O livro é sobre o garoto, nosso narrador, um dos suspeitos. À medida que acompanhamos suas lembranças, fica nítido que é tudo sobre ele. O quanto ele era próximo dela antes do crime e se viu afastado depois; o modo como ele acabou se “apaixonando” por ela e moldando-se em mil e uma personalidades diferentes na tentativa de ficar parecido com suas novas identidades criadas pós-estupro; como tentava compreendê-la, achava que a entendia melhor do que ninguém e no fundo era incapaz disso; o quanto sua própria vida mudou e foi afetada por aquele acontecimento; como ele se tornou um suspeito aos olhos da mãe; que ele fez tudo o que fez simplesmente porque se sentiu culpado por ela ter sido violentada (e ele só fala explicitamente sobre isso no final). Possivelmente bem-intencionado, mas seus relatos mostram como ele foi egoísta na juventude. Da forma que, mesmo quando a mulher é a vítima, quem fica no centro da história é o homem. E algumas falas de Lindy ilustram bem isso, um tapa na cara do narrador-sem-nome.

Boas ressalvas

Fiquei na dúvida se considerei o livro machista ou não. No fim das contas, acho que ele tentou mostrar – talvez nem de maneira consciente – o quanto a sociedade é machista. O quanto os homens, em geral, não conseguem lidar com algo tão brutal e tão delicado que é o estupro. Como não compreendem as reações das mulheres, o quanto se acham no direito de participar de tudo, o quanto tendem a querer resolver tudo e acham que serão capazes de apagar as memórias da mulher – e consideram um absurdo quando elas não acolhem suas tentativas de ajuda ou se rebelam. Observando por esse lado, o livro é positivo. Acho que o grande lance de Sonhos partidos é mostrar como o garoto não consegue lidar com a sua falta de protagonismo na história (e na vida de Lindy). Bom, essa foi minha percepção, minha opinião.

Mais uma vez, fiquei na dúvida se achei adequado um autor (homem) escrever um livro sobre o estupro de uma menina. Ao fim da história, percebi o que discorri acima: não é sobre o estupro, no fundo, mas sim sobre o garoto e o modo como ele encarou tudo aquilo, sobre o seu egoísmo. De novo, sobre esse prisma achei que foi uma linha inteligente que Walsh adotou. Realmente, ele não poderia (ou não deveria) escrever sobre um estupro a uma mulher e nem sob o enfoque desta, pelo simples fato de não ser uma; é aquela coisa que chamamos de lugar de fala. Por isso, tomei isso como a grande boa ressalva do livro. A obra traz para reflexão um tema tão relevante e tão fundamental, mas ele teve o cuidado de não usar um espaço que não seria dele. Ele mostra um machismo e um egoísmo típicos de nossa sociedade justamente sob a narrativa de um homem. E o livro é daqueles que termina e nos faz pensar. Isso é sempre bom.

Nota

Em termos puramente literários, me decepcionou bastante. Morno, lento, cansativo muitas vezes e sem reviravoltas. Mas talvez essa tenha sido realmente a intenção do autor. Uma narrativa delicada. A questão humana e social que ele traz é valorosa. Tem potencial reflexivo. E não dá para não reparar que o autor escreve bem. Na balança de tudo isso, dou nota 6,8 de 10. Ou 7, vá lá.

Obs.: Em termos editoriais, meu grande destaque vai para a capa. Achei uma sacada fantástica: extremamente delicada, sutil. O lamento vai para o tratamento de texto, pois do meio para o final do livro vi muitos errinhos de português.

 

E aí, quem mais já leu Sonhos partidos? O que acharam?

Beijinhos e boa semana!

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Minha primeira vez com Agatha Christie – “Os crimes ABC”

Sabe aquela autora clássica, superconhecida e que é considerada uma das principais escritoras do seu subgênero literário preferido? Pois é, chega a ser meio absurdo quando você alcança certa idade sem nunca ter lido, de fato, nenhuma de suas obras. Assim acontecia comigo e a tão comentada – e elogiada – Agatha Christie, chamada por muitos de “Rainha do Crime”.

Agatha nasceu em 1890, na Inglaterra, e escreveu mais de oitenta títulos, tendo vendido mais de 4 bilhões de exemplares em todo o mundo, atrás apenas de Shakespeare e da Bíblia. Leia-se: a mulher é foda. Minha curiosidade em relação a ela já era grande há muitos anos, mas em 2015 tornou-se especial. Decidi que era hora do nosso encontro. E minha primeira incursão em sua literatura foi com Os crimes ABC, um dos livros que contam com a figura central do detetive belga Hercule Poirot. Antes de adentrar em seu universo e deixar minhas impressões e opinião, vou dar um breve resumo (sem spoilers) sobre a obra, então.

Quarta capa (O Eu Literário)

Quarta capa (O Eu Literário)

Capa (O Eu Literário)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A história

O renomado e cheio de prestígio detetive Hercule Poirot já está aposentado, mas não consegue se manter longe dos crimes por muito tempo. Vez ou outra, aparece um novo caso que merece sua atenção e o requisita novamente à ativa. Desta vez, o crime vai pessoal e diretamente à sua residência. Explica-se: em um dia comum, ele recebe um bilhete, assinado por alguém sob alcunha de “ABC”, que o avisa que ocorrerá um homicídio na localidade de Andover no dia 21 de junho. O aviso vem sob a forma de um desafio para Poirot, que deverá impedir que tal assassinato aconteça. Surpreso com tal fato, inédito em sua carreira, ele avisa a Scotland Yard sobre a carta recebida, mas todos acreditam se tratar de alguma pegadinha de mau gosto. Poirot, no entanto, fica com a pulga atrás da orelha.

Na data determinada, uma senhora idosa, de nome Alice Ascher, é assassinada dentro de sua pequena loja em Andover. Sem pistas sobre o crime, a polícia se vê no escuro, e o único detalhe que chama atenção é que, próximo à vítima, foi encontrado um guia de trens conhecido como ABC. Poirot tem certeza de que se trata do homicídio sobre o qual o estranho remetente o avisara dias antes, mas nada consegue descobrir a respeito da origem da mensagem. Semanas depois, uma nova carta chega à sua casa, com o aviso de um novo assassinato que acontecerá, em alguns dias, desta vez em Bexhill. A partir daí, começa uma grande caçada em busca do louco assassino em série, que possui como únicas características identificadas o fato de sempre deixar um exemplar do ABC junto a suas vítimas (que não possuem nenhuma relação entre si) e de sempre antecipar o próximo crime em um bilhete enviado ao detetive. Os assassinatos parecem seguir uma estranha sequência alfabética, em que as vítimas possuem as mesmas iniciais da cidade onde moram. E caberá a Poirot, acompanhado de seu fiel amigo capitão Hastings e dos inspetores da Scotland Yard, descobrir a identidade do assassino e por que ele está matando aquelas determinadas pessoas. E por qual razão o escolhera para ser o destinatário de suas cartas! Será ele apenas um maníaco homicida?

Opinião

Minha expectativa era grande para este primeiro encontro com a Rainha do Crime. E posso dizer que não me decepcionei. Sua literatura é simples e eficiente! Por “simples”, refiro-me ao seu modo de escrever. O mistério por trás da trama é fantástico. Os crimes ABC é um livro de 256 páginas e dividido em 35 capítulos. Ou seja, é uma composição de capítulos todos muito curtos, o que faz com que a leitura seja rápida. A linguagem utilizada, apesar de ter ares mais formais – lembrem-se de que a obra foi escrita em 1936! –, é bem tranquila, sem rebuscamentos, o que também facilita a apreciação.

A trama criada por Agatha Christie é boa e forte. Diferentemente dos romances policiais/thrillers que estou acostumada a ler, aqui o foco principal não está sobre as vítimas e seus círculos sociais, mas sim na figura do detetive da história. Hercule Poirot, um homem já experiente, é descrito como metódico, observador, discreto, confiante e muito inteligente. É sob sua perspectiva e suas investigações que a história é contada e vai se desenrolando – apesar de ser narrada, na verdade, por seu amigo Hastings.

A leitura é fluida e corre bem, não é enfadonha. Pelo contrário, te aguça e faz querer ler tudo no mesmo dia – até por tratar-se de um livro razoavelmente pequeno. Agatha constrói uma trama satisfatória, com uma boa quantidade de elementos narrativos, personagens misteriosos e uma agradável reviravolta (no meio do livro, por conta de uma única fala, eu desconfiei de quem era o assassino e acertei, mas o final foi bem construído e não deixou de ser surpreendente). Confesso que senti um pouco de falta, no entanto, de mais ação propriamente dita e emoção no decorrer da história. As últimas dez páginas, mais ou menos, trazem toda a genialidade de Poirot, que, mesmo com pouquíssimos detalhes, consegue desvendar o caso por completo. Mas, no restante todo, o que se vê é um detetive de poucas palavras realmente importantes, que passa mais tempo refletindo – como bem diz para Hastings em algumas ocasiões – do que em atividade de fato. Achei-o um pouco apagado, em relação a tudo o que sempre ouvi – mas inegavelmente prodigioso. Além disso, vale registrar que a autora não se deteve em construir a fundo o lado psicológico de cada personagem. Conhecemos muito pouco das vítimas. No entanto, talvez seja um estilo de suas obras mesmo, que focam mais nas investigações policiais do que na parte humana/psicológica em si, o que não é nenhum demérito literário. Serei capaz de perceber melhor seu estilo nos próximos livros, que lerei com toda a certeza.

Por fim, queria registrar alguns comentários técnicos sobre a edição da Nova Fronteira, a que eu li. A capa dura, algo que dá um ar imponente e clássico, combinou com Agatha Christie. A seriedade é quebrada, no entanto, por sua ilustração, bem colorida e com um sabor bem jovial, pueril. Gostei, achei uma graça! A diagramação do miolo (o interior do livro) é bem padrão comercialmente e funciona de maneira satisfatória. A escolha do papel também acho que foi acertada – aquele “amarelinho”, sabe? Minha única ressalva fica por conta do tratamento com o texto, que poderia ter sido melhor. É a coisa mais natural passarem alguns errinhos em livros, eu bem sei disso. Mas encontrei uma quantidade razoável de pequenos problemas, desde erros de digitação a palavras escritas equivocadamente mesmo. Fica a observação para reedições. 😉

Nota

Para a trama de Agatha Christie Os crimes ABC, dou nota 9/10. Acho que, para sua proposta literária, a narrativa cumpre muito bem e é, sem dúvidas, uma leitura agradável, além de ter um enredo excelente. Eu gostei e lerei outros, para poder analisar melhor o estilo da autora. Esperava um pouquinho mais do livro em termos de emoção e movimento no início e no meio, principalmente por parte de Poirot, como disse acima, mas nada que diminua o meu apreço.

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Abrindo o livro (O Eu Literário)

Ficha do livro

Título: Os crimes ABC
Autora: Agatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 256
Ano: 2015
Edição: 1ª

 

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Miolo (O Eu Literário)

“A vítima perfeita” e “Objetos cortantes”: a centralidade das personagens femininas

Olá, queridos!

Começo pedindo desculpa pela longa ausência de postagens do blog; é que estive (ainda estou, na verdade) com problemas pessoais. Mas para mostrar que as atividades por aqui não acabaram, trago agora um post novo, sobre duas de minhas últimas leituras: romances policiais com thriller psicológico, com muito suspense, mistério, investigação e segredos a serem descobertos – meu tipo de leitura “favoritaço”, eu confesso!

Os dois escolhidos foram A vítima perfeita (Rocco, 2015, 432 p.), de Sophie Hannan, e Objetos cortantes (Intrínseca, 2015, 256 p.), de Gillian Flynn. Ambos possuem histórias totalmente diferentes, mas o fio da navalha é semelhante: protagonistas que se veem em meio a um mistério policial, envolvendo sumiços/mortes, e que saem em busca de pistas para desvendar e compreender o que aconteceu. Ah, e que se descobrem partes integrantes daqueles quebra-cabeças, muito mais do que podiam imaginar. Clichê dos romances policiais/thrillers psicológicos – dois gêneros que costumam ser inter-relacionados. Algo, no entanto, se destacou para mim: nas duas obras, essas personagens principais são mulheres – e que possuem alguma fragilidade psicológica e emocional proveniente de um grande trauma do passado, mas se mostram autônomas e suficientemente fortes para enfrentarem seus desafios. Veio-me a reflexão: por que em boa parte das vezes as personagens mais exploradas nesses livros têm sido mulheres?

A vítima perfeita, Objetos cortantes e seus personagens (ops, SUAS!)

Em A vítima perfeita, Hannah traz três personagens femininas comandando a história, por diferentes ângulos e direções. Naomi Jenkins, uma jovem empreendedora independente e bem-sucedida, a grande protagonista da trama, que carrega um segredo trágico de seu passado e se entrega à paixão nos braços de um desconhecido que mantém com ela um caso extraconjugal; a sargento-detetive Charlie Zailer, policial astuta e que comanda uma equipe masculina, mas que aparentemente não se dá muito bem na vida amorosa; e Juliet Haworth, a esposa do amante de Naomi, que é descrita por ele à namorada como muito frágil e dependente. Após se relacionar por um ano com o caminhoneiro Robert Haworth, encontrando-o sempre uma vez por semana em um mesmo quarto de hotel simplório, Naomi fica muito preocupada e desconfiada quando, em uma determinada quinta-feira, ele simplesmente não aparece, não avisa e não dá mais nenhum sinal. A partir daí, a história se desenvolve. Naomi fica sem entender o sumiço do amante e resolve ir procurá-lo na residência do casal, mesmo ele sempre tendo feito-a prometer que jamais iria aparecer por lá. Sem encontrá-lo (mas vendo seu caminhão estacionado na porta), e dando de cara com uma fria e misteriosa Juliet, apela para a polícia, que não dá muito crédito ao desespero da mulher, acreditando se tratar de um mero caso amoroso em que o cara decidiu largar a amante. Desesperada, Naomi resolve, então, inventar uma história na tentativa de chamar atenção dos policiais para o caso. Mas o que era uma parcial invenção vai se revelando não tão falso como ela imaginava. Apesar de a trama girar aparentemente em torno do desaparecimento de Robert, quem dá as cartas é mesmo a trinca de mulheres durante todo o tempo.

Agora vejam que coincidência. Em Objetos cortantes, novamente me deparei com três personagens femininas desenovelando a trama. Três fortes, enigmáticas e obscuras mulheres. Gillian Flynn nos apresenta a protagonista Camille Preaker, uma mulher na casa dos 20 e muitos anos, bastante fechada e fragilizada, recém-saída de uma clínica psiquiátrica onde passou um tempo internada em virtude de praticar automutilação. Camille mora sozinha, longe da família, e não possui uma boa relação com a mãe. É jornalista de um impresso de pouco prestígio e se considera uma pessoa medíocre. Para o seu azar, o chefe lhe manda passar uns dias em sua cidade natal, a pequena e pacata Wind Gap, onde a jovem não vai há muitos anos, a fim de conseguir uma supermatéria para o jornal, investigando o estranho desaparecimento de uma criança na localidade. Apesar de ficar assombrada com a ideia, ela aceita, para provar ao seu chefe – e principalmente a si mesma – que é capaz de enfrentar esse desafio em busca do sucesso profissional. Daí em diante, Camille acaba se vendo de volta ao seu passado – e obrigada a morar novamente com a mãe, na casa onde cresceu. Na residência, vivem Adora, uma dona de casa elegante, que faz a linha mãe superprotetora com a filha caçula, Amma (meia-irmã de Camille), mas que parece desconfortável com a presença da primogênita, e ainda sente-se perturbada pela morte precoce da filha do meio, Marian, falecida antes do nascimento da mais nova; o padrasto de Camille, Alan, uma figura absolutamente insossa, vazia e inexpressiva, que vive às sombras de Adora e de Amma; e a tal meia-irmã, de 13 anos, uma adolescente dúbia, provocativa e misteriosa, que se comporta como uma criança, ou melhor, como a boneca da mamãe, em casa, e como uma mulher imponente e insinuante na rua, a típica líder das mean girls do colégio – e com quem a jornalista nunca tivera contato, a bem dizer, antes de voltar agora à sua cidade. Enquanto Camille investiga os fatos em busca de notícias sobre o desaparecimento para suas matérias, percebe que este está relacionado com outro desaparecimento seguido de homicídio de uma garotinha no ano anterior, e se vê novamente envolta em sua complexa e conturbada teia familiar, mais uma vez imersa em seu passado. As descobertas que surgem são capazes de mudar toda a sua vida.

A força das personagens femininas

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

(Imagem retirada do Google/Reprodução)

Parece que trabalhar com personagens femininas em thrillers psicológicos e romances policiais dá certo. Mulheres que reúnem inúmeras complexidades emocionais, capazes de passar por traumas profundos e superá-los, tocar a vida, camuflar as cicatrizes e ser, inclusive, profissionais descoladas e muito bem-sucedidas, independentes, como no caso de Naomi Jenkins. Outras que, devido a toda uma infância e juventude muito conturbadas, possuem traumas muito enraizados, problemas emocionais que de tão profundos afloram na pele, mas que, com um esforço maior do que se pode imaginar, seguem vivendo – ou sobrevivendo –, e ainda se veem capazes de se deixar emaranhar pelos fios familiares novamente, como ocorre com Camille Preaker, em nome do comprometimento profissional. Se em A vítima perfeita o foco fica mais na história policial em si, com desaparecimentos, buscas, investigação, segredos, descobertas, ação e reviravoltas, Objetos cortantes prioriza as relações humanas e psicológicas. Flynn mergulha mais fundo na psique humana e explora o lado obscuro das pessoas, os efeitos emocionais que cada acontecimento pode gerar no indivíduo, e nos mostra, com detalhes muito bem trabalhados, doentes relações familiares. Uma em maior e outra em menor profundidade, essas autoras desnudam as inúmeras camadas emocionais e psicológicas de personagens fortes, independentes e muito distintas entre si, mas que compartilham de traumas que as afetaram definitivamente. Mulheres comuns, do dia a dia, com dramas semelhantes aos de muitas nós, com certeza (e infelizmente, porque o número de estupros, crime cometido contra uma das personagens, é enorme). Mas o principal: mulheres que fogem daquele antigo estereótipo feminino, das simples e meramente frágeis, resignadas a participações secundárias, as que serviam mais para ilustrar (ou serem vítimas). Aqui, o papel muda. Mostram-se mulheres no ápice de suas possibilidades. Vítimas de dramas, mas donas de suas próprias vidas. Mocinhas e vilãs (de si mesmas). Repletas de faces. Protagonistas. E não mais só de romances água com açúcar.

Mas por que será que personagens femininas têm feito tanto sucesso em tramas complexas, psicológicas, policiais, profundas e cheias de reviravoltas de um tempo para cá? Por que é cada vez mais comum encontrarmos Naomis e Camilles em thrillers na literatura? Lembro, por exemplo, que outros dois conhecidos livros do gênero escritos pela própria Gillian Flynn, Garota exemplar e Lugares escuros, também são centrados em personagens mulheres. Ok, as autoras são também mulheres, talvez suas escolhas sejam uma mera questão de identificação, de maior conhecimento humano, de sororidade. Mas me parece que a graça (e a força emotiva) tem estado em nós! (risos) Mas sem aquele clichê de que é porque “mulheres são complicadas”, e por isso combinam com personagens “confusas”, né? Talvez consigamos explorar mais – sem generalizações e sem sexismo, por favor – nossas várias e possíveis camadas psicológicas e acessar mais de uma emoção ao mesmo tempo. Sensibilidade aguçada. O que, é claro, rende personagens potenciais. Além disso, acho que o contexto social do mundo tem sua parcela nessa mudança de paradigmas literários também. Se a mulher tem conquistado, à base de muita luta, seu lugar na sociedade, em busca da igualdade de gêneros, parece que o mesmo está refletindo na literatura. E muito me agrada.

Mas, é preciso ter cuidado…

Houve, no entanto, detalhes que me causaram certo incômodo nos dois livros, justamente relacionados ao fato de as histórias serem pautadas em personagens femininas: presença de machismo. Algo que pode ter sido inserido nas duas narrativas pelas autoras justamente como uma forma de chamar atenção para tais coisas que acontecem na sociedade e que precisam ser encaradas de forma diferente, precisam acabar; ou seja, talvez, e até possivelmente, tenham sido escritos como forma de crítica mesmo, de repúdio. Mas o fato é que me nausearam.

Naomi Jenkins foi estuprada e parece tratar disso como se ser considerada uma vítima fosse um erro. Ela não se considera “vítima”, nem “sobrevivente”, e mesmo que a postura da personagem seja apenas uma forma autodefensiva para tentar se proteger de todo o sofrimento pelo qual passou, confesso que algo em seu comportamento gerou um incômodo em mim. Não sei especificar exatamente o quê. Talvez uma mistura de conformidade com muitos questionamentos do tipo “Será que eu fiz algo para merecer?”. Em contrapartida, senti falta de um discurso contrário no livro. Tentei pensar pela cabeça dela, e acho que pode ser normal esse tipo de pensamento em uma mulher que sofreu uma violência tão brutal como essa. Como ela mesma diz em um trecho, talvez quanto menos se fale naquilo, menos busque-se enfrentar, menos real aquilo pareça ter sido. Uma forma de escapismo. Mesmo assim, em muitas páginas eu tinha vontade de gritar para ela: “Miga, você é vítima, sim! Não é questão de ‘se vitimizar’, é um fato, trata-se de um crime do qual você foi a vítima. A culpa de nada disso que você sofreu é sua; a culpa nunca é da pessoa estuprada, mas tão somente do ser que cometeu o estupro! Força, não se envergonhe. Estamos com você!”. A cultura do estupro existe, e acho que deve, sempre e sempre, ser tão somente combatida, e pensamentos de negação, conformismo e culpabilização da vítima, repelidos. Inclusive na literatura.

Já na trama de Objetos cortantes, o machismo se expressou de outras maneiras, mais explícitas. A típica cidade pequena, cheia de preconceitos e com comportamentos estigmatizados. Garotas adolescentes que transam como forma de status e são tratadas como objetos sexuais, e mulheres que são tratadas como enfeites e criadas para serem mães e donas de casa. Há uma cena especialmente forte para mim nesse sentido, que mostra como o machismo está enraizado naquela sociedade, em práticas, pensamentos e hábitos que não o detectam e o consideram normal: o momento em que Camille conta para o jovem policial Richard, que é de uma cidade grande e está em Wind Gap investigando os casos dos desaparecimentos e mortes das menininhas, como foi a primeira vez de uma garota de sua turma na época do colégio. A adolescente, que na verdade era ela, ficara bêbada e então transara com “quatro ou cinco” caras do time de futebol seguidamente, sendo passada de um para outro. Ao ouvir, Richard se choca e pergunta se a jovem chegara a prestar queixa de estupro na polícia, pois era isso que havia acontecido. E Camille reage dizendo que só porque a garota transara com vários, bêbada, não quer dizer que tenha sido uma vítima ou que precisasse ser “cuidada”. E chama o policial de machista por pensar isso. Se há elementos importantes na fala da protagonista, sobre mulheres terem direito a fazer o que bem entenderem com o próprio corpo e terem liberdade para transar com quantos quiserem, há também, nitidamente, uma deturpação no discurso, uma visão distorcida sobre tudo isso.

Para não prolongar mais (e nem dar muitas informações e detalhes sobre as histórias), acho que por mais que as intenções das autoras possam ter sido alertar e dar luz a fatos que necessitam de atenção, a impressão que ficou para mim é de que faltou um pouco de tato nesse aspecto. Personagens centrais femininas, mostrando as inúmeras possibilidades psicológicas, comportamentais e sociais de mulheres, são maravilhosas. Mas é preciso ter certo cuidado com a forma de abordagem de determinados estereótipos, para combater mais o machismo, e não corroborar com ele de forma alguma.

(Foto: O Eu Literário)

(Foto: O Eu Literário)

Notas para os livros

Gostei de ambas as leituras. Como aprecio o lado psicológico de personagens, achei que essa parte foi bem explorada e desenrolada em Objetos cortantes e gostei disso. No entanto, em relação ao enredo do livro como um todo, senti falta de mais ação investigativa e policial. O final, apesar de ter uma boa proposta, parece que foi cuspido nas últimas páginas às pressas. Perdeu pontos por isso. Eu daria nota 7,5/10. Já em A vítima perfeita, Sophie Hannan conseguiu construir satisfatoriamente um conjugado de fatos que se interligam, com descobertas que vêm em um ritmo bom, sem deixar nenhuma parte enfadonha. Tem investigação, tem bastante ação, tem suspense; e não deixa de ter um lado humano das personagens, apesar de não ter sido explorado aqui em tanta profundidade. Acho que se a autora tivesse destrinchado mais a protagonista, Naomi, e Juliet, penetrando-as mais, o livro poderia ter sido ainda melhor. Achei-as meio apática – apesar de fazer sentido que elas sejam assim. Dou 8,5/10. E recomendo os dois livros! 😉

“Babilônia” e o preconceito, o machismo e a hipocrisia

Beijo Teresa e EstelaBeijo Ivan e Sérgio

(Imagens de cenas do último capítulo da novela – Reprodução/Google)

“Babilônia” terminou na noite desta sexta-feira, 28 de agosto, e ficou marcada como a “pior novela das 21h da Globo de todos os tempos”, como muitos sites repetiram ao longo dos últimos meses. Ok que o último capítulo foi bem mal-estruturado mesmo. Inês foi condenada pela morte do pai da Regina, cuja assassina era a Beatriz e todos os personagens da novela já sabiam disso, inclusive muitos ouviram a sua confissão. Mas, mesmo assim, a Justiça considerou que a culpada era a Inês (?!). Depois, ambas apareceram presas, e enquanto isso ninguém parecia sentir falta de nenhuma – que nenhum personagem mencionasse a Beatriz era aceitável, mas a Inês tinha filha, tia e todos sabiam que ela era inocente. Ninguém se lembrava mais dela, sentia sua falta ou lamentava o que a loira estava passando? Mas passou batido. Por fim, teve a fuga das duas rivais da prisão, e a cena do carro caindo do penhasco e elas se olhando (com Inês sorrindo!) foi demais de esquisita. Ah, mais uma vez, na sequência não rolou nenhuma repercussão sobre a morte de Beatriz e Inês. Normal, vida que seguia entre a galera lá. Enfim, o final foi bem estranho, mas ok, novelas têm dessas coisas, o foco deste post não é esse.

Quero dizer o seguinte: talvez o enredo central de “Babilônia” tenha ficado fraco mesmo. Mas foi tão pior do que tantos outros que já passaram pelas telas da TV? Particularmente, não acompanhei de cabo a rabo, mas não vi nada demais quanto à história. Nada que justificasse esse estigma de “pior novela de todos os tempos” ou essa baixa audiência e a enxurrada de críticas de diversos telespectadores. Pelo contrário, eu gostava da novela. Para começar, o elenco contou com nomes de peso: Adriana Esteves, Glória Pires, Camila Pitanga, Fernanda Montenegro (!), Nathalia Timberg, Bruno Gagliasso e diversos outros que atuaram muito bem. Além disso, botou o dedo na ferida, em muitas feridas! Mas o que, para mim, foi sua maior virtude, foi o que a fadou ao “fracasso”.

Logo de cara, nos primeiros capítulos, chegou com um beijo longo e carinhoso entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Choque entre as famílias tradicionais brasileiras [ironia detectada]. Já a personagem de Glória Pires era uma pegadora nata, muita atitude e muito sexo. Choque geral. Sabe o que acontece? Pessoas do mesmo sexo não podem se amar, nem muito menos demonstrar seu amor. Mulheres não podem se comportar como os homens, devem ser delicadas e “bem-comportadas”. Em outras palavras, as pessoas não aceitam assistir a “beijo gay” (não gosto dessa expressão) e nem a mulheres que fujam dos estereótipos de “como as mulheres devem se portar”. Outro exemplo disto, aliás, foi a história de Alice, personagem de Sophie Charlotte, que teve de ter seu rumo alterado porque o público mostrou não aceitar que ela fosse uma garota de programa. E aí está o grande fracasso de “Babilônia”: cedeu à censura da sociedade, começou a modificar as tramas às pressas, perdendo várias sinopses que já estavam programadas e vendo muitos personagens ficarem meio perdidos. Com isso, claro que deve ter rolado desgaste entre os autores, a direção e os atores. E a própria trama central acabou perdendo um pouco a força, já que viu seus personagens sendo modificados.

Tudo isso porque beijos e cenas bem mais ousadas entre homens e mulheres pode, personagens do Zé Mayer pegando todas as mulheres do elenco pode; já carinho entre Estela e Teresa ou Beatriz tendo a iniciativa e transando com muitos, não. Qual é o problema, Brasil?

O problema, além de homofobia e machismo declarados, é a hipocrisia. A novela veio esfregar na nossa cara tudo aquilo que está presente no dia a dia, mas as pessoas ainda insistem em negar e tentar esconder. Machismo? Não existe, é tudo invenção e chatice das “feminazis”. Preconceito? Não, não somos homofóbicos, os gays só não precisam se beijar no meio da rua, né? Oi?!

“Babilônia” ainda enfiou o dedo em muitas feridas. Os preconceitos contra pessoas que moram nas favelas e contra negros. E nos presenteou com o núcleo do prefeito Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira) e sua mãe, Consuelo (Arlete Salles). Pregando o nome do “Altíssimo”, apontavam o dedo na cara das pessoas e usavam a religião como justificativa para apedrejar os homossexuais. Mas, da maneira mais hipócrita possível, eram totalmente adeptos da corrupção e de todos os tipos de falcatruas – sem contar todas as traições de Aderbal à sua esposa. Uma lógica que se repete frequentemente na nossa sociedade (e na nossa política). Beijo não pode, comportamentos iguais entre homens e mulheres não pode, mas discriminar, julgar, ofender, xingar, roubar, trair, enganar o povo e armar falcatruas pode. E, de acordo com os baixos índices do ibope e com diversos comentários nas redes sociais, uma enorme parte dos telespectadores compactua com essa lógica. Sociedade, cadê a sua coerência? Quando você vai evoluir?

“Babilônia”, parabéns por mostrar o que a maioria tenta esconder. E, para fechar com a mesma pegada que começou, rolaram dois beijos lindos no último capítulo (deviam ter continuado rolando ao longo de toda novela, mas antes tarde do que nunca, né?). Espero que venham mais novelas REAIS, tratando de assuntos que importam, e menos nhem nhem nhens 🙂

 

 

Livros que me marcaram: memórias da infância

“Sou a marca de uma lágrima tão profunda quanto a solidão.”

Alguém aí se identificou? Eu, sim. Principalmente, quando tinha 11/12 anos de idade. A frase acima faz parte do livro A marca de uma lágrima, de Pedro Bandeira. Foi, sem dúvidas, um dos livros que mais marcou minha infância e o início da minha adolescência. E, hoje, escolhi falar um pouquinho disso, dividir com vocês livros que li entre meus 5 e 14 anos e que me tornaram quem sou – porque somos o que lemos, né?

Capa de A marca de uma lágrima (Imagem do Google)

Capa de A marca de uma lágrima (Imagem do Google)

Ainda criança pequena, já gostava de ler. E, pra minha sorte, da antiga Classe de Alfabetização até a 8ª série, estudei em um mesmo colégio, que prezava muito pelo estímulo à leitura. A escola tinha, como uma de suas disciplinas, um projeto de leitura. Funcionava assim: no início de cada ano letivo, eles comprovam X livros (acho que uns 30, porque as turmas não eram muito numerosas, costumavam ter em torno de 15 a 25 alunos) e deixavam todos em uma caixa. Uma vez por semana, o professor (a partir de 5ª série, quando passa a haver vários professores, um para cada matéria, existia um destinado particularmente e apenas para a aula do projeto) pegava a caixa com os livros e, seguindo alguma ordem – alfabética crescente, decrescente ou outras várias –, ia chamando cada aluno pra ir até lá e escolher, dentre todos aqueles, um livro pra levar pra casa. Os alunos tinham, então, uma semana pra ficar com o livrinho em casa e lê-lo. Na semana seguinte, o professor trazia de novo a caixa e tínhamos, cada um, de apresentar o livro lido de alguma forma. Tínhamos também um caderninho específico para as aulas do projeto de leitura, no qual fazíamos sempre trabalhos diversos sobre a obra. Enfim, uma beleza! Aí, no final do ano, todos os livros eram divididos pelos alunos da turma (às vezes, eram sorteados; às vezes, podíamos escolher com os quais queríamos ficar, e aí a ordem de estudantes para irem escolher era dada por aqueles que mais tinham lido – porque, nas séries mais avançadas, os livros já não eram tão infantis e havia muitas disciplinas, trabalhos e provas, além da vida extraescola, né, então era comum não devolver o livro em apenas uma semana, e só podíamos devolvê-los após a leitura estar completa, já que obrigatoriamente fazíamos trabalhos sobre cada um). Li muuuuito (e ganhei muitos livros legais) por causa do colégio. ❤

Da infância mais infância, títulos que ficaram na memória foram, dentre alguns outros, Um osso duro de roer, que era a história de um cachorrinho; Fininha fofinha, sobre uma elefantinha foférrima; e A foca famosa. O primeiro, eu nunca tive, porque não fui agraciada pelo sorteio do projeto de leitura (rs), e os outros dois dei há uns anos, em uma das mudanças que fiz – detesto mudança, ela nos obriga a desapegar de coisas que não queríamos na verdade.

Capa de A foca famosa (imagem do Google)

Capa de A foca famosa (imagem do Google)

Capa de Bruxa Onilda e a macaca (imagem de divulgação, do site da editora Scipione)

Capa de Bruxa Onilda e a macaca (imagem de divulgação, do site da editora Scipione)

Na sequência, fui apresentada, em casa mesmo até, à destrambelhada Bruxa Onilda. Histórias infantis ainda, mas já mais desenvolvidas, além de divertidinhas. Li (e tive) toda a coleção. Os primeiros que ganhei foram Bruxa Onilda e a macaca e O casamento da Bruxa Onilda. Os meus preferidos, além deste último, acho que eram Bruxa Onilda vai à festa e As memórias da Bruxa Onilda (os livros das trigêmeas já não me conquistaram). Acho essa coleção muito bacana pra crianças, especialmente entre uns 7 e 9 anos. Dessa época, também lembro-me de Irmão imaginário, de Lorris Murail; Ele é meu namorado e Estou de mal, de Beatrice Rouer.

Em 2001, veio a minha primeira Bienal. Lembro que nunca tinha me sentido tão maravilhada em um lugar. Era muuuita coisa pra  ver, pra olhar, pra folhear. E muitas opções de escolha (librianos detestam ter de decidir, afinal, eu queria todos!). Fui com meus pais, e saí de lá com meu primeiro livro “grandinho”: Confusões e calafrios, da coleção Vaga-lume, da editora Ática. Ainda não tinha completado 10 anos, e lembro que meus pais ficaram me advertindo de que aquele livro não era como os que eu estava acostumada a ler até então, não tinha figuras, e perguntavam: “Você vai ler isso??”. Peitei. Ia, sim, ora bolas! O livro tinha me chamado, me atraído. Tinha rolado a química, não era a ausência de figuras ou as páginas a mais que seriam um empecilho. Pelo contrário, tomei aquilo como um desafio. Queria dar um passo à frente nas minhas leituras. E, sim: li o livro rapidinho e AMEI. Ele foi o abre-alas dos livros infantojuvenis na minha vida, os meus xodós (assumo!).

Dois livros que ainda guardo em minhas estantes (Foto: O Eu Literário)

Dois livros que ainda guardo em minhas estantes (Foto: O Eu Literário)

Dentre os infantojuvenis, um dos mais especiais foi justamente A marca de uma lágrima, que li pouco tempo depois. Não foi o meu primeiro contato com Pedro Bandeira; já o havia conhecido com Mariana, outra graciosidade, aliás. Mas foi com A marca que o autor me conquistou definitivamente. Texto delicado e sensível, história bem-escrita. Comecei a ir atrás de livros dele, então. Vieram todos os Karas (recentemente, não resisti e comprei e li o último da série, o recém-publicado A droga da amizade), Agora estou sozinha, Como conquistar essa garotaAqueles olhos verdes, Amor impossível, possível amor… Também li O primeiro amor de Laurinha e o conhecido O fantástico mistério de Feiurinha, apesar de serem mais infantis. Além de Pedro Bandeira, entre meus 11 e 14 anos também li diversos infantojuvenis de romance adolescente e de mistério/suspense – adoro! Vou destacar, aqui, duas coleções que tanto me marcaram e têm memória afetiva pra mim: Vaga-lume, da Ática, e Veredas, da editora Moderna. Ai, ai, que saudade… Quantos livros! Deixa eu dividir outros títulos que me vêm à cabeça: O gênio do crime, de João Carlos Marinho; A turma da rua quinze, de Marçal Aquino; Um cadáver ouve rádio, de Marcos Rey; Na mira do vampiro, de Lopes dos Santos; A ladeira da saudade e Um girassol na janela, de Ganymédes José; Amor de verão, A casa do terror e Para tão longo amor, de Álvaro Cardoso Gomes; Crescer é perigoso e Um amigo no escuro, de Marcia Kupstas; Meu primeiro beijo, de Walcyr Carrasco; O mistério mora ao lado, de Giselda Laporta; Plano B, missão namoro, de Angélica Lopes; Tudo por um namorado, de Thalita Rebouças; e Avalon High, de Meg Cabot.  Ah, outros dois livros que me marcaram também foram O morro dos ventos uivantes, de Emile Brontë, e O retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde.

Já no início da adolescência, começaram a surgir os livros maiores… Saga Harry Potter. ❤ Amo, apaixonada. Já Senhor dos anéis nunca me atraiu. Nem Diário da princesa. A série Crepúsculo, li e gostei. Em geral, o que me atraía mais eram thrillers, romances policiais. Um com o qual me deleitei chama-se Um corpo para o crime, da escocesa Val Mcdermid. Já uma trilogia que tenho muita vontade de ler até hoje (mas fiquei na enrolação na época) é a Millennium, do sueco Stieg Larsson.

Meus HPs eu não dou de jeito nenhum!

Meus HPs eu não dou de jeito nenhum! (Foto: O Eu Literário)

Por fim, destaco Machado de Assis. No 1º ano do Ensino Médio, aos 14 anos, tivemos de ler Dom Casmurro para a disciplina de literatura. Ali, tive meu primeiro contato com essas obras “mais clássicas”. Curti muito o livro e é uma das minhas referências literárias até hoje.

Estas são as principais memórias literárias da minha infância/início da adolescência, fase em que fui leitora mais intensamente. Sabem o que é mais fantástico? Conforme eu fui escrevendo aqui, vários “trechinhos de memórias”, coisas muito vagas e muito soltas, de livros que li, foram vindo à minha mente. Que delícia… Uma pena que haja tantas coisas soltas, difícil lembrar o nome de cada livro. Bom, espero que gostem e se identifiquem em alguns momentos. Será que vocês também leram muitos desses livros? 🙂

Beijinhos

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